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"Tarsila viveu por 17 horas e fez caber ali toda uma vida"

"Na primeira vez que dei colo à minha filha ela estava sem vida. Não pude amamentá-la, apesar do leite que insistia em sair", conta a psicóloga Cristina Veríssimo

Cris à espera de Tarsila, no quarto montado para a filha / Foto: Maia Fotografias

Por Cristina Veríssimo


Em 2017, meu marido e eu passamos boa parte do ano conversando sobre a possibilidade de uma gravidez. Foram longas e cuidadosas conversas até a decisão. Em outubro do mesmo ano, decidimos começar as tentativas. A história de sempre: pensávamos que logo a gravidez aconteceria, talvez naquele ano mesmo. Mas não foi o que aconteceu.

Após tentarmos por 1 ano, fizemos diversos exames e, aparentemente, estava tudo bem com meu marido. Porém, um exame invasivo e dolorido mostrou que uma das minhas trompas tinha uma aderência. Ainda assim, tentamos mais alguns meses na esperança de que essa aderência não fosse um empecilho. Após 1 ano e meio de tentativas, recorremos à fertilização in vitro. Foi um tratamento bem difícil por conta das injeções hormonais e dos sintomas que as injeções geraram, além de toda questão emocional envolvida. Entretanto, em menos de 1 mês após início do tratamento, recebemos nosso tão desejado positivo. Eu estava grávida. E não poderia estar mais feliz.

Os meses de gravidez, apesar de toda empolgação e alegria, não foram fáceis. Eu passei muito mal, tive enjoos durante a gestação inteira, dentre outras coisas.

Nos últimos anos, estava muito atenta aos temas relacionados à gestação, ao parto, ao puerpério e à amamentação. Para mim, é um prazer descobrir e conhecer esses temas. Além disso, fiz cursos na área para me auxiliar profissionalmente no trabalho que realizo com mulheres. Assim, preparei-me para ter parto normal. Visitamos a maternidade desejada, gostamos e esperamos nossa Sementinha vir quando fosse seu momento. Nós a chamávamos assim, pois optamos por descobrir o sexo apenas ao nascer.

Era previsto que nossa Sementinha chegasse no início de novembro. Mas em outubro, ao completar 36 semanas, comecei a ter a sensação de que não iria demorar.

Com isso, meu marido e eu terminamos de arrumar seu quarto, arrumamos a bolsa para maternidade e organizamos o que era preciso.

Com 36 semanas e três dias, no meu último dia de trabalho antes da minha licença maternidade, tive algumas contrações leves, porém, constantes. Pensei que poderiam ser contrações de treinamento, mas segui observando, sempre calma e atenta.


Na madrugada desse dia para o seguinte, praticamente não dormi porque sentia contrações constantes e estava muito feliz, sentindo que o parto estava muito próximo. Na manhã seguinte, ao acordar, o tampão mucoso saiu. Segui tranquila, pensando que ainda podia demorar dias ou semanas. Nessa mesma manhã, tínhamos consulta com o obstetra.


No caminho, paramos para lanchar e, ainda na lanchonete, pensei ter feito xixi na roupa. Ao chegar no prédio da consulta, percebi que, na verdade, estava com bolsa rota (bolsa rompida). Entramos felizes na consulta, contando que eu estava em trabalho de parto e que Sementinha estava vindo.


A consulta foi ótima. Saímos de lá contentes, tranquilos apesar da prematuridade. Passamos em uma farmácia, buscamos almoço, compramos comida para levar para o hospital e seguimos para casa. Ainda na farmácia, encontrei minha mãe, que demorou a acreditar que eu estava, naquele momento, com bolsa rota e que a Sementinha estava para nascer a qualquer instante.

Em casa, tomei banho, fiz minhas unhas, dancei muito, assisti série, conversei com várias pessoas pelo celular e segui muito empolgada e cheia de energia. Meu marido e eu nos comunicamos com nossa doula e enfermeira obstétrica, caminhamos na rua um pouco e sentimos o dia de forma gostosa e leve.

Nossa intenção era ficar em casa até o trabalho de parto avançar mais, porém, como estava com bolsa rota e era um caso de prematuridade, foi necessário ir antes para a maternidade por conta de algumas medicações necessárias. Assim, por volta de 20h30, chegamos ao Neocenter acompanhados pela nossa enfermeira obstétrica. Algum tempo depois, ela foi embora para que pudéssemos dormir e descansar um pouco até o trabalho de parto engrenar, já que parecia ainda longe de acontecer. Entretanto, por volta de 23h, as contrações começaram a ficar mais intensas e regulares.


O parto


Daí em diante, tudo foi acontecendo sem que eu tivesse muita noção, pois me entreguei totalmente para receber nossa Sementinha tão esperada. Ficamos no quarto, meu marido, nossa doula e eu. Algumas horas depois, chegou nossa fotógrafa tão querida. Durante todo esse tempo, eu recebia monitoramento adequado e a equipe do hospital era muito afetuosa e cuidadosa.


Passei toda a madrugada de olhos fechados, gritando muito, entregando-me para a vivência e para a dor. Já com a dilatação completa e com o colo do útero apagado, percebi que amanheceu quando a obstetra me disse que a Sementinha iria nascer junto ao sol. Tudo corria bem e ela nasceria de parto natural.

Porém, já no período expulsivo, após 7 horas de trabalho de parto, perceberam que seu coração começou a diminuir drasticamente o ritmo. Desse instante em diante, tudo desmoronou.


Nossa bebê ainda estava alta, então, corremos para realização da cesárea.

Nesse momento foi tudo muito difícil, pois eu sentia muita dor da contração, mas precisava ficar em condição desfavorável para ser levada à sala de cirurgia.


Tudo foi se complicando. Como era preciso fazer a cirurgia o mais rápido possível, não era viável esperar o efeito da anestesia, então, senti o corte e gritei, pedindo para parar. Dessa forma, o anestesista me convenceu a ser sedada. Assim aconteceu. Comigo adormecida e Diego, meu marido, completamente entregue a mim, Tarsila nasceu sem vida. A equipe médica conseguiu reanimá-la e a levaram imediatamente à UTI neonatal. Enquanto me recuperava da anestesia, meu marido foi até lá conhecer nossa filha. Voltou com uma foto. E assim eu a vi pela primeira vez.

Algumas horas depois, consegui descer para conhecer Tarsila. Ela era linda. Uma menininha grande, apesar da prematuridade, rosadinha e muitíssimo parecida com o papai. Ela parecia estar dormindo e parecia que a qualquer momento ia acordar e chorar, mesmo estando entubada. Naquele momento, eu fui tocada pela morte e pela vida.

Infelizmente, 17 horas após seu nascimento, Tarsila faleceu.


Ela foi vestida e enrolada numa manta e colocada em meu colo.


Na primeira vez que dei colo à minha filha ela estava sem vida. Nunca pudemos ver seu olhar, não pudemos ouvir seu choro, não pude amamentá-la, apesar do leite que insistia em sair e me obrigava a enfaixar violentamente meus seios.

Entretanto, ali naquela sala de UTI, enquanto ela estava no colo do seu pai, que afetuosamente se despedia, prometemos que iríamos sobreviver por ela.


No dia seguinte tive alta do hospital e, no outro, a enterramos. Ela estava linda. Com a roupa e a touca vermelha dadas pela minha mãe, que ela usaria para sair do hospital. Pude falar com Tarsila, dar beijos e dizer que a amaria por toda a minha vida.

Voltar para casa, ver o mini berço vazio no nosso quarto, ver o quarto dela todo pronto, foi muito difícil. É um espaço vazio completamente desolador.

Atualmente, muito se fala sobre puerpério, mas raramente se fala sobre o puerpério de quem perdeu seu bebê, onde cada noite, cada amanhecer, parece um pesadelo interminável. Onde cada possibilidade de vida precisa ser agarrada para não se esvair. Onde é preciso lutar para viver e redescobrir como a vida pode seguir.

Nada se assemelha a enterrar uma filha nessas condições, depois de vê-la entubada, sofrendo numa circunstância impensável. Nada é mais brutal que enfaixar os seios que insistem em vazar leite – leite que deveria alimentar minha filha – e tomar remédio para esse mesmo leite secar.

Hoje, quase 7 meses após o nascimento e a morte de Tarsila, sinto-me forte. Novamente, com vontade de viver, recomeçando e me reencontrando. Diego e eu nos fortalecemos no afeto construído em nossa relação, cuidamos um do outro com a entrega necessária e temos passado por isso juntos. Todos os dias pensamos e falamos sobre nossa filha com todo carinho.

O Dia das Mães está chegando e será um dia de dor e falta, mas também um dia para lembrar como Tarsila é uma revolução em nossas vidas. Como ela nos mostrou que nada é mais forte do que uma mãe e um pai que perdem seus filhos ou filhas. Que o amor é algo tão bonito, tão grandioso, que ultrapassa a própria ideia de vida e morte, transmuta sensações e ressignifica tudo ao redor de uma forma sublime e intensa.

Eu sou mãe da Tarsila, que viveu por 17 horas e fez caber ali toda uma vida. E isso é de uma beleza extrema.

Tarsila iluminou minha vida.

Tarsila, minha filha amada, que nossa vida seja sempre a continuação de tudo de mais lindo que você nos ensinou. Obrigada por tanto.

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