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Você vai errar, e está tudo bem

Entre teorias, regras e comparações, mães e pais se sentem constantemente falhando. Se é o seu caso, calma! Não é preciso seguir tudo o que dizem os manuais para criar filhos felizes



Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Era um evento grandioso, que propunha reflexões sobre as muitas questões da parentalidade. Havia cursos, palestras, oficinas. Numa correria sem fim, quatro mães tentavam se equilibrar para anotar tudo aquilo que aprendiam com os entendidos do assunto, e dividir a atenção entre os palestrantes e seus bebês recém-nascidos que também estavam ali. E elas, mães puérperas, poderiam ser nós, você, sua cunhada, seu amigo. Elas são o retrato de uma nova geração de pais que busca informação a qualquer custo, na tentativa cruel de não falhar.


Essa cena foi descrita pela pediatra Laís Valadares, que estava no evento e diz ter se surpreendido ao ver, na plateia, quatro mães com bebês tão novinhos, com menos de dois meses de vida. “Eu fiquei impressionada. Elas estavam no puerpério e não era hora de cobrança, de ficar ouvindo palestras...”, comenta Laís, para quem a atual geração de pais tem “muita informação e pouco conhecimento”.


Uma geração de pais superinformados


Além de palestras e rodas de conversas, os pais e mães de hoje têm, com muita facilidade, acesso a grupos virtuais, lives nas redes sociais, workshops online, livros, artigos, depoimentos... Uma enxurrada de sugestões, regras, proibições, orientações e, também, comparações. Alguns direcionamentos na criação dos filhos são divergentes de outros, mas todos são defendidos por outros pais e mães, na internet e no mundo real, como times de futebol.


"Com tanta informação, os pais ficam um pouco perdidos. Eles deveriam largar as teorias e usar a voz do coração", aconselha a pediatra.

Quem corrobora a opinião de Laís é a socióloga e psicóloga sistêmica Carolina Dantas, coordenadora dos projetos "Atravessando Psicologia" e "Cá Entre Mães". A especialista afirma que, mesmo com tanta informação disponível, somos uma geração de pais cada vez mais inseguros.


"Eu sinto que estamos nos desconectando cada dia mais de nós mesmos. Isso se dá por diversos motivos: excesso de trabalho, carga mental, falta de rede de apoio, falta de tempo", afirma. "E, ao nos desconectarmos de nós, ouvimos cada dia menos a voz da nossa intuição, tão poderosa e fundamental na criação de filhos. Esses mesmos motivos que nos levam a nos distanciarmos de nós, também nos levam a nos desconectarmos dos nossos filhos. E quanto mais desconectados de nós e deles, mais dúvidas teremos, mais inseguros ficaremos".


Isso não significa, entretanto, que os livros e cursos que a atual geração de pais tem à disposição só atrapalha. Pelo contrário. "Até a geração dos nossos pais, estudar para criar e educar um filho era algo sequer discutido. Quando queriam ou precisavam de alguma informação sobre isso, recorriam aos poucos livros disponíveis no mercado ou, na maioria das vezes, perguntavam para as pessoas da sua rede que julgavam mais experientes. E assim, o modelo de criação de filhos baseado em crenças e mitos antigos sobre a infância e sobre formas de educar foi sendo passado de geração em geração, sem muitos questionamentos", pontua Carolina. "Os pais faziam da melhor forma que sabiam, o melhor que podiam com as ferramentas e conhecimentos que tinham".


A disponibilidade de teorias, entrevistas e aulas ao alcance de um clique é algo recente, e somos a primeira geração a ter tudo isso com tamanha facilidade. Portanto, é natural que estejamos confusos em meio a tantas recomendações e "não podes". Estamos nos adaptando.


"Transformações culturais, sociais e políticas mudaram o olhar sobre a infância, sobre a educação e sobre o exercício da parentalidade. Muitas estratégias e ferramentas utilizadas na educação começaram a ser questionadas, novas maneiras foram aparecendo e é natural que nos sintamos meio perdidos no meio de tanta informação", pondera a socióloga e psicóloga.


"Por outro lado, essa é uma oportunidade de refletirmos sobre o modelo de educação que recebemos, suas conseqüências e de forma mais consciente pensar sobre o modelo que desejamos seguir, entendendo que não existe nenhum modelo que funcione como uma fórmula mágica, assim como também não existem pais perfeitos. Estamos em construção!".


Na prática, a teoria é outra


Cada filho é único. E cada mãe e pai, também. Por isso, muitas vezes, as teorias são apenas isso: um punhado de ideias organizadas, mas subjetivas e desconexas da realidade. As dicas para fazer o recém-nascido dormir por horas a fio não funcionam na casa da gente, o desfralde é caótico, a tal da pega correta não parece resolver as dificuldades para fazer a amamentação fluir... E, com tudo aparentemente dando errado, mães e pais se sentem falhos, insuficientes e ruins.


"Pai e mãe querem fazer tudo para acertar", diz a pediatra Laís Valadares.

Na avaliação dela, a ansiedade da nova geração por não errar é reflexo das atitudes da juventude de hoje. "Muitos adultos jovens cresceram com poucas frustrações, não conseguem parar em nenhum emprego e não sabem trabalhar em equipe. Os pais responsáveis estão vendo isso e ficam com medo de ter filhos assim. Como estão começando a educar, eles querem impor limites e regras em bebês, como é o caso da amamentação de três em três horas", reflete a médica, que acredita que, embora hoje os pais sejam conscientes de que o filho precisa ter frustrações, a preocupação em não permitir que a criança faça e tenha de tudo faz com que muitos enveredem por um caminho excessivamente regrado e proibitivo.


Mas, se não queremos que nossas crianças cresçam sem saber lidar com 'nãos', e nem que sejam robotizados por uma rigidez extrema, qual é o caminho? De acordo com a pediatra, respeitar a individualidade de cada filho e seguir a própria intuição. "Os pais têm que pensar naquilo que dará certo para o seu filho. Eles têm que pensar: ‘vou deixar meu bebê chorando no berço porque alguém falou que o colo faz mal? Será que não tenho que ouvir os meus instintos?", provoca Laís.


A grama do vizinho não deve servir como parâmetro


No portão da escolinha, uma mãe conta que a filha já faz três refeições por dia aos 12 meses, enquanto o seu bebê ainda se concentra só em cuspir cada vez mais longe a própria comida. A sobrinha de uma amiga fala as cores em inglês e alemão, e ainda nem concluiu o Maternal 3. E, enquanto seu filho sofre para passar de ano em matemática, o menino do motorista do Uber foi aceito em Harvard aos 15 anos. Com tantos exemplos para se comparar e se sentir em desvantagem, fica difícil não chegar em casa se fazendo a famigerada pergunta: "onde foi que eu errei?".


A comparação entre as maneiras de criar os filhos e, conforme eles crescem, entre as realizações de cada criança, é frequente. Mas é preciso ter sempre em mente que cada filho é um indivíduo, e tem suas particularidades, habilidades, dificuldades, e também sua trajetória. Esperar que os próprios filhos sempre "vençam" os filhos dos outros nos feitos e conquistas não é saudável nem para os pais, tampouco para a criança ou adolescente.


O que a cria dos outros faz ou deixa de fazer não deve ser a regra para nenhuma família. Para a socióloga e psicóloga Carolina Dantas, as referências para saber se está tudo bem com as crianças e adolescentes não estão fora de casa, mas dentro dela. Basta observar a maneira como cada um convive em família. "Crianças choram, acordam à noite, dão trabalho, querem colo, recusam comida, e isso é normal, isso é o esperado. A orientação que sempre passo para os pais avaliarem se estão no caminho certo é estarem sempre atentos à qualidade do vínculo que estão estabelecendo com seus filhos e à forma como os filhos estão respondendo às situações e experiências que a vida oferece", diz Carolina.


"Para saber se algo está fora do considerado "normal", é importante que os pais se conectem cada vez mais consigo mesmos e com os filhos, conheçam as fases de desenvolvimento da criança, tentem compreender o processo de adolescência, estejam atentos às expectativas irreais sobre a infância. E, claro, não tentem enquadrar os filhos em modelos idealizados".

A psicóloga explica que um dos indícios de que algo precisa ser olhado mais atentamente é a dificuldade de os membros da família se conectarem uns com os outros. "Bons indicadores de que algo precisa ser olhado com mais cuidado são o distanciamento físico ou afetivo e a dificuldade na comunicação dentro do sistema familiar", indica.

"Se seu filho está cada dia mais fechado, triste, ausente ou agressivo, se estar em família não é confortável para alguém ou se perceber que algo está fugindo do que considera saudável, a sugestão é buscar ajuda especializada".

O que fazer com os próprios erros?


Relaxar, se comparar menos e não se preocupar em seguir todas as regras são dicas vitais para mães e pais não enlouquecerem. Mas e quando nós, de fato, metemos os pés pelas mãos e pisamos na bola com os nossos filhos?


Pode ser uma bronca aos gritos no fim de um dia exaustivo, um comentário fora do tom na frente dos amigos da filha... Seja lá qual for o erro, todos os pais e mães são humanos e estão sujeitos a cometê-lo.


Para esses casos, a fala de Carolina Dantas é tranquilizadora. "O fato de a gente reconhecer que errou já é um sinal claro de que estamos fazendo o nosso melhor, mesmo que não consigamos sempre", diz a psicóloga. "Precisamos sair do lugar da culpa e assumir nossa responsabilidade, e isso é possível quando encaramos os erros como oportunidades de aprendizagem. Não somos nem nunca seremos perfeitos como mães, ou pais".


A especialista explica que dúvidas e erros são perfeitamente saudáveis e fazem parte do processo de evolução de cada pai e mãe. "A parentalidade é um lugar de constantes desconstruções e construções e nesse espaço pouca coisa é certeza. Ter dúvidas é absolutamente normal, errar vai fazer parte do processo", diz. "A busca por uma parentalidade mais consciente, menos automatizada, é muito importante. Porém, é muito importante também que não nos cobremos tanto, que sejamos gentis com a gente mesmo e com os outros pais".


Por isso, diante de um erro, o primeiro passo é reconhecê-lo, responsabilizar-se e, então, pedir desculpas ao filho. "Seus filhos aprenderão muito com essa sua atitude", afirma ela, que também propõe reflexões, como: “O que posso fazer de diferente da próxima vez?", ou “O que esse episódio pode me ensinar sobre mim, ou sobre meus fllhos?”.

Aos pais que seguem tensos e com medo de errar, Carolina oferece bons conselhos. "Se tem algo que eu posso sugerir é que estudem, busquem informação, participem de encontros de pais, mas não se enrijeçam tanto, não se percam de vocês mesmos e não fechem os olhos nem o coração para a intuição. Peguem leve, não se cobrem o tempo todo, aceitem que nem sempre conseguirão ser a mãe ou pai que tanto querem ser, e tudo bem", tranquiliza. "Sejam cuidadosos e amorosos com os outros pais quando estes errarem - não estou falando de casos extremos, como famílias narcisistas ou outros tipos de abuso. E acredito que, no fundo, todos nós estamos tentando dar o melhor para nossos filhos".