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Violência obstétrica: Um grito de muitas

Atualizado: Jan 21

Sabrina Geovana denunciou a violência obstétrica que sofreu em maternidade particular de Belo Horizonte e comoveu mulheres nas redes sociais, que pressionaram a instituição a agir

"Sofremos violência obstétrica e um terrorismo psicológico injustificável. Todos que assistiram a essas agressões estão abalados", relatou Sabrina. (Fotos: Maia Fotografias)

Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


"Ele (o médico) alegou que eu estava completando muito tempo de período expulsivo e que era protocolo da maternidade fazer algo, e que indicaria a intervenção única e exclusivamente por minha causa, porque eu não estava dando conta e estava em exaustão. Ele determinou isso para mim, depois de repetir inúmeras vezes o quanto eu estava cansada, a ponto de eu realmente acreditar que não daria conta. A intervenção era o fórceps e nesse momento eu me desesperei, cogitando inclusive uma cesariana e ele respondeu simplesmente que não existia essa possibilidade para mim. Naquele momento me sentia tão desamparada por aquele médico, porque nada foi explicado com calma, tudo foi feito com muita agressividade... Ele dizia que estava fazendo aquilo para salvar meu filho, que ia fazer o que fosse necessário para que ele nascesse, chegando a falar, inclusive, que depois eu poderia processá-lo. Declarou que o parto não era mais meu, que a partir da hora que as intervenções começaram o parto era meu, dele, do anestesista, de todos envolvidos." 


Na última semana, o texto de onde esse trecho foi extraído circulou pelas redes sociais provocando indignação e conquistando o apoio de mulheres de todo o Brasil. Trata-se do relato de parto da pedagoga Sabrina Geovana Carvalho, que em 28 de dezembro de 2019 deu à luz Emanuel, em um parto normal repleto de humilhações, com episiotomia e uma lista de violências obstétricas, no Neocenter Maternidade de Belo Horizonte - que foi inaugurado em 2018, é particular e defende a humanização do parto.


Depois de “digerir” melhor o pesadelo que viveu, Sabrina publicou nesta semana (14/01) o relato em sua página do Instagram e seu grito foi ecoado por muitas mulheres. Ela contou ter passado por diversas condutas violentas adotadas pelo obstetra plantonista que a atendeu. (Leia o relato na íntegra no final da página)


"A primeira violência obstétrica que a Sabrina viveu foi a rejeição da leitura do plano de parto, que é um documento com as escolhas da gestante. O médico disse que não era o momento para aquilo”, conta a doula Aline Malaguth, que prestou assistência à vítima e acompanhou todo o desenrolar do trabalho de parto, parto e pós-parto.


A segunda violência, segundo a doula, foi desestabilizar o ambiente. "Ele falava alto, falava muito, mexia em aparelhos o tempo todo. O local de parto deve ser sereno, tranquilo. Também houve a violência psicológica, pois o médico dizia o tempo todo que a Sabrina estava cansada, que não iria dar conta, que não era capaz. Isso mina o cérebro de uma mulher que está sentindo dor”, pontua Aline.


De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), para uma experiência positiva de parto, a equipe de assistência tem o dever de respeitar o protagonismo da mulher. A OMS considera a violência obstétrica como uma violação de direitos humanos e a tipifica como algo que vai desde os abusos verbais, como “na hora de fazer não gritou”, passando por restringir a presença de acompanhante, realizar procedimentos médicos não consentidos e se recusar a administrar analgésicos, até a violência física propriamente dita: subir na barriga da mulher para empurrar o bebê e cortar a vagina sob o pretexto de aumentar a passagem para o bebê são formas recorrentes desse tipo de violência. 


A doula lembra que o médico dizia o tempo todo que Sabrina não era capaz, que não ia conseguir e não ia aguentar. Ele também tentou guiar o expulsivo da parturiente e, desconsiderando mais uma escolha dela, não permitiu que descansasse. "Ele fez a diminuição de colo com os dedos, e fez episiotomia, que foi outra violência. Ela implorou para não fazer, ela estava sentindo dor quando ele começou, pediu para parar, e ele não parou”, recorda Aline.


O médico também usou fórceps contra a vontade da mulher, causando um hematoma na cabeça do recém-nascido. “No momento em que o bebê nasceu ela pediu perdão para o filho. E o médico não permitiu, falou que ela não tinha que pedir perdão. Foram muitas violências”, lamenta a doula. 

Além de ser uma conduta desaconselhada tanto pelo Ministério da Saúde (que chegou a invalidar o termo mas depois voltou atrás) quanto pela OMS, a violência obstétrica é crime. Embora ainda não exista nenhuma lei federal sobre o assunto em vigor, alguns estados têm leis específicas para tipificar as violências que ocorrem no parto. Minas Gerais é um deles.


A lei 23.175/18, de autoria da deputada Geisa Teixeira (PT), garante o direito da gestante, parturiente e mulher em situação de abortamento a uma assistência humanizada, listando alguns procedimentos e posturas vetados, como ignorar as demandas da mulher, utilizar termos depreciativos, e impedir a entrada de um acompanhante na sala de parto. 


"Quando eu pedi para descansar, ele respondeu rindo que era impossível descansar naquele momento e disse em tom de zombaria para os demais que estavam na suíte “Olha ela querendo descansar agora, no expulsivo. Não é hora de descansar, é hora de fazer ele nascer”. Eu implorei que me deixasse descansar só um pouco, dessa maneira eu teria forças para continuar e ele me negou", trecho do relato de Sabrina.



Um combate de muitas lutas


O grito da pedagoga Sabrina Geovana Carvalho ecoou nas redes sociais, mobilizou mulheres ativistas, psicólogas, doulas, jornalistas, entre outras. "Me senti muito acolhida com tamanha demonstração de afeto e sororidade. Saber que não estou sozinha nessa luta me faz bem mais forte", comenta Sabrina.


E ela não está sozinha, nem na luta, nem como vítima. Estudo realizado pela Fundação Perseu Abramo e publicado em 2010 aponta que uma em cada quatro mulheres brasileiras sofre violência no parto. "Não é apenas uma violência de um determinado profissional para uma gestante, é uma violência institucional e deve ser tratada e combatida como tal, inclusive pelo conselho regulador de cada profissão", defende a psicóloga e psicanalista pós-graduada em psicanálise, perinatalidade e parentalidade, Clara Bretas.


"A violência obstétrica carrega as marcas históricas e culturais do controle sobre o corpo da mulher. Há pesquisas que demonstram que a mulher negra sofre mais com esse tipo de violência do que as mulheres brancas, resquício também da nossa sociedade estruturalmente racista", afirma Clara Bretas.

A psicóloga, que já atuou como doula na capital mineira, diz que muitas vezes os atos violentos contra a mulher são camuflados e passam despercebidos. Ela conta já ter acompanhado um parto com um médico renomado em BH que usava os dedos para “ajudar” a dilatação do colo do útero da parturiente durante as contrações, prática que também foi realizada no parto de Sabrina.


"Diferente do toque realizado pelo profissional durante o trabalho de parto, esse procedimento é extremamente doloroso e serve para acelerar o trabalho de parto, sem benefício para mulher nem para o bebê. O procedimento foi usado sem nenhum esclarecimento e justificativas para uma intervenção tão dolorosa", conta Clara, para quem o papel da doula diante de uma violência na sala de parto é oferecer apoio físico e emocional à mulher, cabendo aos médicos e enfermeiros obstetras a avaliação técnica.


"As pessoas que podem questionar ou reclamar da conduta médica durante a assistência são a parturiente e seus acompanhantes. A doula só pode combater a violência obstétrica através do ativismo. Ativismo que acontece na rua, nunca na sala de parto", esclarece.


Ela acredita que o combate a esse tipo de violência está se fortalecendo, mas ainda falta muito. "Há pouco tempo, muitas das situações reconhecidas hoje como violência obstétrica eram tratadas como parte do processo “natural”, como proibir que as parturientes gritassem durante o trabalho de parto. Mas mesmo sabendo que isso é um tipo de violência, ainda se escuta mulheres aconselhando gestantes a não gritarem durante o nascimento dos filhos para não sofrerem nenhuma retaliação ou ameaça da equipe do hospital".


Para Clara, a mobilização das mulheres com o caso da Sabrina é positivo para a luta, assim como a denúncia. "Mas não se trata de um caso isolado. É bem mais corriqueiro do que imaginamos e do que os dados conseguem alcançar. Isso porque muitas não denunciam os abusos e outras são desencorajadas até mesmo por pessoas da família a não levar a denúncia adiante. E a violência está muito presente nas maternidades públicas e nas particulares quando a mulher precisa recorrer ao médico plantonista", alerta.



Denuncie

Casos de violência obstétrica podem ser denunciados na Agência Nacional de Saúde (ANS), quando ocorridos em atendimentos particulares. Tanto em instituições públicas como particulares, pode-se denunciar também no Ministério da Saúde, no disque 136, ou pelo disque 180, que recebe denúncia de violência contra a mulher.


"A denúncia em todos os canais é necessária para o combate a esse tipo de violência, uma vez que só é possível construir políticas públicas baseadas no número de notificações. A mulher também pode recorrer à Justiça, buscando um advogado ou até mesmo a defensoria pública", diz Clara .


Maternidade vai solicitar parecer do Conselho Regional de Medicina

Em nota, o Neocenter Maternidade informou que, na segunda-feira, dia (13/01), o diretor clínico do hospital esteve com Sabrina, a doula e a fotógrafa e ouviu o relato delas sobre o ocorrido. "Imediatamente, foi iniciado um processo interno para escuta de todo o corpo clínico envolvido no dia do parto, bem como abertas sindicâncias junto às comissões Científicas e de Ética da maternidade", diz o texto.


Além das análises internas, o Neocenter Maternidade escreveu que "está solicitando parecer do Conselho Regional de Medicina (CRM). Acreditamos na idoneidade do CRM para uma avaliação criteriosa e segura para todos os envolvidos".


Porém, as ações da maternidade não tranquilizam Sabrina. Ela diz que a comoção com o seu relato foi o que motivou o Neocenter a dar uma resposta ao ocorrido e, ainda assim, as atitudes tomadas não são suficientes.

"Não vai ser esse ato que vai tirar o médico do corpo clínico. Não me sinto segura enquanto ele estiver atuando", afirma.


Leia na íntegra o relato da pedagoga Sabrina Geovana



"Escrevo esse relato como forma de tentar lidar melhor com a experiência de parto que tive - foi um parto traumático e que não desejo para ninguém, não quero que isso aconteça com nenhuma outra mulher. Meu intuito é partilhar a minha vivência, pois me preparei muito para viver esse parto ao longo da gestação toda. Fiz uma extensa pesquisa e fiz a escolha da maternidade com a confiança de que seria respeitada. Hoje me sinto culpada da minha escolha – uma maternidade renomada de Belo Horizonte, recém inaugurada e que prega o discurso de uma assistência humanizada. Uma instituição que me garantiu que eu não seria vítima de violência obstétrica, mas foi exatamente o que eu vivi: uma assistência desrespeitosa e violenta em todos os níveis – físico e principalmente psicológico. Embora saiba que foi algo pontual e que existem excelentes profissionais e histórias de parto nessa instituição, esse não foi o meu caso e gostaria de dividir com vocês o que eu vivi.

Minha família e todos os que assistiram ao parto (a doula e a fotógrafa da minha equipe) estão abalados com o ocorrido e até hoje eu não consigo acreditar que isso tudo de fato ocorreu.

No dia 28 de dezembro de 2019, eu internei na maternidade em questão. Tudo estava evoluindo dentro do esperado e eu e meu bebê estávamos bem, sendo assistidos de maneira atenciosa e respeitosa. Entretanto, quando ocorreu a troca de plantão médico pela manhã tudo mudou.

O médico que chegou no plantão às 7h entrou na suíte enquanto eu estava em quatro apoios na maca, já em puxos e permaneceu algum tempo conversando alto sobre assuntos pessoais com as enfermeiras que estavam com ele e mexendo de forma barulhenta em vários instrumentos, um total desrespeito ao meu momento.

Após tentar conversar comigo durante as minhas contrações, ele se recusou a ler o meu plano de parto, alegando que “não era hora de fazer isso e sim de fazer o bebê nascer e que ele não era o inimigo ali”. No meu plano de parto estava escrito que eu não queria que me oferecessem analgesia e a todo momento ele me oferecia analgesia e dizia como eu estava muito cansada (sem sequer ter me perguntado isso).


Chegou, inclusive, a tentar discutir com minha equipe em dois momentos (doula e fotógrafa). O clima de hostilidade me deixou bastante assustada e interferiu diretamente na minha capacidade de relaxar e me entregar ao processo.

Em 1:30h que ele ficou no quarto foram TRÊS toques vaginas e DUAS manobras de reduções de colo (eu nem sabia que isso existia) – sem me explicar nada e sem o meu consentimento. Nas duas vezes que realizou a redução (minha equipe me explicou mais tarde o que era) eu urrei de dor e implorei que ele parasse. Ele me colocou em litotomia duas vezes, dizendo que a banqueta “não estava sendo boa para mim” e ficava dirigindo meus puxos – sem me dar espaço para que eu me conectasse com aquela experiência. Ainda que fosse visível meu desconforto e minha equipe tentassem interferir sutilmente para que eu tentasse novas posições, ele insistiu que aquela era a melhor posição para mim.

A presença dele era invasiva e perturbadora, dominava o ambiente de tal forma que meus acompanhantes e equipe não conseguiam se comunicar comigo. Ele interferia o tempo todo em todas as conversas, não parava de falar, contava casos pessoais e totalmente inadequados e eu estava extremamente incomodada com sua presença.

Quando eu pedi para descansar, ele respondeu rindo que era impossível descansar naquele momento e disse em tom de zombaria para os demais que estavam na suíte “Olha, ela querendo descansar agora, no expulsivo. Não é hora de descansar, é hora de fazer ele nascer”. Eu implorei que me deixasse descansar só um pouco, dessa maneira eu teria forças para continuar e ele me negou. Disse algo sobre como era ruim ter um filho com paralisia cerebral, que ele via muito no consultório e a essa altura, meu marido começou a acreditar que havia realmente algo acontecendo com nosso filho, ainda que os batimentos indicassem a todo tempo que estava tudo correndo bem.


Ele alegou que eu estava completando muito tempo de período expulsivo e que era protocolo da maternidade fazer algo e que indicaria a intervenção única e exclusivamente por minha causa, porque eu não estava dando conta e estava em exaustão. Ele determinou isso para mim, depois de repetir inúmeras vezes o quanto eu estava cansada, a ponto de eu realmente acreditar que não daria conta. A intervenção era o fórceps e nesse momento eu me desesperei, cogitando inclusive uma cesariana e ele respondeu simplesmente que não existia essa possibilidade para mim. Naquele momento me sentia tão desamparada por aquele médico, porque nada foi explicado com calma, tudo foi feito com muita agressividade... E esse meu questionamento! Não a intervenção em si, mas como tudo foi conduzido. Eu desejava sim um parto mais natural possível, mas estava preparada pra possibilidade de intervenções, caso necessárias. Ele dizia que estava fazendo aquilo para salvar meu filho, que ia fazer o que fosse necessário para que ele nascesse, chegando a falar, inclusive, que depois eu poderia processá-lo. Declarou que o parto não era mais meu, que a partir da hora que as intervenções começaram o parto era meu, dele, do anestesista, de todos envolvidos.

Ele mencionou alguma coisa sobre episiotomia, mais uma vez sem se dar ao trabalho de conversar e me explicar o que ia acontecer. Estava escrito no meu plano de parto que eu não desejava episiotomia em hipótese alguma e nesse momento questionei a necessidade desse procedimento. O anestesista, que também estava na sala, respondeu com tom de ironia que havia todas as evidências científicas para uso da episiotomia. O médico afirmou que sabia o que estava fazendo, que não machucaria meu filho e que aquilo era o melhor.


Eu estava aterrorizada com a possibilidade de algo ocorrer com meu filho.

Ele deu anestesia local e iniciou o corte, eu gritei de dor. Senti ele cortando, o sangue escorrendo e disse a ele que estava sentindo. Ele pediu mais uma dose de anestesia local e eu continuei sentindo tudo e reportei isso a ele, que afirmou que não era possível que eu estivesse sentindo dor. O anestesista confirmou que eu não poderia estar sentindo dor como estava relatando. Tudo foi feito de forma atropelada, sem nenhuma justificativa, porque os batimentos do meu bebê continuaram bem em todo o tempo, como descrito no prontuário médico.

Eu me perguntava a todo instante porque aquilo estava acontecendo comigo e tinha vontade de sair correndo dali.

Quando meu bebê nasceu, as minhas primeiras palavras para ele foram de pedir perdão por tudo aquilo que havia acontecido ali, um nascimento tão desnecessariamente violento, tão fora de tudo o que havia desejado e me preparado. E ele não respeitou sequer minha fala com meu filho e disse que não havia porque pedir perdão, que tinha feito aquilo pelo bem dele e que “parto era fazer neném nascer”.


Mais tarde ele retornou a sala e reafirmou que tudo aquilo tinha salvado meu bebê, o anestesista também retornou ao meu quarto e em total desconsideração ao que eu havia acabado de viver disse mais uma vez que não era possível que eu estivesse sentindo dor durante a episiotomia e acrescentou também que essa coisa de parto natural era modinha e pra eu tomar cuidado pra não ser dessas mães que não vacinavam meu filho.


Me senti fora de mim durante o resto do dia e confesso que ainda não consegui processar tudo o que me aconteceu. Carrego comigo a certeza de que tudo tivesse sido feito com calma e respeito, o desfecho teria sido diferente. Jamais conseguiria me entregar e parir naquele ambiente caótico que ele criou na minha suíte de parto em tão pouco tempo.

O médico que trabalha nessa instituição agiu em total desrespeito por mim e pela importância que aquela experiência tinha para minha família. Sofremos violência obstétrica e um terrorismo psicológico injustificável. Todos que assistiram a essas agressões estão abalados. Escrever tudo isso é muito difícil para mim e ter que reviver diariamente o que aconteceu é algo realmente muito doloroso e certamente é um trauma que terei que lidar pelo resto da minha vida."

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