• Cria Para o Mundo

Tem uma amiga no puerpério? Seja apoio emocional

Os primeiros meses após a chegada de um filho são extenuantes para a mulher. Mas contar com a presença constante de amigos traz alívio, conforto e acolhimento

Foto: Nappy Studio

Por Nathalia Ilovatte


Aqueles amigos que antes eram tão próximos parecem não saber mais lidar com a gente ou, pior, desaparecem. A família nos afoga num mar de palpites, cobranças e julgamentos que vêm ora velados, ora jogados na cara. No espelho, encaramos a imagem de uma mulher que não reconhecemos mais, e por vezes a rejeitamos, sentindo saudade de quem éramos antes desse vendaval entrar na nossa vida varrendo tudo do lugar.


Aos olhos de quem nunca vivenciou tudo isso, pode parecer drama, exagero ou loucura. Mas acontece com todas as mães e tem um nome: puerpério.


O da servidora pública Natália Nássara, mãe de João, de 9 meses, chegou como chega para muitas de nós: fazendo cair por terra algumas certezas. “Eu não imaginava que seria tão difícil e tão desafiador. Achava que as pessoas exageravam com relação às dificuldades de criar um bebê, de fazer dormir… Eu tive uma gravidez muito tranquila e achava que o puerpério também seria. Mas foi muito devastador, muito mais do que eu imaginava”, conta.

Natália e João, hoje com 9 meses: "Não imaginava que seria tão difícil"

Natália recorda a sensação de não pertencer mais a si mesma. "Eu não conseguia tomar um café da manhã, e parecia que eu estava me perdendo de mim. Eu sentia muita falta de mim, de poder tomar um banho, ir ao banheiro sem bebê chorando", lembra. "Esse caos do início, quando não existe rotina nem horários, para mim foi muito difícil. Eu sempre fui muito organizada, muito metódica, e foi muito difícil abrir mão disso tudo e me entregar para os cuidados com o bebê, me fundir com ele e encontrar a minha forma de maternar".


A servidora pública conta que o marido é participativo e divide as responsabilidades de igual para igual, e que também teve o apoio da mãe e da sogra, que mandavam refeições, ajudavam lavando roupa e perguntavam do que ela precisava. Mas, depois de 20 dias de licença, o marido voltou ao trabalho, enquanto ela seguia em casa com o bebê.


Contrariando o provérbio que diz que é preciso uma aldeia para criar uma criança, Natália passava boa parte de seus dias sozinha, e no meio de tantas emoções, sentia sobressair a solidão. "Eu sentia muita falta de companhia, muita! Às vezes eu queria ter uma empregada todo dia dentro de casa, simplesmente para eu ter companhia. Não era para arrumar minha casa", diz.


A ausência não era de pessoas que visitam a família para conhecer o bebê. O que faltava de verdade era presença emocional, intimidade, liberdade para desabafar.


"Eu acho que uma puérpera precisa mais de companhia do que de visita. Porque com visita tem que se preocupar em fazer chazinho, fazer sala, botar roupa bonita no bebê. Isso é o que menos uma puérpera precisa. Mas ela precisa de companhia, da companhia daquelas pessoas com quem tem intimidade, com quem possa se abrir", diz Natália.

A solidão não é exclusividade do puerpério de Natália, ou daquela amiga do trabalho que teve depressão pós-parto. Para a doula e mãe de seis Ana Luiza Ferreira de Morais, a necessidade de companhia é universal. "Somos iguais. Nossas necessidades são as mesmas. Não importa o nível social, se é o primeiro ou o quinto filho, o puerpério é uma fase em que a mulher fica mais frágil e todas as emoções ficam à flor da pele", explica.

Ana Luiza em ação durante trabalho de parto: "Toda puérpera fica à flor da pele"

A doula lembra que esse isolamento tem um agravante: nem sempre quem está por perto sabe lidar com uma mulher no puerpério nem respeitar o espaço de quem acaba de se tornar mãe. "Sem dúvida nenhuma o pior erro é tentar ajudar dando opiniões de como essa mãe está cuidando do bebê. Se não consegue amamentar ela é apedrejada, e se amamenta até 2 anos ela é louca porque o menino está enorme e fica feio amamentar em público um menino tão grande. Sempre tem algum parente, ou amigo, ou desconhecido mesmo, pra falar que o que ela está fazendo está errado", diz.


A doula e mãe de dois Jéssica Matias explica que não basta se fazer presente, a ajuda oferecida precisa ser o que aquela mãe no puerpério realmente necessita.



"As pessoas que estão ao redor dessa mulher precisam estar cientes do momento que ela está vivendo para que possam contribuir da melhor forma possível. É necessário que eles sejam realmente uma rede de apoio e não de agouro", comenta.
Jéssica dá banho em recém-nascido: "Pessoas devem evitar dar palpites"

Jéssica sugere aos amigos e familiares que evitem fazer comentários do tipo "na minha época era assim e ninguém morreu", "você não está fazendo direito", "esse bebê precisa de tal coisa", "seu leite não está sustentando", ou ainda "você não tem motivo para estar triste, seu bebê é saudável". E garante que há muitas maneiras de ser útil e fazer a diferença na vida de uma mãe de recém-nascido. "Se oferecer para ouvir a mulher sem julgamentos, deixar uma comida pronta, oferecer apoio com as demandas da casa. Qualquer coisa que faça com que a mulher se sinta cuidada, acolhida e diminua as inúmeras tarefas que existem além de cuidar do bebê, é de grande valia", pontua.


Quer ajudar uma amiga no puerpério e ainda não sabe como? Aqui vão algumas ideias sugeridas por Natália e pelas doulas Jéssica Matias e Ana Luiza Ferreira de Morais:


  • Respeite as escolhas dessa mãe, mesmo que você discorde delas;

  • Não menospreze os problemas dela, mesmo que para você pareçam pequenos;

  • Nunca a chame de louca nem diga que está surtada. Ela está cansada, só isso;

  • Busque grupos de apoio e se proponha a levá-la. Para algumas mulheres, aceitar ajuda é muito difícil e pode ser interpretado como um sinal de fracasso. Em um grupo de mães conduzido por profissionais experientes, ela poderá perceber a própria sobrecarga e enxergar saídas;

  • Acolha essa mulher, ofereça seu ombro, seus ouvidos, mande áudios, doe seu tempo, demonstre que se preocupa com ela;

  • Chame-a para sair. Uma volta na pracinha, uma ida ao parque, um café rápido são passeios possíveis, e tirar uma puérpera de casa pode fazer um bem danado a ela;

  • Leve um mimo para sua amiga. Um bolo, uma comida congelada, uma caixa de bombons, qualquer coisa que faça essa mulher se sentir enxergada;

  • Ajude-a com a casa. Pode ser lavando a louça, estendendo a roupa no varal, varrendo a casa;

  • Se você souber, faça as unhas dela, ou a sobrancelha, ou ofereça uma massagem;

  • Ofereça-se para ficar com o bebê enquanto ela toma um banho com calma ou tira um cochilo.