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Todas precisamos ler Mulheres que Correm com os Lobos

Obra da psicanalista Clarissa Pinkola Estés instiga mulheres a reencontrarem a própria natureza livre e selvagem

Foto: Katerina Kerdi/ Unsplash

Por Nathalia Ilovatte Você já se sentiu louca, desajustada e profundamente deslocada de todas as ideias do senso comum sobre como deve ser uma mulher? Alguma vez você teve a sensação de que existe uma versão sua escondida lá no fundo, querendo criar, querendo ser livre, mas você não sabe como puxá-la das profundezas? Ou, ainda, que você é obrigada a manter essa sua versão selvagem ali, bem guardada, para conseguir seguir sua rotina? Se sim, você definitivamente não é a única. Essa mulher não domesticada, instintiva e visceral, que por vezes nos assusta quando tenta emergir, ou que buscamos incessantemente sem nem saber por que, está em todas nós. E é dela, da Mulher Selvagem, que fala a psicanalista junguiana Clarissa Pinkola Estés no livro Mulheres que Correm com os Lobos. Lançado há 28 anos, o best-seller já percorreu o mundo e vem perpassando gerações. No Brasil, esteve esgotado nas livrarias e disputado nos sebos até ganhar, em 2017, novas impressões pela Editora Rocco.

Afinal, o que é Mulheres que Correm com os Lobos?


Reprodução/ Editora Rocco

O livro de Clarissa Pinkola Estés reúne 19 lendas folclóricas, contos de fadas e histórias de diversas culturas, coletadas pela autora ao longo de 20 anos. São narrativas que abordam diferentes nuances do arquétipo da Mulher Selvagem. Ao contá-las, a psicanalista analisa as personagens e explica o sentido de cada história, dando pistas de como podemos nos reencontrar com esse arquétipo que faz parte de todas as mulheres, e que pode ser entendido como força instintiva, fonte de sabedoria ancestral e a origem do feminino. Apesar do sucesso, o livro não é um guia sobre como se libertar das amarras da cultura machista e se tornar uma mulher genuinamente livre. Embora possa promover isso, Mulheres que Correm com os Lobos não dá orientações nem passo a passo. Ele é um livro que nos convida a olhar para dentro, fazer perguntas a si mesma, desatar nós. O que virá depois disso, cabe a nós decidir. “Ouvi falar desse livro pela primeira vez nos anos 90, durante a minha adolescência. Não sabia exatamente do que se tratava, mas achava que era uma coisa meio de louca. Só fui lê-lo quase 20 anos depois, com mais de 30 anos de idade. Eu estava no salão de beleza, esperando para cortar o cabelo, e li a introdução. Eu lembro que meu corpo inteiro mudou. Pedi um lápis, comecei a entender as coisas e fui anotando nas margens das páginas. A chegada do livro na minha vida foi bem intensa”, conta Mariana Bandarra, co-criadora do podcast Talvez Seja Isso, que discute Mulheres que Correm com os Lobos capítulo a capítulo. Mesmo tendo descoberto o livro duas décadas antes, Mariana entende que o início da leitura aconteceu no momento certo, quando já estava pronta para mergulhar nas reflexões que ele propõe. “Eu antes estava muito despreparada para desagradar e quebrar as regras patriarcais do ambiente em que eu estava. Então, de certo modo, minha percepção de que é um livro de mulher louca estava certa, porque são mesmo chamadas de loucas as mulheres que não se conformam”. De acordo com a psicanalista Luisa Lamardo, Mulheres que Correm com os Lobos é uma obra que utiliza metáforas para nos convidar a rever nossa história e nossos papeis. “Somos feitas de histórias. Das que nos contaram, das que a gente conta sobre nós mesmas, das que a gente pode contar sobre o mundo”, explica.


“As histórias em que as mulheres são retratadas como belas, recatadas e do lar foram construídas, e o livro nos mostra, através de mitos e contos da cultura oral de diversas partes do mundo, que nem sempre foi assim”.

Antes de as mulheres serem empurradas para papeis limitadores, as histórias nos retratavam de maneira mais diversa, densa e realista, e Clarissa Pinkola Estés traz de volta essas narrativas. “A metáfora da mulher como uma loba, animal não domesticável, foi feita pela autora para resgatar a ancestralidade da mulher e explicitar como a intuição e criatividade foram sendo soterradas pela racionalidade e cerceadas pelo patriarcado, que delimita nossos espaços, falas, pensamentos e lugares que podemos ocupar”, diz Luisa.

Uma leitura transformadora

Foto: Geran de Klerk/ Unsplash

Para Mariana Bandarra, Mulheres que Correm com os Lobos é, antes de tudo, uma leitura prazerosa. “Não é simplesmente um livro. Ele tem uma coisa que está contida nas palavras. Não é coincidência que muitas pessoas se refiram a ele como uma bíblia, porque o jeito que a autora escreve já é a substância. O jeito que ela trança a linguagem, tece as frases, os parágrafos e as ideias, já está encharcado da própria natureza do que ela está falando. Ela faz uma escrita selvagem”, diz. Além de bem escrita, a obra de Clarissa Pinkola Estés tem potência para desencadear revoluções pessoais. “A leitura encoraja a incluir as perdas, os medos e as mortes na vida e na nossa narrativa, para quem sabe podermos ressignificá-la e vivê-la de maneira mais criativa, sendo autoras, contando outras versões de nossa própria história”, explica Luísa Lamardo.

A psicóloga e escritora Juliana Garcia tem este como seu livro de cabeceira há 15 anos, e o considera tão importante que criou a Jornada Mulheres que Correm com os Lobos, um curso online em que conduz a leitura e as reflexões do livro. Para a especialista, ele é um “convite para encontrar o caminho de casa”. “Os contos, os símbolos que eles carregam, o modo como a Clarissa vai desvelando as interpretações, são um convite para que a gente se conecte com a Mulher Selvagem, aquela porção em nós que não foi domesticada, que carrega seus instintos e potencial criativo”, fala.

Correndo com os lobos em tempos de quarentena

Em um contexto de isolamento social, que pode misturar sentimentos de solidão, luto e medo, as 500 páginas tecidas por Clarissa Pinkola Estés podem se tornar ainda mais profícuas.

“Esse livro ressignificou a minha relação com a minha solidão. Especialmente nesse momento de quarentena, eu tenho sentido muito isso", conta Mariana.

"Eu era muito sozinha na infância e tinha uma vida muito rica na solidão, mas a minha adolescência me deixou com a ideia de que eu precisava preencher esses espaços, de que não tinha valor naquilo que eu criava sozinha. Hoje eu valorizo muito o meu espaço de solidão”. Luísa Lamardo explica que as reflexões que o livro desencadeia podem nos proporcionar um autoconhecimento importante para lidar com as emoções que a quarentena traz. “A arte e a cultura fazem mediação entre o fora e o dentro, geram linguagem para lidarmos com o sofrimento, fornecem estofo para darmos conta da dureza do mundo. A arte e a literatura provocam efeitos de estranhamento, ampliam a percepção que temos de nós mesmos, contribuem para refletirmos nossa existência sob diferentes pontos de vista”, afirma a psicanalista. “Estamos vivendo um período dos mais diversos lutos, perdas de familiares, de amigos, de trabalho, de renda, de posição social, perdas concretas e simbólicas. São muitos os lutos a serem feitos. E os contos do livro, ao incluírem as perdas como parte da vida, podem ajudar a ampliar nosso repertório para lidarmos com os conflitos e dores”.

Ler e sentir sem pressa


Foto: Priscilla du Preez/ Unsplash

Por conter tantas camadas e por ser dividido em capítulos que abordam diferentes nuances do arquétipo da Mulher Selvagem, Mulheres que Correm com os Lobos é um livro que pode ser devorado, mas também pode ser saboreado e digerido aos poucos, em uma jornada que pode durar semanas, meses ou anos. A sugestão de Mariana é que cada aprendizado seja devidamente decantado, para só então a leitura prosseguir. “Esse livro precisa ser lido e integrado. E o processo de integração é levar pra casa o que eu aprendi na aventura”, recomenda. Juliana recomenda apreciar a leitura devagar e com uma xícara de chá. “Em um dos capítulos, a Clarissa fala da beleza que pode haver em tomarmos uma xícara de chá com a nossa dor. Respirar, parar, sentir, compreender, estar presente e até poder degustar o que esse conhecimento traz”. Não é preciso se preocupar em seguir a ordem dos capítulos. “Cada conto é independente, então você pode ler na sequência dos capítulos, abrir ao acaso, escolher um conto que te chame a atenção. Eu costumo recomendar que se leia primeiro a introdução e o capítulo 1, para entrar no universo de Mulheres que Correm com os Lobos. Inclusive, no capítulo 1 é que a gente entende o título do livro. Depois, fique livre para ir sentindo o livro e criar seu ritmo”, ensina a psicóloga.

E o que fazer com tudo que essa leitura remexer? “Acolher. Escrever sobre as inquietações. Conversar com alguém. Compartilhar. Criar a partir delas”, indica Juliana.

O que vai acontecer com a nossa vida depois de Mulheres que Correm com os Lobos, cabe a cada uma de nós decidir. “O livro tem um denominador comum para as mulheres que são os contos e mitos, que não têm uma única interpretação. São obra aberta onde cada uma dará seu próprio sentido, formulará suas próprias questões. Os destinos para as inquietações, o inventar com elas, é um trabalho singular”, conclui Luisa.


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