• Cria Para o Mundo

"Vacinar é um ato de amor tanto para si quanto para os outros"

Entrevista com o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha.


Por Luciane Evans


O mundo vive agora aquilo que se sonhou e se desejou tanto durante todo o ano de 2020: a existência de uma vacina contra o vírus da covid-19. No entanto, ao mesmo tempo em que a imunização retoma a esperança, ela também é alvo daqueles que, mais uma vez, colocam em xeque a eficácia das doses vacinais, colocando em risco a saúde coletiva mundial.


Durante todo o ano de 2020, teorias da conspiração, informações sem nenhuma comprovação científica e campanhas de desinformação avançaram na mesma proporção do número de contaminados e mortos por covid-19 no mundo. E não é de hoje que essa resistência se tornou uma ameaça à saúde pública. O movimento antivacina teve seu estopim em 1998, quando um médico britânico publicou um estudo na conceituada revista científica The Lancet, em que relacionava a vacina tríplice viral (contra caxumba, sarampo, rubéola) ao autismo.

O artigo foi contestado por outros cientistas que não comprovaram nenhuma conexão entre as doses e o transtorno. Porém, mesmo em descrédito, o estrago foi feito e o movimento antivacina ganhou força no mundo virtual. O reflexo dele é um quadro preocupante que vem se intensificando no Brasil nos últimos anos: a queda da cobertura vacinal das doses recomendadas no primeiro ano de vida das crianças. Há cinco anos, o país vem registrando queda nas coberturas vacinais, que não atingem nenhuma meta no calendário infantil desde 2018.


Uma triste realidade que vem deixando em alerta a comunidade médica, que culpa o movimento por disseminar desinformações para convencer as pessoas a não vacinarem seus filhos e a não se vacinarem. Conversamos com o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, sobre o assunto e ele apontou que a resistência à vacinação pode ter consequências graves que já estão ocorrendo, como a volta do sarampo.

O receio dele é que, ao convencer pessoas a não se vacinarem, haja o retorno de outras doenças que estavam erradicadas ou controladas no Brasil. Juarez é pediatra intensivista e também membro da Sociedad Latinoamericana de Infectologia Pediatrica (SLIPE). Para ele, vacinar é um ato de amor para si e para o próximo.


um egoísmo muito grande você não vacinar seus filhos ou não se vacinar pensando única e exclusivamente em si."

Confira a entrevista completa aqui



O que uma vacina representa para uma sociedade?


A vacina não é só uma proteção individual. É claro que, quando vacino uma pessoa estou protegendo aquela pessoa, mas quando se atinge coberturas elevadas há a chamada proteção coletiva ou proteção de rebanho. É um egoísmo muito grande você não vacinar seus filhos ou não se vacinar pensando única e exclusivamente em si. Então, se vacinar é um ato de amor tanto para si quanto para os outros. É muito importante para a saúde da coletividade.


Nos últimos anos e agora com a pandemia, houve uma queda da cobertura vacinal infantil. Qual o risco disso para o Brasil?


Já observávamos quedas de coberturas vacinais, tanto que no último ano em 2019 nós não atingimos a meta em nenhuma das vacinas recomendadas no primeiro ano de vida. O risco disso é retorno de doenças eliminadas e controladas. O principal exemplo disso é o sarampo, que tinha sido eliminado e retornou em 2018. Em 2020, o sarampo acometeu 21 estados e, em quatro (Pará, Rio de Janeiro, São Paulo e Amapá), ainda há surto ativo. É uma doença totalmente evitável por vacina segura, eficaz e gratuita, e é uma enfermidade com possibilidade de levar a quadros muito graves.

O movimento antivacina está se intensificando no país e no mundo. Qual a sua opinião a respeito?


O movimento antivacina tem se intensificado, principalmente, agora em 2020. A desinformação, as fake news e os movimentos antivacinas têm se tornado cada vez mais fortes. E a única forma que nós temos de combater isso é através da informação correta e comunicação. É preciso pedir para as pessoas não compartilharem notícias que eles tenham dúvidas em relação à veracidade e que procurem fontes seguras de informação.


Governantes contrários à vacinação da covid-19 estão contribuindo para o crescimento desse movimento?


O grande problema que se observa nas vacinas é um dos três Cs na hesitação vacinal. A hesitação é definida como ter ‘a vacina recomendada disponível e ela não ser aplicada no momento correto ou de forma atrasada' - isso se chama hesitação pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e era considerada uma das 10 ameaças no mundo em 2019.


Dentro da hesitação temos três “Cs”: confiança, complacência e conveniência. E dentro do primeiro se coloca como confiança no governo, nos governantes, nas instituições, nos profissionais da saúde e confiança também na vacina. A partir do momento que nós temos colocações que não são adequadas e que levem à desinformação ou que reforcem fake news e o movimento antivacina, independentemente de quem as diga, com certeza contribui para um aumento de movimento contra a utilização de vacinas.


Quais riscos correm uma geração de pessoas não imunizadas?


Os riscos são o retorno de doenças eliminadas ou controladas. Graças à vacinação, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), se evita mais de três milhões de mortes por ano no mundo.


E graças à vacinação nós temos esse exemplo de eliminação de doenças no nosso país, como a poliomielite; o sarampo, que tinha sido eliminado e voltou e é um exemplo do risco que corremos; rubéola congênita; tétano neonatal e as outras doenças para quais utilizamos vacinas estão controladas.


Temos um ou dois casos por ano de difteria, que era uma doença que acontecia com bastante frequência. Todas as vacinas usadas para a meningite diminuíram de 70% até 99% a ocorrência de meningite para determinadas bactérias. Então o risco é termos o retorno ou aumento de todas essas doenças.


Quais as recomendações da SBIm para mudar esse cenário?


Na hesitação (termo explicado em respostas anteriores) temos trabalhado muito os três ‘Cs’: confiança, complacência e conveniência. Em relação à confiança das vacinas nós temos feito capacitações para toda a nossa rede, tanto pública como privada, com eventos e publicações, fundamentais para passarmos a informação de forma correta para os profissionais de saúde estarem com conhecimento mais aprofundado sobre o assunto.


Se temos um calendário muito completo, considerado o melhor calendário vacinal gratuito do mundo, ao mesmo tempo, ele é muito complexo. Tem que conhecer isso para poder passar a informação correta e aumentar a confiança da população na vacina, nos profissionais, nas instituições, e tirar a dúvida também de eficácia, mostrando como as vacinas são eficazes e como diminuíram as doenças.


As pessoas, por não conhecerem determinadas doenças, acrediatam que não é preciso se vacinar para elas. Um exemplo disso é a poliomielite. O último caso no Brasil foi em 1989, mas é fundamental termos coberturas vacinais adequadas para não retornar essa doença que continua acontecendo em outros países.


Uma das dúvidas das pessoas está relacionada a eventos adversos. É preciso esclarecer que eles podem acontecer, tanto nas vacinações quanto nas medicações. Em geral, são leves quando comparados com as doenças naturais com consequências muito mais importantes do que os raros eventos adversos mais graves que possam acontecer com vacina.


Além da informação correta, investimos em campanhas e na comunicação. Há muito trabalho a fazer e temos nos empenhados para melhorar esses indicadores.