• Cria Para o Mundo

"Você é humana antes de ser mãe"

Atualizado: Jan 26

Autora de livro sobre autocuidado materno, Maristela Lima defende o cuidado com a saúde mental, emocional e relacional da mulher mãe como base para a relação com os filhos



Por Luciane Evans


Nos últimos anos, nós, mulheres e mães, estamos sendo bombardeadas por dicas de autocuidado. Os "conselhos", geralmente, estão focados nas atividades físicas, comidas saudáveis, tratamentos de estética e até a compra de alguns produtos entra na lista. Não seria esse mais uma cobrança materna entre tantas outras que temos? Ou apenas mais um marketing para nos fazer consumir?


"Existe uma indústria totalmente alinhada ao patriarcado que deseja manter a mulher num lugar de submissão a padrões impostos a ela. Essa indústria prega o autocuidado como algo meramente físico: você tem que estar em forma, bonita e apresentável - além de dar conta de tudo. Isso é uma grande armadilha, na qual, infelizmente, muitas mulheres ainda caem", dispara Maristela Lima, a Maris.

Mãe do Gael e da Amarilis, a Maris é especialista em inteligência emocional e facilitadora de Comunicação Não-Violenta há 10 anos. É autora do livro "Autocuidado na maternagem - o caminho da Comunicação Não- Violenta para equilibrar a relação com os filhos e consigo mesma". Nós a convidamos para essa entrevista para entender um pouco mais sobre o autocuidado materno, e tudo aquilo que está ao redor dele.


Maris entende que o autocuidado tem a ver com o bem-estar integral, não apenas físico, mas mental, emocional e relacional. Ela reconhece que, infelizmente, ele se tornou uma palavra banalizada nos últimos tempos, o que gera uma certa aversão do tema pelas mulheres. E o defende como uma forma de a mulher se manter inteira com seus filhos, criando mais condições de cultivar o cuidado em suas relações.


"Tenho uma rotina matinal: acordo, faço alongamento ou uma prática de yoga, tomo banho, faço uma meditação e coloco as intenções para meu dia e, só então, saio do quarto e chego sorrindo na sala. Mas isso só é possível porque tenho acordos claros com meu marido: como eu ainda amamento e atendo a Amarilis à noite, é ele quem fica com as crianças da hora que elas acordam até eu sair do quarto. Isso funciona aqui em casa, para nossa dinâmica familiar. É importante que cada mulher mãe descubra o que funciona para si", conta.


Ela recomenda que coisas simples se tornem o autocuidado para as mães, como, por exemplo, um respiro de 5 minutinhos ou uma conversa com amigas. "Insisto na criação de grupos de mães que se apoiam, porque isso, esse colo coletivo e esse olhar compassivo de quem passa pelos mesmos desafios, faz muita diferença na vida de uma mulher mãe."


Curso

No próximo sábado (30/01), Maris fará o Workshop Eu Materno, Eu me Cuido. Inteiramente online e gratuito. O link da inscrição está na página do instagram da Maris, no @autocuidadonamaternagem



O que é autocuidado? Como ele é abordado em seu livro e cursos?


Autocuidado é uma palavra que foi muito banalizada nos últimos tempos e que tem gerado até uma certa aversão pelas mulheres, que acabam vendo isso como mais um peso em sua rotina já tão exigente. Isso se deve a essa vulgarização do termo, que na maioria das vezes salienta apenas o cuidado físico, como: pintar as unhas ou estar em forma.


Para mim, autocuidado vai além disso. A maneira como eu entendo o autocuidado é algo bem mais amplo e tem muito mais a ver com seu bem-estar integral, não apenas físico, mas também mental, emocional e relacional. O que eu quero é que nós aprendamos a focar no que realmente importa: as relações humanas. Por amor a si mesma: não pense que você precisa se cuidar para agradar aos outros! Você precisa se cuidar para estar bem consigo mesma, por você e para você – e, consequentemente, estará bem com as outras pessoas.


O autocuidado é, para mim, um agir consciente para cultivar uma relação saudável consigo mesma - que irá reverberar na relação com os outros. Cultivar o autocuidado requer uma atitude responsável diante da vida. E está intimamente ligada à preservação de nossa autonomia e liberdade de escolha para tomar as decisões que estão mais alinhadas com nossos valores e que vão atender as necessidades vivas em nós.


Pensar o autocuidado dessa forma implica lembrar que nossas emoções e sentimentos surgem não apenas pelo fato de sermos humanas - o que é fundamental lembrar - mas porque vivemos com outras pessoas e, por estarmos em constante relação, recebemos constantemente estímulos que deflagram aquilo que sentimos. Neste sentido, cocriar as condições para que o autocuidado seja possível é fundamental para a convivência neste pequeno planeta. Por isso, acredito que isso precisa ser responsabilidade de todos, não só das mães.


Como esse assunto é abordado no seu livro?


No meu livro, abordo o autocuidado emocional, do pessoal ao coletivo - e como isso impacta a relação com nossos filhos. Além disso, apresento caminhos possíveis para cuidar de nossas emoções e de nossas relações, com base na Comunicação Não-Violenta, como acolher a nós mesmas, como criar uma rede de apoio empática, como fortalecer o vínculo com nossos filhos, como ser mais compassiva com a gente mesma. Isso é muito transformador! Tenho recebido relatos lindos das minhas leitoras.


Nos meus cursos e mentorias, também é essa a abordagem: cuidar das emoções para transformar as relações, começando pela relação mãe-filho e pela relação da mulher consigo mesma. É isso que eu acredito que pode trazer mudanças efetivas para nosso estar no mundo e para a mudança social que precisamos.


Por que se fala tanto dele para a vida das mães?


Isso de se "falar tanto" de autocuidado materno é algo relativamente recente e parece ter se disseminado nos perfis maternos das redes sociais. Mas é preciso tomar bastante cuidado com o conceito de autocuidado que se veicula (e geralmente fica no raso do cuidado com o físico e a aparência), para que não seja justamente mais um peso na vida das mães.


Antes de escrever meu livro, não encontrei nenhuma outra obra no Brasil sobre o assunto, não com esse foco específico de autocuidado emocional e relacional para mães. Então, realmente, ele é uma obra única e tenho recebido muito feedback maravilhoso das leitoras. Eu já vinha falando sobre autocuidado, sobre esse prisma, há muito tempo em minhas redes, por viver isso no meu dia-a-dia e saber da importância. Sobretudo depois do livro e da hashtag #autocuidadonamaternagem, descobri vários perfis tocando no assunto. Só é preciso saber separar o que realmente apoia as mães daquilo que as oprime.


Em qual momento a mulher, mãe, deve se atentar para o autocuidado? Existe algum sinal perceptível para que ela o adote?


Autocuidado é fundamental para todo ser humano e precisaria ser ensinado desde cedo às crianças. Cabe a nós, enquanto adultos, sermos responsáveis por nós mesmos, pela maneira como gerenciamos nossas emoções, pelas nossas escolhas. Autocuidado passa necessariamente pelo autoconhecimento. E, nesse sentido, sim, é algo que existe há muito tempo, já referenciado nos antigos pensadores.


Eu gosto de uma frase que diz assim: se você cuida do outro negligenciando a si mesmo, você está cultivando a negligência, não o cuidado.

Aliás, foi nessa frase que me inspirei para o nome do meu primeiro projeto com mães, "Cultivando Cuidado". O que isso significa? Que você precisa primeiro cuidar de si para estar inteira para cuidar dos filhos. Se você cuida deles, deixando-se de lado na ilusão de que é "por eles", alguém vai pagar (emocionalmente ou até fisicamente) por isso, infelizmente.


Sempre que você percebe que está reativa, que já acorda cansada, que se irrita facilmente e grita por qualquer estímulo externo, isso é um aviso de que você precisa olhar para si mesma e se priorizar, ter um tempo para se refazer e cuidar de si. Pela sua saúde e pela saúde de suas relações.


A mãe que deixa esse autocuidado para depois pode ter quais consequências para a sua vida?


Primeiro que se deixar de lado pode afetar a saúde em vários níveis, né? Então, é básico, pela sua própria saúde. A saúde emocional, a saúde dos relacionamentos, sobretudo com as pessoas mais próximas (filhos são alvo fácil para nosso estresse, infelizmente - e não merecem pagar pela ausência de autocuidado).


Quando não temos as condições para cuidar de nós mesmas, é muito fácil cair no ciclo de raiva e culpa - que é absolutamente nocivo para a autoestima de qualquer mãe, e para a relação mãe-filho. Por isso, precisamos criar as condições para que o autocuidado aconteça. Falo bastante disso no meu livro também, da relação entre o autocuidado e o cuidado coletivo. Não existe um sem o outro.


Insisto na criação de grupos de mães que se apoiam, porque isso, esse colo coletivo e esse olhar compassivo de quem passa pelos mesmos desafios, faz muita diferença na vida de uma mulher mãe.


Como ter autocuidado neste momento em que vivemos? (pandemia, filhos em casa, home office, estresse, ansiedade)


Sei que é ainda mais desafiador, com pouca ou nenhuma rede de apoio. Autocuidado e rede de apoio andam juntos. E quando não dispomos de uma rede de apoio "logística", precisamos ao menos de redes de apoio empáticas, para nos dar um suporte e cuidar de nossa necessidade de ser ouvida, de ser acolhida, de pertencer.


Nesse sentido, eu estou constantemente promovendo eventos (virtuais, neste momento) para que mães possam se encontrar, se ouvir, se olhar e serem vistas - e receber o acolhimento que precisam e as ferramentas necessárias para lidar melhor com as próprias emoções.


Outro ponto importante é ter acordos claros com seu companheiro/a, para que ambos possam cuidar de si e se entre cuidar. Minha rotina de autocuidado só funciona porque meu companheiro compreende o impacto disso na nossa relação e na relação com as crianças - e fica com elas para eu ter um tempo para mim.


Sei que essa não é a realidade da maioria das mulheres, infelizmente, por diversos motivos, por padrões sociais e comportamentais que encontram respaldo no patriarcado.


Por isso, precisamos umas das outras. Ligar para uma amiga para conversar, fazer uma vídeo chamada, pedir um colo virtual, sabe? Você pode pedir este apoio, você não tem que dar conta disso tudo sozinha. Eu confio muito na potência da sororidade materna.

Dê 5 dias de autocuidado materno para as mães


Antes de tudo, acho importante cada mulher descobrir o que é importante para si mesma, o que faz sentido para ela. Porque o que eu faço para cuidar de mim, funciona bem para mim, mas talvez não seja o que você precisa. Ou, na linguagem da Comunicação Não-Violenta nós temos as mesmas necessidades, mas a maneira que cuidamos delas é diferente.


Por exemplo: uma mãe de bebê pequeno, que amamenta e que muito provavelmente passa por privação de sono, precisa descansar. Eu já vivi esse cenário por um longo tempo e sei de algumas coisas que cuidam da minha necessidade de descanso: uma soneca à tarde enquanto o bebê dorme, um banho mais longo, por exemplo. Mas pode ser que para outra mãe o que vai cuidar da sua necessidade de descanso seja uma conversa com uma amiga querida ou assistir, tranquila, a um filme. Por isso, é importante se conhecer: para se perceber e encontrar seus próprios caminhos para cuidar de si. Dito isso, tem algumas coisas que eu confio que realmente podem apoiar as mães.


  • Fazer algumas pausas ao longo do dia, nem que seja por 5 minutinhos, para respirar, se reconectar consigo mesma, se perceber, perceber como está sentindo e do que está precisando. 5 minutinhos, duas vezes ao dia, já podem fazer a diferença.


  • Lembrar de respirar, lembrar de tomar água. Se for preciso, põe um lembrete no celular. Tentar estar presente na sua respiração. Tentar estar presente ao tomar água.


  • Reservar algum tempo todo dia para estar inteiramente com os filhos, sem celular, sem resolver coisas do trabalho, sem ficar pensando nas tarefas da casa. Estar absolutamente entregue a estar com a criança, a observar seu filho, a observar o que acontece em você enquanto você o observa. Pode ser uns 15 ou 20 minutinhos, mas de total entrega. Isso faz muita diferença para a criança e para a mãe, aumenta a conexão, fortalece o vínculo e nos traz ao momento presente.


  • Tenha acordos claros com seu companheiro/a, sobre a divisão de tarefas, o cuidado com as crianças, a gestão do tempo. Isso é fundamental, sobretudo em tempos de escassez de rede de apoio logística.


  • Cultivar uma rede de apoio empática: aquelas mulheres com quem você pode realmente contar quando precisar ser ouvida, aquelas que não vão ficar dando palpite nem querendo competir pelo sofrimento, aquelas que podem acolher você, ouvir você, enxergar você sem julgá-la por ser menos que perfeita.


  • E, dica extra: entenda que você não tem que dar conta de tudo, entenda que você é humana antes de ser mãe e acolha-se em sua humanidade. E, se precisar de apoio, peça, por amor, peça.