• Cria Para o Mundo

Ser mãe no meio científico é resistência

Dissertação de mestrado da UFMG analisou projeto que discute a maternidade na ciência. Há avanços, mas mulheres ainda sofrem desvantagens com a chegada dos filhos


Por Luciane Evans

Há um ano, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) anunciou que incluiria o período da licença-maternidade na plataforma do Currículo Lattes, já que é comum a queda na produtividade das cientistas com a chegada de um filho. Como forma de justificar a queda no desempenho, a inserção da informação no Lattes poderia evitar que o currículo delas se tornasse, então, menos competitivo.

Mas o CNPq não cumpriu com o prometido. A mudança ficou na promessa e é vista como um balde de água fria para aquelas que travam uma árdua batalha pela igualdade de gênero na ciência.

"Assumir a maternidade ou mesmo a paternidade permanece como algo mal acolhido ou, no mínimo, mal resolvido junto à comunidade acadêmica científica", observa a jornalista Alessandra Ribeiro, que acompanhou de perto esse movimento no país.

No dia 30 de abril, Alessandra defendeu sua dissertação de mestrado: "Maternidade no currículo Lattes: textualidades sobre gênero, carreira acadêmica e científica no Brasil, e a emergência do projeto Parent in Science". E se tornou mestra em Comunicação Social, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tendo como linha de pesquisa Textualidade Midiáticas.

A dissertação teve como objeto de estudo o projeto Parent In Science, criado no Rio Grande do Sul, em 2017, para levantar a discussão sobre a maternidade e paternidade dentro do universo da ciência do Brasil. E uma das bandeiras lideradas pelo projeto foi a licença-maternidade no Currículo Lattes.

A ideia do movimento, que ganhou forte adesão nas redes sociais em 2018, foi justamente chamar atenção para o período de queda na produtividade científica com a chegada de um bebê, seja por via natural ou adotiva.

Pelo fato de ser mãe e pesquisadora, o tema chamou atenção de Alessandra, justamente quando ganhava repercussão nacional. "Estudei um movimento que estava acontecendo", frisa. Alessandra se propôs a fazer um retrato do projeto e a analisar quais os fatores contribuíram para a emergência da discussão maternidade e carreira científica.

Com a ascensão do movimento pela maternidade no Lattes, o Parent In Science foi signatário de uma carta assinada por cerca de 30 entidades e associações científicas e entregue ao CNPq, em julho de 2018. "Em março de 2019, o CNPq anunciou que incluiria a licença-maternidade no Lattes, mas com a ressalva de que não seria uma informação pública e estaria visível para o próprio pesquisador e agências de fomento. Ou seja, o tema permanece como tabu", critica a pesquisadora.


Ela terminou sua a dissertação tendo o compromisso do CNPq ainda como uma promessa, já que até o momento, apesar de toda pressão, nada foi feito. O Cria Para o Mundo procurou o CNPq para um posicionamento sobre o assunto, mas não obteve resposta.


Um espaço moldado para as necessidades masculinas


A promessa não cumprida pelo CNPq é apenas a ponta do iceberg da desigualdade de gênero na ciência, sobretudo depois da chegada dos filhos para as mulheres cientistas.


Segundo dados deste ano, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) , as mulheres são a maioria (57%) entre estudantes de graduação e na pós-graduação (53%), mas ao ingressar na carreira de docência do ensino superior passam a ser 45,9%.

Alessandra Ribeiro (Foto:Arthur Bugre)

"Esses dados demonstram que a participação feminina diminui à medida que se avança na carreira acadêmica científica. O efeito 'tesoura' é atribuído não só à maternidade, pois há outros fatores que impedem as mulheres de ocupar cargo de gestão na carreira científica. São lugares tradicionalmente ocupados por homens, e a tendência, por exemplo, na academia brasileira de ciência, é que sejam indicados outros homens para ocupar essas cadeiras, em que as mulheres são minoria. A maternidade é um dos fatores que atrapalha a progressão na carreira acadêmica científica, mas não é o único", assegura Alessandra.


Mas falar sobre isso no meio científico permaneceu por muitos anos como tabu. E, por mais que haja uma discussão maior sobre o assunto, o imaginário coletivo sobre a ciência ainda é homem em laboratório.

"Nas primeiras décadas do século 21, o feminismo vive um movimento particularmente intenso. As questões de gênero começam a aparecer em vários lugares, o que se permite falar mais sobre elas. A discussão deixa de ser um tabu na ciência, que é um espaço moldado segundo as necessidades masculinas”, analisa a pesquisadora, ao se aprofundar nos fatores que fizeram a discussão ciência e maternidade emergir nos últimos anos.

Alessandra cita, inclusive, o livro O feminismo mudou a ciência? , da historiadora e professora da Pennsylvania State University, Londa Schiebinger. "A autora mostra como o ambiente cientifico foi projetado para a necessidade dos homens, pensando para os homens que têm em casa uma mulher para cuidar dos filhos dele. Para os homens, ter filhos e construir carreira científica nunca foi problema."

Exemplo disso são as viagens longas, das quais muitas cientistas mães acabam desistindo. "Viajar sem filhos, por períodos prolongados de um ou dois anos, nunca foi problema para o homem. A mulher, quando tem que fazer essa mobilidade, ela tem que analisar bem se terá suporte. Ela não recebe uma bolsa para que possa levar o filho com ela, por exemplo. São questões que aparecem para elas e não para eles na carreira científica."



"Se não fosse minha rede de apoio, teria desistido da carreira científica"


É o que assegura a bióloga e pós-doutora em genética no Departamento de Biologia da UFMG, Angélica Thomaz. Pesquisadora premiada e mãe de dois filhos, Angélica reconhece o preconceito no meio científico com as mulheres mães, conta que varou madrugadas, não se entregou ao cansaço e, se não fosse o suporte da sua família, teria desistido da carreira científica já na primeira filha, que nasceu em 2016.


"Conciliar a vida acadêmica e a maternidade não foi e nem está sendo fácil. No inicio achei que não fosse realmente dar conta e tinha pensado até em desistir da carreira. Mas percebi que a minha rede de apoio ( marido, mãe e sogra) era extremamente importante pois estava presente e me apoiando", revela. 


Ela conta que, quando viajava para congressos, a sua mãe abriu mão das próprias tarefas para cuidar dos netos. "Isso foi fundamental para mim, pois meu marido também é cientista e viajava a trabalho comigo. Falar da importância paterna nesse processo também é importante, pois ter o meu marido exercendo o papel real de pai é o que me fez ver o quanto é essencial a luta pelos direitos iguais na criação dos filhos."


Angélica aproveita ao máximo o tempo com filhos

Angélica conta que a sua produção científica ficou prejudicada depois da maternidade. "É a dedicação para a amamentação, o trabalho mental invisível de estar sempre pensando nos cuidados e preocupações diárias com a rotina dos filhos. Minha produção científica caiu muito. Além da questão fisiológica de após duas gestações não conseguir me concentrar direito ( memória e raciocínio ficam afetados), a maternidade é vista com preconceito nesse meio, especialmente no Brasil", critica.

Isso porque, segundo ela, ao ser mãe, a mulher cientista passa a ser vista como alguém que não quer trabalhar. "Isso é horrível pois te faz sentir completamente abandonada e desencorajada, especialmente para mim, que ainda estou no início de carreira." Ela se orgulha de não ter desistido, e não ter se entregado ao cansaço.


"É claro que também perdi e comecei a aceitar as minhas limitações. Perdi porque sempre acho que estou, ao me dedicar à minha carreira, abrindo mão do tempo com os meus filhos. Mas o que me conforta é saber que, no tempo em que estou com eles, tento fazer ser aproveitado da melhor maneira possível e ainda tento acreditar que um dia eles irão reconhecer os meus esforços."


Em 2018, quando nasceu seu segundo filho, Angélica recebeu o prêmio "Para mulheres na ciência 2018" promovido pela Loreal-Unesco-ABC. "Minha primeira filha tinha 2 anos. Achei que fosse pirar. Mas esse prêmio foi um baita reconhecimento e foi o que me impulsionou a não querer desistir", orgulha-se.


Angélica informa no seu Currículo Lattes o período das suas licenças-maternidade. " É estranho quando você vê uma queda na produtividade de uma pesquisadora que sempre teve uma boa produção. Se você tem essa informação e consegue atribuir essa alteração ao fato de a pesquisadora estar de licença, é ótimo. Não sei nem enumerar quantas vezes não consegui cumprir deadlines, quantos compromissos e experimentos cancelados por estar com filho doente."

Para a pesquisadora, a promessa não cumprida do CNPq prova o descaso com as mulheres. "O governo não está nem aí para a ciência, muito menos para as mulheres cientistas, sobretudo as mães."

A jornalista e pesquisadora Alessandra Ribeiro também sentiu o peso da maternidade na ciência. Nos últimos dois anos, ela não tirou férias e tampouco curtiu finais de semana. Varou madrugadas, e equilibrou trabalho, mestrado e cuidados com o filho Kenzo, de 7 anos. Ela aproveitava os finais de semana em que o menino estava com o pai para se debruçar nos estudos. Perdeu as contas de quantas vezes estudou enquanto o filho dormia.

E teve que terminar a dissertação de mestrado durante o início do isolamento social, quando Kenzo não tinha escola. Ela reconhece que para "dar conta", a rede de apoio, avós paterna e materna, foi fundamental.


Conquistas nos editais


Embora haja uma longa caminhada pela frente, a quebra de tabu das mulheres sobre esse assunto tem dado resultado. Um deles é a maternidade aparecer nos editais de financiamento e de bolsas. Alessandra destaca que a primeira instituição que divulgou um edital para dar condições especiais para as pessoas que tiraram licença-maternidade foi a Universidade Federal Fluminense (UFF), em 2019.


O mecanismo inédito da UFF teve como intuito equilibrar a concorrência de homens e mulheres na disputa por bolsas de iniciação científica. As professoras que tiveram filhos nos últimos dois anos tiveram um acréscimo de cinco pontos — caso não tivessem a pontuação máxima — para compensar o tempo de licença-maternidade que foi sem produção acadêmica, um dos critérios para a escolha dos bolsistas.


"Isso foi resultado do engajamento do Parent In Science. Depois disso, vários editais começaram a ser publicados estendendo o período de avaliação da produção científica das pesquisadoras, alguns para homens que tiveram filhos ou adotado. Isso me pareceu bem mais efetivo do que a simples inserção da licença-maternidade no Currículo Lattes", avalia.


Mas para que essas mudanças ocorressem e o Parent In Science ganhasse projeção, Alessandra destaca uma série de fatores anteriores. Um deles é a lei Lei 13.536/2017, que permitiu a estudantes bolsistas de pesquisa o direito a afastamento por maternidade ou adoção por 120 dias, sem suspensão da bolsa.

Até então algumas fundações, como a Capes, concediam esse afastamento das atividades sem perda da bolsa, mas legalmente o direito só passou a valer em 2017.


#maesnaciencia #mulheresnaciencia #ufmg #mestrado #maternidadereal #parentscience #maternidadenolattes