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Violência obstétrica é tema de livro

Atualizado: Abr 30

Escritora Camila Medeiros pesquisou sobre esse tipo de violência no Brasil e o uso dela como controle do corpo feminino




Por Luciane Evans

Após passar por violências obstétricas, uma em 2008, no nascimento do seu primeiro filho; e outra em 2012, durante um aborto espontâneo, a escritora e artista Camila Medeiros passou a se questionar sobre como as mulheres em processos de abortamento ou em trabalho de parto são tratadas no Brasil. Quem ganha com esse tipo de sofrimento ainda tabu entre as mães e o que se ganha com ele?


Essas perguntas impulsionaram a pesquisa da Camila, que ao ter que conciliar maternidade e estudo, começou a explorar o tema da violência obstétrica no país ainda em 2015, paralelamente à monografia para o curso de direito. Parou no meio de 2016, voltou em 2019 e concluiu em 2020, com a produção do ensaio Meu Corpo, Regras do Estado - A violência obstétrica como controle de corpos no Brasil, lançado em abril deste ano.

A obra é a busca de Camila para tentar entender o porquê de as mulheres, em momentos tão delicados de suas vidas, serem tradas como lixo, "como se não tivessem valor algum". “Não temos nenhum poder sobre os nossos corpos quando se trata de uma reprodução e isso é assustador”, reforça a autora.

Em suas descobertas, os números são chocantes e a conclusão ainda mais revoltante. “Parir sem violência no Brasil é algo incomum. Hoje, um quarto das mulheres brasileiras que já pariram sofreu violência obstétrica. Mas estima-se que esse número seja maior justamente porque pouco se fala sobre esse tipo de violência e as pessoas aprenderam a naturalizá-la”

Segundo Camila, a falta de comunicação entre muitos profissionais de saúde e paciente contribuem para o quadro. “Muitos médicos não explicam e muito menos pedem autorização para fazer os procedimentos. E nos acostumamos a pensar que esse é o natural - por ele supostamente ser o detentor do conhecimento. Mas não é normal que façam qualquer coisa em nossos corpos sem nossa autorização. Além disso, descobri que grande parte dos médicos utiliza práticas desatualizadas que mais oferecem prejuízo do que benefício”, revela.

Outra percentual levantado por ela para o livro é de que 90% das mortes maternas são evitáveis com um pré-natal e atendimento ao parto de qualidade. "Caramba! 90% é muita coisa. Estão nos matando! Por quê? Essa foi a pergunta que ficou martelando na minha cabeça. Quem ganha com isso e o que ganha com isso? Pelas minhas conclusões, essa é uma forma de nos controlar - e daí vem o subtítulo do livro "Controle de corpo no Brasil".”

Camila acredita que a desigualdade de gênero é um dos pilares de sustentação do capitalismo.


"Uma das formas de nos manter submissas, amedrontadas e passivas é através da violência obstétrica, dessa representação do parto como um momento perigoso, assustador, que para sobreviver precisamos confiar cegamente no médico”, critica.

Capacitismo obstétrico


Outra abordagem no ensaio de Camila é o capacitismo obstétrico. "Muitos obstetras tratam as pessoas com deficiência como se fossem corpos incompletos e incapazes. É como se fosse uma afronta essas pessoas engravidarem, então são tratadas como inadequadas", denuncia.


Ela diz que muitas mulheres cadeirantes, por exemplo, ouvem que não podem ter um parto normal, quando não existe nenhuma evidência científica que sustente isso. "Elas podem parir, se desejarem. Mas há médicos que se recusam."


"Pra além disso, muitas vezes o próprio hospital não tem uma estrutura que acolha essas pessoas ou profissionais minimamente qualificados para se comunicar com pessoas com deficiência. Então, pode acontecer de uma pessoa surda, ao parir, não conseguir ter ninguém para se comunicar com ela e pedir autorização ou explicar o que está acontecendo. É desesperador pensar que as necessidades dessas pessoas ainda são tidas como excepcionais e que não é pensada uma forma de acolher elas de forma respeitosa e como seres humanos".


Violências sofridas por Camila


O primeiro contato dela com essa realidade foi ao ter o seu primeiro filho. Camila tinha 19 anos e estava certa de que queria um parto normal. Mas, como acontece com muitas no país, os obstetras encontrados davam sinais de que a levariam para uma cesárea. Camila procurou por 10 médicos.

“Até que encontrei um obstetra defensor de parto normal. No entanto, com 36 semanas, sentindo algumas contrações bem leves, ele me pediu um ultrassom e me informou eu que estava com baixo líquido (o que hoje sei ser questionável, mas na época não sabia). Então, ele mediu minha dilatação que estava com 1 centímetro e disse que do jeito que estava não dava para esperar, e me encaminhou para cesárea”, lamenta.

A partir daí, Camila conheceu uma história também vivenciada por muitas. “Após esperar por um quarto no hall do hospital durante horas, me encaminharam para sala de cirurgia e não deixaram o pai do bebê entrar. Fiquei desesperada porque não era isso que combinara anteriormente. Senti falta de ar e pensei que fosse morrer sem conseguir respirar. De início, o meu médico não estava na sala e a equipe me enrolava quando eu perguntava quando o pai poderia entrar. Quase na hora de o meu filho nascer, ele entrou, quando eu já estava completamente desestruturada. Meu filho saiu de mim chorando e foi direto para ser examinado, medido, pesado. Essa foi a primeira experiência de violência obstétrica", relata.

No momento da curetagem

Em 2012, ao ter um aborto espontâneo, Camila também sofreu violências, ainda mais graves. “Na época, estava sem plano de saúde e a orientação foi a de que eu fosse a um hospital do Sistema Único de Saúde (SUS) para fazer curetagem. Chegando lá, colocaram remédios em mim e me internaram no mesmo corredor que as mães recém-paridas. Passei a madrugada ouvindo choro de bebê após ter perdido o meu. Quando acordei, começou um sangramento, mas não encontrava ninguém para pedir absorvente, sentia o sangue escorrer pela perna e não tinha o que fazer”, lembra.

Camila ficou de sexta-feira até a noite de sábado sem comer. “Com fome, fraca, cercada de mães com seus bebês. Quando chegou o horário de visitação, todas as pessoas estavam recebendo visitas, mas ninguém chegava para me ver. Minha família não conseguia me achar que achar porque na recepção diziam que não havia nenhuma Camila internada.”


Ainda no sábado à noite, Camila foi encaminhada para a sala de pré-parto, onde, por causa do pouco espaço, havia mais de 10 mulheres em pé. "Algumas também tiveram aborto espontâneo, outras estavam em trabalho de parto. Os médicos e enfermeiros falavam coisas horríveis como ‘na hora de fazer não gritou, agora aguente'. Não havia nenhuma empatia ou sensibilidade. Absolutamente ninguém tinha nenhuma previsão de quando eu faria o procedimento."


"Falavam que as grávidas em trabalho de parto tinham prioridade e que, se chegassem mais, entrariam na frente. Enquanto isso, eu seguia sem comer. Na madrugada de sábado para domingo, peguei meu celular escondido e mandei mensagem pedindo para a minha família me buscar".

Camila insistiu para sair daquele hospital e teve que assinar um documento se responsabilizando por isso. Na semana seguinte, conseguiu atendimento com uma médica que lhe explicou não ser necessário passar por nenhum procedimento de curetagem. “E assim foi, no tempo que meu corpo quis.”

Parto domiciliar


Essas experiências provocaram na escritora uma revolta e, quanto mais ela pesquisava sobre o tema, mais assustada ficava. “Escrevi minha monografia do curso de direito focando na área dos direitos humanos, mas ainda sentia que poderia ir além, que faltava mais coisa para destrinchar. Foi então que comecei, aos poucos, a pesquisar uma abordagem mais histórica e pensar pelo lado político da questão.”

Em 2014, Camila deu à luz a Antônio, num parto domiciliar que mudou a sua forma de ver o nascimento. “Já tinha uma noção muito maior e também acesso a mais ferramentas para chegar mais próximo possível de um parto natural. Ter tido o meu parto domiciliar como eu sonhava também me motivou muito a escrever o livro porque pude perceber a experiência enriquecedora que estava sendo negada a tantas mulheres."