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Você é uma mulher bonita

Em uma cultura que enfraquece as mulheres incentivando o ódio ao próprio corpo, amar-se é um ato político

Foto: Karen Ramos/ @florescer.retratos

Por Nathalia Ilovatte


“Quanta opressão! Não basta ser mulher, tem que tá dentro do padrão”. Os versos que a cantora pernambucana Doralyce compôs para o hit Miss Beleza Universal ilustram, com o toque do batidão, o que a beleza significa para as mulheres.


Embora as propagandas de maquiagem e produtos para depilação façam-na parecer leve e divertida, a beleza é sentida como o oposto disso: um padrão rígido e tão distante quanto obrigatório para o gênero feminino. E a pressão para se encaixar nesse padrão começa já na infância.


De acordo com uma pesquisa da organização australiana Pretty Foundation, 68% das meninas de 5 a 8 anos se incomodam com a própria aparência, e 34% das garotinhas de 5 anos entrevistadas têm vontade de começar uma dieta.

Na fase adulta, a preocupação com os padrões estéticos vai mais longe. Uma pesquisa global realizada pela marca de cosméticos Dove constatou que apenas 4% das mulheres se sentem seguras o bastante para se definirem como bonitas. E isso tem impacto direto na vida delas. Ainda de acordo com a marca, 9 em cada 10 mulheres desistem de compromissos importantes por não se sentirem bem com a própria aparência e colocam a própria saúde em risco, com dietas restritas, em prol da beleza.


“Quando penso nos efeitos psicológicos dessa busca pela beleza, a primeira coisa que vem em mente é a auto objetificação, a auto desumanização que a mulher passa a praticar”, comenta Karina Mendicino, mestre em psicologia social, antropóloga da mulher e idealizadora do projeto Ser Inteira - Psicologia Para Mulheres.


Para ela, a mulher inserida nessa dinâmica da busca por se adequar aos padrões de beleza costuma se encarar no espelho com o olhar de quem observa um móvel, ou outro bem de consumo, em uma loja. “Ela olha minuciosamente em busca de qualquer defeito, qualquer problema que possa diminuir o valor daquele objeto”, explica. “Ela procura aquilo que está fora do que o padrão estético dita que é o aceitável, o bonito”.

Foto: Karen Ramos/ @florescer.retratos

Embora a beleza feminina seja, culturalmente, uma obrigação, a luta para se encaixar nos moldes apertados do padrão vigente é inglória, porque cada suposto defeito coloca a perder todas as outras características que aproximam uma mulher desse objetivo. “A perfeição estética inatingível faz com que as mulheres entrem numa busca sem fim. Se uma mulher está insatisfeita com os seios, faz uma cirurgia plástica e corrige. Aquilo gera satisfação, mas como não vem de dentro, é uma satisfação temporária. Então, passado um tempo, ela acha alguma outra coisa que não está boa para corrigir também”, diz Karina.


A sensação de não ser boa o bastante e a obsessão por atingir um objetivo criado para ser inatingível crescem em um efeito bola de neve que, de tão recorrente a todas as mulheres, pode passar anos sem ser notado. “É extremamente desumanizante pensar que um corpo humano tem que corresponder 100% a um padrão estético imposto pela cultura. E essa visão sobre é naturalizada, então às vezes a mulher não se dá conta de que tem esse olhar sobre si mesma”, explica a psicóloga.


Por que queremos caber num molde feito para nos excluir?


Creme anti-idade, drenagem linfática, preenchimento labial, tratamento para olheiras, retoque da raiz, remoção das celulites, peeling facial, cílios postiços… A indústria da beleza movimenta milhões às custas das “imperfeições” femininas que, dizem, precisam ser corrigidas.


Embora ganhem menos do que os homens, as mulheres gastam 30% do salário com beleza, de acordo com uma pesquisa encomendada pela rede de clínicas de estética Onodera. A empresa americana Skin Store, que comercializa cosméticos, constatou que uma mulher dos Estados Unidos gasta, em média, o equivalente a um milhão e 600 mil reais só em maquiagem, ao longo da vida.


Mas, se os padrões de beleza são inatingíveis, por que investimos tanto dinheiro e energia correndo atrás deles?


A jornalista e pesquisadora Naomi Wolf tem uma explicação, e esmiuça a questão no livro O Mito da Beleza. “Entre a maioria das mulheres que trabalham, têm sucesso, são atraentes e equilibradas, existe uma “subvida” secreta que envenena nossa liberdade: impregnada de conceitos de beleza, ela é um escuro filão de ódio a nós mesmas, obsessões com o físico, pânico de envelhecer e pavor de perder o controle”, escreveu.

Conforme a especialista pontua no livro, os padrões de beleza ganharam força quando nada mais serviu para nos confinar e controlar: nem a maternidade, nem a castidade, nem o trabalho invisível e não remunerado no lar, nem a dependência financeira. “A ocupação com a beleza, trabalho inesgotável porém efêmero, assumiu o lugar das tarefas domésticas, também inesgotáveis e efêmeras. Como a economia, a lei, a religião, os costumes sexuais, a educação e a cultura foram forçados a abrir um espaço mais justo para as mulheres, uma realidade de natureza pessoal veio colonizar a consciência feminina”, explicou Naomi Wolf na obra. “Recorrendo a conceitos de “beleza”, ela construiu um mundo feminino alternativo, com as próprias leis, economia, religião, sexualidade, educação e cultura, sendo cada um desses elementos tão repressor quanto os de qualquer época passada”.


Para ela, a ideologia da beleza nada mais é do que uma reação violenta à liberdade conquistada pela segunda onda do feminismo, e as indústrias da dieta e dos cosméticos passaram a ser “os novos censores culturais do espaço intelectual das mulheres”.

Foto: Karen Ramos/ @florescer.retratos

Licença para a gordofobia


De todas as imposições estéticas, uma é especialmente validada pela cultura ocidental: a magreza. Sob o pretexto da boa saúde, criticar pessoas gordas e associar gordura a preguiça e doença são práticas socialmente aceitas, e até estimuladas. Mas não deixam de ser nítidas demonstrações de ignorância e gordofobia.


“Não necessariamente o fato de uma pessoa estar gorda, ou ser gorda, é algo péssimo para a saúde dela. Existem pessoas gordas fisicamente ativas, que se alimentam bem, que têm uma vida saudável em todos os sentidos, que procuram cuidar da saúde mental. É até curioso, porque existem pessoas que fazem a manutenção de uma magreza, e que estão muito piores de saúde do que uma pessoa gorda”, explica a nutricionista comportamental Paola Altheia, autora do página Não Sou Exposição.


Ela afirma que são os hábitos de vida que determinam a saúde de uma pessoa, e os quatro principais fatores são o consumo de bebidas alcoólicas, o tabagismo, a prática de atividades físicas e a alimentação. “Isso vale para as pessoas magras, também. Então, é muito importante gente adquirir uma visão mais ampla dos determinantes da saúde humana e refletir com sinceridade a respeito do que causa essa preocupação toda com ganho de peso”, frisa a nutricionista.


Essa pressão para emagrecer atinge especialmente as mães, que são constantemente cobradas para voltarem a ter a silhueta pré-gestação. “Eu lido com muitas mulheres, e com muitas mulheres mães no consultório. Mães de primeira viagem, mães com mais de um filho, ou com filhos mais velhos, e sempre há uma frustração muito grande em relação ao corpo, porque ele muda, não volta a ser o que era antes, e a mulher se cobra, se culpa, se considera responsável por isso”, conta Paola. “É como se fosse um fracasso pessoal não conseguir recuperar o corpo de antes, e isso acontece por causa das mensagens da indústria do emagrecimento, que diz que ter as medidas que quiser depende de força de vontade”.


A especialista explica que as mudanças físicas depois de passar por uma ou mais gestações são perfeitamente naturais. E, além da gravidez, mudanças etárias e hormonais também influenciam a forma física. “Dificilmente a mulher volta a ter o corpo de antes de ter filhos. E ela se cobra, se culpa, se compara com celebridades que têm muitos recursos para fazer a manutenção do corpo. Mas essa mudança não é um problema, ela é natural, faz parte da vida, e muitas vezes uma complicação maior pode vir de uma preocupação muito grande, de uma obsessão pelo emagrecimento e pela redução de medidas”.

Foto: Karen Ramos/ @florescer.retratos

Fazendo as pazes com o espelho


A jornalista mineira Gabriela Lessa fez a primeira dieta aos 9 anos. Aos 14, desenvolveu bulimia, transtorno alimentar caracterizado pela compulsão alimentar alternada com métodos radicais para perder peso, como induzir o vômito ou ficar sem comer. “Sempre me achei gorda, sempre me senti muito mal com meu corpo”, conta.


Quando engravidou de gêmeos, foi incentivada pelo médico a fazer uma dieta rígida para evitar a diabetes gestacional. E, pouco depois que os bebês nasceram, voltou à fase da compulsão. “Mas eu já tinha conseguido perceber que a restrição intensa me fazia mal psicologicamente”, lembra.


Consciente de que precisava estabelecer uma relação menos oscilante com a comida, procurou uma nutricionista que não fizesse terrorismo com alimentos proibidos e perda de peso. Pouco tempo depois, criou coragem para fazer algo que passou a vida planejando começar quando ficasse magra: contratar uma consultora de estilo. E aí, passou a postar looks no grupo de Facebook Padecendo no Paraíso, onde recebeu apoio de outras mulheres mães. “Comecei a me sentir confortável com a minha aparência e a achar que eu estava me vestindo bem, que eu poderia inspirar outras mulheres como eu. Eu nunca tinha pensado isso antes, porque sempre achei que eu me vestia mal e que só quem é magra podia ficar bem nas roupas”, diz Gabriela.


Em parceria com a advogada mineira Bárbara Myssior, a jornalista criou o site Gorda É a Mãe, sobre empoderamento feminino e estilo para mulheres gordas. Hoje, Gabriela é uma mulher que curte o próprio corpo e tem uma relação equilibrada com a comida. “O que me levou a esse processo de aceitação foi uma combinação de fatores. Eu comecei a ver que aquelas dietas altamente restritivas não me faziam bem, e tive esse impulso do apoio e valorização que recebia no Padecendo. Eu também não queria de jeito nenhum passar esses traumas para os meus filhos, e principalmente para a minha filha. Não quero que ela tenha com o corpo dela a relação que eu sempre tive com o meu corpo”, explica.


Do transtorno alimentar para o empoderamento de outras mulheres, Gabriela é a prova de que é possível se conciliar com o próprio corpo sem antes ter que moldá-lo aos padrões de beleza. “O processo é lento, e acho que é essencial escolher profissionais que ofereçam apoio”, conta ela, que buscou uma psicóloga especializada em transtornos alimentares e uma nutricionista comportamental preparada para lidar com o tema. “Também é importante se cercar de influências, seguir nas redes sociais pessoas gordas, inclusivas e que não estão ali falando que o certo é emagrecer”.

Foto: Karen Ramos/ @florescer.retratos

O tal do autocuidado


Palavra da moda nas redes sociais, o autocuidado às vezes é confundido com as obrigações impostas pela ideologia da beleza, como estar sempre depilada e com as unhas feitas. Mas, se resgatado o sentido original da palavra, o autocuidado pode ser uma boia de salvação nesse mar de obrigatoriedades com o próprio corpo. “Eu o definiria como a construção de uma vida respeitosa consigo, com os próprios ritmos, os próprios valores, as próprias verdades, com aquilo que faz sentido para si e com as demandas do próprio corpo. Autocuidado é algo que vai muito além de estar bonita e cuidada esteticamente. Isso é uma redução, uma distorção”, frisa a psicóloga Karina Mendicino.


Para ela, é possível encontrar caminhos para se relacionar melhor com o próprio corpo. E eles passam, invariavelmente, por se conectar consigo e diminuir a importância da validação alheia. “O caminho é justamente não deixar que a autoimagem esteja nas mãos do outro. É construir uma relação de maior conexão e maior verdade consigo, ter uma rotina que inclua momentos para conversar com você mesma, para se entender, saber quais são os seus valores e verdades, do que você gosta, o que te faz feliz. Fortalecer essa relação consigo é o que pode fazer a autoestima não ficar tão refém do que vem do outro”.


Para a autora Naomi Wolf, a ideologia da beleza está solapando o terreno conquistado honrosamente pelas mulheres nas últimas décadas, e libertar-se dela é um ato político. Em O Mito da Beleza, ela pondera: “Se quisermos nos livrar do peso morto em que mais uma vez transformaram nossa feminilidade, não é de eleições, grupos de pressão ou cartazes que vamos precisar primeiro, mas, sim, de uma nova forma de ver”.




Sobre as fotos:

As fotos que ilustram esta reportagem foram tiradas pela fotógrafa belo-horizontina Karen Ramos. Com um trabalho voltado para o empoderamento feminino, a profissional afirma enxergar a beleza na busca interna pela própria essência. “Quando eu fotografo uma mulher, ou olho qualquer mulher, eu vejo a beleza na segurança e conforto que ela sente sendo quem é. Uma mulher confiante do seu valor e da importância de cuidar de si é bela, para mim. E quando eu as fotografo, elas estão descobrindo (ou redescobrindo) essa importância, resgatando ações que as façam olhar para quem são e minimamente querer se amar e se valorizar. O padrão também é belo, mas é inexiste, utópico. Então, a beleza que eu tento capturar e transmitir nas fotos tem mais a ver com a busca interna delas por se reconectar com quem são na mais pura individualidade e essência”.