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Solidão exacerbada

Atualizado: Mai 5

Com isolamento social, o temido puerpério ficou mais intenso para as mães. Especialistas acedem o sinal de alerta e reforçam a importância da escuta ativa para elas.


Mulheres estão mais solitárias e tristes (Foto: Zach Lucero )

Por Luciane Evans

O parto já não foi como o esperado, a doula e os fotógrafos não puderam acompanhar o nascimento do seu filho. As visitas não puderam ir à maternidade e, tampouco, poderão ir até a sua casa. Não dá para sair, ir até a pracinha, tomar um ar. Não dá para contar sequer com a ajuda das avós ou de uma babá. É você, o seu bebê, o pai da criança (se houver) e uma presença constante: a do medo do novo coronavírus.

Conhecido por ser confuso, triste, solitário e, ao mesmo tempo, revelador, o temido puerpério ficou mais intenso desde que o isolamento social foi implantado no país como forma de prevenção à covid-19 . Por isso, as mulheres que estão vivendo esse momento do pós-parto são alvo de preocupação entre profissionais da saúde e psicólogos.

A rede de apoio, considerada fundamental para esse período, não está acontecendo. As mulheres estão sobrecarregadas com seus bebês, cuidam da casa, de outros filhos, algumas têm dificuldades na amamentação, outras não conseguem ir ao pediatra, e ainda há as notícias que assustam. E o tempo para cuidar de si, que já era escasso, praticamente inexiste.

O que profissionais estão percebendo é que essas mulheres estão ficando mais solitárias e sofrendo mais nesses dias de quarentena. É o que comenta a psicóloga clínica e hospitalar de Belo Horizonte, Renata Dualibi, que diz haver, com o confinamento, uma solidão exacerbada entre aquelas que acabaram de se tornar mães.

"Essa pandemia está afetando essas mulheres de várias formas. A rede de apoio não está da maneira como deveria ser. Muitas puérperas não podem contar com a mãe nem com a sogra, que são grupo de risco para covid -19”, destaca Renata Dualibi.

Aquela saidinha pela manhã para o bebê tomar sol e a mãe aproveitar para também arejar a cabeça está limitada. "Ela não pode sair de casa, não pode encontrar com outra puérpera para conversar num parque, numa praça."

Outra situação que também contribui para um puerpério mais intenso, conforme lembra Renata, é a dificuldade de conseguir, por exemplo, uma consulta de rotina com o pediatra do bebê. "Muitos não estão atendendo esse tipo de consulta e, às vezes, têm feito atendimento só por WhatsApp. A puérpera pode ficar perdida sem saber como conduzir algo com o recém-nascido."


"Um puerpério dentro de outro puerpério"


A chegada de um bebê traz transformações muito profundas e intensas. Para muitas mulheres, é algo que muda tanto a sua vida que ela se diz perdida de si mesma.


"A mãe perde as referências que tinha para se dizer e se reconhecer, perde lugares no mundo, tem que se voltar para dentro (da casa e de si) para traduzir as necessidades do recém-nascido. Ela também fica ambivalente entre viver a fusão emocional mãe-bebê e viver a vida lá fora. Além de viver a angústia da indeterminação do puerpério, porque ela não sabe quando essa experiência desafiadora vai terminar", comenta Camila Ramos, psicóloga especialista em Saúde Mental, com formação em Psicologia do Puerpério e criadora do projeto "Um colo para mãe”.


Com o novo coronavírus, há um momento emocionalmente desafiador que abala os pilares da saúde mental, exigindo de cada um o "voltar para dentro". Esse processo, segundo destaca Camila, é justamente o que a mulher já vive no puerpério. "A puérpera acaba vivendo o combo caos do puerpério mais caos da pandemia. O que eleva as angústias e incertezas, comuns dessa fase, à décima potência. É um puerpério dentro de outro puerpério", define Camila.


Aumento do baby blues

Muitas mulheres, logo depois de terem bebê, choram e sentem uma tristeza profunda, algo até muito difícil de se explicar para quem nunca passou. As lágrimas que teimam em cair não significam uma depressão pós-parto e pode ser o tal chamado baby blues, que geralmente acontece nos primeiros dias depois do parto.

É comum que dure poucas semanas, com uma rede de apoio, paciência, compreensão e reajustes na rotina, a mulher vai se sentindo melhor e deixando essa melancolia para trás. Mas, diante do isolamento social, esse amparo não tem ocorrido da forma esperada.

"O que temos visto é um aumento do baby blues", avisa Renata, para quem os efeitos da pandemia vão começar daqui a pouco. Ela explica que ainda é cedo para mensurar se houve, com o confinamento, um aumento nos casos de depressão pós-parto cuja causa é multifatorial.

"Pode ser que a mulher tenha tido depressão antes ou durante a gravidez, ou que tenha havido algo traumático no parto. São vários os fatores que podem desencadear a depressão pós-parto", diz Renata, sem descartar a hipótese de um risco maior por causa da solidão e do desamparo causados pelo isolamento.

“há um sentimento de solidão muito grande”

Pelos planos da educadora física Pérola Tavares, os primeiros meses de vida da Teresa seriam o momento ideal para estabelecer uma rotina com a filha. As duas sairiam para ir a pracinha, tomariam sol e contariam com a ajuda de tias e avós. Mas veio coronavírus e, com ele, o isolamento social, obrigando Pérola e muitas puérperas a mudar os planos.

Para Pérola Tavares, pandemia intensifica puerpério

"Inicialmente, achei que o isolamento seria bom, já que não queria receber visitas. Mas, com o passar dos dias, comecei a me sentir muito sozinha. Meu marido voltou a trabalhar e fiquei sem apoio durante o dia. Somos eu e a Teresa", conta Pérola.

Ela garante que a Covid-19 está intensificando os sentimentos do seu puerpério. "Antes de acontecer o isolamento e com a Teresa com poucas semanas de vida, eu conseguia deixá-la com a minha sogra, ir ao salão, fazer as minhas unhas. Agora, estou isolada, sem essa ajuda e com um sentimento de solidão muito grande, um sentimento de insegurança e a sensação de que isso nunca vai acabar", relata.

Pérola confessa ter chorado mais e ficado mais sensível. "Como eu presenciei o início do meu puerpério sem o confinamento e, agora, estamos totalmente isolados, posso dizer que eu estava mais segura e muito mais feliz no início."

A fisioterapeuta Renata Dias também se sente assim. Seu filho Francisco nasceu em meados de abril, quando o país já estava em isolamento social. "Não achei que ficaria tão sozinha e tão triste. Embora esteja feliz com o meu primeiro filho, queria que fosse diferente. Queria ter a minha mãe e minha irmã ao meu lado, mas elas ainda não o conhecem pessoalmente."


"É tudo tão triste  que não consigo ficar feliz com o nascimento do meu filho", desabafa Renata Dias.

Para quem consegue manter um pouco da rede de apoio, o puerpério está mais leve. A manicure e secretária Cássia Brito diz que tinha planejado viver os dias de pós-parto rodeada de amigos e familiares, mas, com a pandemia, isso não foi possível. "Não estou totalmente isolada. Minha mãe mora perto de mim e também vou à casa da minha sogra. Estou me sentindo bem e muito feliz", afirma Cássia.


Quando pedir ajuda

No começo de abril, o Ministério da Saúde incluiu gestantes e puérperas no grupo de risco para o coronavírus. Com isso, foi reconhecido que elas têm mais chances de que a doença evolua para quadros mais graves. Segundo o órgão, todas as grávidas ou mulheres que deram à luz estão mais suscetíveis aos efeitos da covid-19 por até 45 dias após o parto. Antes eram consideradas grupo de risco apenas gestantes de alto risco.

A decisão veio depois de o país registrar mortes de mulheres puérperas com o vírus, embora ainda não haja estudos conclusivos que comprovem um perigo maior da covid-19 para elas.


A psicóloga Renata Dualibi avisa que é preciso que as puérperas tenham todo o apoio possível neste momento. "É preciso abrir canais de comunicação com elas. Fazer grupos de apoio, sensibilizar os profissionais de saúde de que elas estão precisando de mais atenção e sensibilizar os parceiros", alerta.

Ela reforça ser preciso um olhar para mãe e não só para o bebê. "Mais escutas para elas." Renata criou um grupo virtual para dar esse suporte a mães interessadas e conta que tem sido uma experiência interessante, porque elas estão desabafando sobre suas rotinas e sentimentos.

A especialista aconselha procurar ajuda quando os sintomas de solidão estiverem mais aguçados. "Quando essa mulher sentir uma dificuldade maior de cuidar do bebê, se sentir mais desamparada, mais acuada, sem a participação do parceiro (a) e e se sentir desesperada é hora de procurar ajuda." Renata reconhece ser comum a falta de controle no puerpério, mas quando isso for mais intenso deve-se acender o sinal de alerta.

Embora saiba da importância dos cuidados com a puérpera independemente da pandemia, ela destaca que nem sempre esses cuidados da saúde mental da mulher é viável do ponto de vista financeiro. "O tempo delas é mais restrito. Elas se olham muito pouco e estão mais voltadas para o bebê. Temos que estar atentas para que elas não se percam e não se olhem."

Parceiros (as) serão a rede de apoio


Se antes, parceiros(as) tinham como missão principal guarnecer a díade mãe-bebê com compreensão e afeto, e fazer uma certa proteção contra as invasões ambientais, agora, além disso, especialistas defendem uma participação mais ativa.


"O ideal seria que se ocupassem também de pensar na organização mais concreta da casa para que a mulher possa se liberar um pouco dessas preocupações e ficar mais disponível para o bebê. Já para as puérperas com bebês maiores, essa pode ser uma oportunidade do casal se descobrir como rede", diz Camila.


Infelizmente, por conta do machismo tão entranhado nas relações, ela reconhece que a carga é maior para as mulheres com os cuidados da cria e da casa. "Mas desconstrução é labuta diária, e quem sabe esse momento possa sensibilizar toda a família para que façam arranjos mais igualitários?", sugere Camila.

Amigos e parentes podem ajudar nesse processo seja por vídeo, ligações ou mensagens. Sem contar que essas mulheres não devem ser abandonadas pelo obstetra, pediatra, enfermeira obstetra, doula, psicóloga ou alguém da equipe perinatal.

"O parceiro (a) tem que estar disposto a dividir tarefas, a dar colo, a não olhar só para o bebê e olhar para essa mulher", defende Renata Dualibi. Mais do que nunca, os pais precisam assumir seus papéis na criação dos filhos, valendo-se de suas licenças-paternidades e antecipação de férias para dividirem as tarefas de maneira justa, cuidando dos afazeres domésticos, do bebê e, claro, da mãe.

Renata aconselha a escuta ativa como a melhor forma de auxílio. "Os amigos podem fazer vídeos chamadas, ligar, mandar mensagens e tirar a puérpera do ciclo vicioso de cuidar do bebê."

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