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Novo homem a caminho

Eles se reúnem em Belo Horizonte para se abrir emocionalmente e combater a masculinidade tóxica, trazendo mudanças para si e para as relações que criam



Por Luciane Evans


Eles querem quebrar o silêncio. Jogar para o ar as palavras presas na garganta, tirar o peso das costas e dividir sentimentos, falhas, inquietudes, medos. Falar, falar, falar.... Entre eles, somente entre eles. Está nascendo no Brasil, de Norte a Sul, o movimento dos homens contrários ao machismo enraizado na nossa cultura e que querem mudar essa história, por meio do afeto e da coragem.


Principalmente nos últimos doze meses, estão brotando no país grupos de discussão masculina com a ideia de jogar fora as referências de masculinidade que já tiveram um dia e construir um homem mais aberto e humano para as relações.


Isso porque as velhas crenças e estereótipos, como “homem não chora”, já não fazem mais sentido numa sociedade que busca a igualdade de gênero.

Em agosto deste ano, foi lançado o documentário brasileiro O Silêncio dos Homens, produzido pelo Papo de Homem e realizado pela Monstro Filmes, com pesquisa do Instituto PdH, que mostra o movimento deles para mudar aquilo que se aprende na infância. O longa conta com apoio institucional da ONU Mulheres e da Campanha Eles por Elas.


O documentário (veja abaixo) está disponível no YouTube tem a intenção de nos fazer refletir sobre como as masculinidades são construídas nos primeiros anos de vida e resultam em atitudes nocivas que prejudicam o próprio homem e as relações que ele cria.


Por trás de tantos silêncios que eles carregam pode estar a raiz de vários problemas, que vão desde a violência doméstica até as altíssimas taxas de suicídio entre eles. Quem quer mudar essa historia já reconhece que as emoções trancafiadas precisam ser quebradas como forma de humanizar o homem.

Grupo Peixaria BH nasceu este ano na capital mineira e reúne homens com idades e profissões variadas

Movimento ganha cada vez mais adeptos em BH


Essa abertura emocional está fazendo a diferença para muitos mineiros. Em Belo Horizonte, o movimento ganhou força este ano com o início de rodas de encontros masculinos pela cidade. Cientes de que já não há mais espaço para o machismo em nossa sociedade (embora ele ainda exista), os integrantes querem aprender a se abrir, a falar sobre os seus sentimentos, falhas e preocupações.


Stephan Dohrn acredita que, ao se abrir e falar sobre as suas inquietudes, o homem se transforma

“É ter uma roda de iguais para falar sobre questões que nos afetam. Nós, homens, nunca tivemos espaço para isso”, comenta Stephan Dohrn, integrante do Peixaria BH. O grupo, que nasceu no início deste ano, se reúne duas vezes por mês para discutir assuntos relacionados à masculinidade. Entre os temas estão a paternidade, morte, sexualidade, problemas familiares, entre outros. Geralmente, há 20 participantes na roda.


Stephan, que é alemão e mora há cinco anos no Brasil, conta que esse movimento já está fortalecido pela Europa e Estados Unidos, e aqui está caminhando para isso.


Ele explica que o principal das conversas é que não se trabalha uma questão generalista. O participante relata a sua vivência com determinado assunto. "Dizemos ‘Eu tive essa experiência e me senti assim`. Vou dizer como o mundo se relacionou comigo e como lido com as dores que sinto”, explica. Assim, os outros homens vão respondendo e trocando ideias e conselhos.


Homens negros se reúnem no Centro da cidade

O mineiro e projetista industrial Paulo Guilherme de Miranda, de 37 anos, participou do documentário O Silêncio dos Homens e aposta também no crescimento desse movimento. “Há dois lados: há a cobrança da sociedade para que esse homem mude, já que a forma como ele foi criado não cabe mais nas relações cotidiana; e o boom desses grupos que estão visíveis”, avalia.


Paulo ia aos encontros do Peixaria até que, por questões de identidade, sentiu vontade de criar o Masculinidades Negras. “Eu participava do Peixaria, ajudei a fundar o grupo, mas era o único negro e pobre ali. Havia coisas que aconteciam comigo que não eram a realidade deles”, reconhece Paulo.


O Masculinidades Negras se reúne quinzenalmente no Centro de BH para debater questões relacionadas ao universo do homem negro

O Masculindades Negras se reúne bem no coração de BH, no Centro de Referência da Juventude, na Praça da Estação. Os encontros são quinzenais e a única exigência é a de que o participante seja negro.


Entre os temas estão racismo, paternidade, espiritualidade, assexualidade, entre outros. Para que haja um rico debate, Paulo diz estudar antes sobre cada assunto. Já houve encontros em que havia 30 participantes.


"Em BH, nunca tivemos esse espaço, onde o homem negro pudesse falar de suas dores. A demanda é grande para isso. Tanto que nunca fizemos um trabalho de divulgação sobre esses encontros e, mesmo assim, há procura”, diz Paulo.

Eles se sentem melhor e mais leves


Ao frequentar as rodas de conversa, eles têm sentido que estão mudando pensamentos e formas de encarar a vida. Muitos deles dizem se sentir melhor, inclusive, para as relações com as mulheres.


Paulo Guilherme diz que as rodas de conversa mudaram e melhoraram seu relacionamento com os filhos

Paulo Guilherme enfatiza que a mudança entrou para dentro de casa e mexeu com o relacionamento com os seus dois filhos. “Tudo mudou. Eu não tive, na infância, diálogo com os meus pais e nunca ouvi deles um 'eu te amo'. Hoje falo para os meus filhos”, orgulha-se.


Na sua avaliação, as novas gerações se beneficiarão com essas mudanças. “Os meus filhos vão chegar mais preparados para a vida”.


Stephan Dohrn, integrante do Peixaria BH, também sente as diferenças. “Quando escutamos que os outros têm problemas e vivências parecidas, sentimo-nos mais à vontade para nos abrir. Com isso, vamos ficando mais leves, mais relaxados. Temos uma leveza de volta”, garante.



Mudanças na paternidade


O jornalista Marcelo Paulo será pai este ano e, para viver essa experiência na sua plenitude, mergulhou nessa quebra de paradigmas. Além de fazer parte de rodas de conversa presenciais, ele participa do grupo de WhatsApp Homem Paterno. Neste, há homens de todo o Brasil que trocam experiências e ideias sobre ser pai.


“O principal retorno é o aprofundamento no meu autoconhecimento, além de aprender a falar mais sobre sentimentos e de trabalhar um olhar mais crítico dos efeitos do machismo na sociedade”, avalia.

Em junho deste ano, Marcelo fez o curso de Gestação e Parto para Homens e entendeu melhor as mudanças que ocorrem no corpo da mulher grávida, o papel do homem na gestação e principalmente no parto. O curso também o preparou com informações para o dia mais importante da sua vida, o nascimento do Nuno, previsto para novembro deste ano.


Marcelo Paulo se prepara para criar seu filho sem os estereótipos da masculinidade tóxica

Ele espera passar para o filho que homem pode e deve chorar. “Dizer a ele que não precisa ser o 'comedor' para ser desejado pelas mulheres, que não temos que competir com os outros homens, que ninguém é melhor nem pior do que outro simplesmente por sua opção sexual. Os grupos de homens e a quebra do silêncio vêm para nos ajudar a nos livrar desta masculinidade tóxica que mata muitos de nós”, diz.

Empurrado por elas


No documentário O Silêncio dos Homens, a ativista e escritora Antonia Pellegrino diz que o movimento é reflexo da provocação feminina. Para ela, eles estão sendo instigados a refletir e a se abrir emocionalmente porque houve uma mudança na sociedade, o que gerou dificuldades para os homens dessa geração. “Essas novas masculinidades estão se produzindo e sendo empurradas pelo movimento das mulheres”, pontua.


O jornalista Marcelo Paulo concorda e diz que os homens estão sendo incentivados a combater a masculinidade tóxica impulsionados pelos movimentos feministas e também pelas próprias companheiras. “Os grupos estão crescendo, mesmo que ainda sejam pequenos. Em Belo Horizonte, estão surgindo para debater o nosso papel enquanto homens no combate à masculinidade tóxica e ao mesmo tempo abrindo espaços para que possamos expressar medos, sentimentos e fragilidades.”


Assista ao documentário O Silêncio dos Homens