• Cria Para o Mundo

"Ser mãe é ambiente fértil de violência no Brasil"

Conhecida nas redes sociais como A Mãe Solo, Thaiz Leão fala e desenha sobre a maternidade e a vida de quem carrega sozinha toda a carga da criação de um filho


Por Nathalia Ilovatte


Crítica, sarcástica, reflexiva e dona de um humor inteligente e questionador, a designer Thaiz Leão se tornou mãe sem planejar, e virou mãe solo, com toda a bagagem que o posto traz, sem querer.


Mãe de um menino de 7 anos, ela reuniu o talento como designer às vivências cotidianas, e transformou as próprias dores, desejos e questionamentos em matéria-prima para a arte. Thaiz é a mulher por trás das divertidas, acolhedoras e, por vezes, angustiantes - mas profundamente verdadeiras - tirinhas do perfil @a_maesolo. Nele, a designer consegue arrancar sorrisos de um público de mais de 40 mil pessoas, composto predominantemente por mulheres.


O sucesso é tamanho que a vida da designer já virou livro. Em O Exército de Uma Mulher Só, Thaiz conta tudo o que enfrentou - e que muita mãe solo enfrenta - ao descobrir a gravidez: o “aborto” do pai, os julgamentos e comentários como “só gente burra engravida sem querer”, e como encarou e resistiu a tudo isso de cabeça erguida.


Thaiz deu entrevista ao Cria Para o Mundo no início do mês passado, para marcar o Mês da Mulher. No entanto, ao longo do mês de março a realidade de todas nós mudou drasticamente, em virtude de uma pandemia e um necessário isolamento. E esse novo contexto tornou as falas de Thaiz ainda mais importantes. Afinal, quando somos obrigadas a abrir mão da rede de apoio, quem mais sofre é a mãe solo. Como ela dá conta de trabalhar em casa e cuidar da criança, ou das crianças? Como e quando ela descansa e cuida de si? Como ela banca a casa se ficar sem fonte de renda e for a única provedora? Se uma mulher que é mãe solo for infectada, como vai se isolar completamente?


Todas essas questões evidenciam a urgência em encontrarmos maneiras de ser rede de apoio e em pensarmos em políticas públicas que tornem a realidade brasileira menos violenta com as mulheres mães, em especial as que são solo, negras, periféricas e de baixa renda.


Preocupada com esse cenário, Thaiz tomou a iniciativa de buscar e criar saídas para viabilizar a oferta às mães solo do apoio que necessitam nesse momento de pandemia. Em uma parceria do Instituto Casa Mãe, fundado por ela, com o Coletivo Massa, criou o projeto Segura a Curva das Mães, que localiza mulheres em situação de vulnerabilidade causada ou agravada pela pandemia do novo coronavírus e oferece apoio emergencial. Para dar conta da demanda, criou uma vaquinha virtual que já arrecadou R$ 7 mil do R$ 115 mil necessários.


Com o Cria Para o Mundo, Thaiz bateu um papo que pode inspirar muita gente a apoiar uma mãe nesse momento. A designer falou sobre as violências sofridas pela mulher que é mãe solo, a importância da rede de apoio, e o que vai priorizar na escolha das candidatas, na próxima eleição, para fazer valer seu voto.


Reprodução Instagram/@a_maesolo

Como se conectar com a mulher que existe além ou por trás da mãe, sendo mãe solo?

Thaiz Leão: Para com nós mesmas ou com as outras: com atenção, vigília, compaixão, perspectiva e redes de apoio. Atenção a tudo que nos atravessa na vida e seus ganhos ou prejuízos. Vigília sobre tudo que é dor e prazer. Compaixão com nossas limitações e impossibilidades (de dentro e fora). Perspectiva sobre o que é luta e tempo e o que brilha lá no fundo como objetivo (e que não seja, ou seja menos e menos, sobre cada uma por conta e pra sempre segurar o tranco). E redes de apoio, porque dignidade, autonomia e bem-viver é uma afirmação só garantida no coletivo.


O Brasil tem 11,6 milhões de famílias chefiadas por mães solo, e 5,5 milhões de brasileiros não têm sequer o nome do pai na certidão de nascimento. Quais são as causas dessa realidade e o que nós, mulheres, podemos fazer para que esse cenário mude para melhor?

Thaiz Leão: A causa é a construção cultural da absoluta responsabilidade da mãe em contraposição à relativa responsabilidade do pai, e ainda, outros recortes que vêm da violência contra as mulheres, que ainda se somam às violências institucionais, étnico-raciais, culturais, políticas, econômicas, e outras.


Para mudar esse cenário para melhor, acredito que nós todos devemos dar peso à qualidade de vida da mulher, da mulher que é mãe e dos cidadãos filhos. E fazer isso sem basear o acesso a serviços, a trabalho e a garantia de dignidade na dependência ou derivação da expectativa de uma família que se enquadre no binômio relação romântica - relação parental.


P.S. Chefiadas, não. Família monoparental com mãe como lastro é MEI, micro-empreendedora-individual. Na sua maioria não tem nem sequer lugar de mando, porque de novo: dignidade, autonomia e bem-viver é uma afirmação só garantida no coletivo.

Reprodução Instagram/@a_maesolo

Quais são as dores e as dificuldades que uma mãe solo vivência no cotidiano e que são pouco compreendidas, pouco faladas e até silenciadas socialmente?

Thaiz Leão: Acredito que a maior violência é a da total responsabilidade pelo bem-estar e bem-viver da criança. Enquanto que a sociedade continua constante em sua retirada de corpo, se valendo do argumento de que o problema é sempre um algo no privado que falta, ou seja, um algo dentro de casa ou na família ou, constantemente, na mulher que falta. Deixando o trabalho de pelo menos uns milhares continuar sendo investido por apenas uma.


Como quem não é mãe solo pode ajudar, acolher e tornar a rotina de uma mãe solo menos pesada?

Thaiz Leão: Sendo rede. Sendo presente na vida da mãe e criança, contribuindo com a rotina, as tarefas ou os custos materiais.


Você acha que os retrocessos políticos que o país têm vivido fazem (ou podem fazer) com que a maneira como a mulher que é mãe o solo é tratada pela sociedade também retroceda, no que diz respeito a preconceitos e discriminação?

Thaiz Leão: Se a gente revalida a narrativa de que a vida de uma “mulher de verdade” tem a ver com encontrar um cara, e casar com esse cara e fazer filhos com esse cara, a gente volta a invalidar a vida de milhões de mulheres. Nenhum direito fica a salvo quando limitamos a dignidade de toda mulher e criança a um casamento.


Você é fundadora do Instituto Casa Mãe. Como é o trabalho desenvolvido pelo projeto?

Thaiz Leão: O Instituto trabalha para garantir o bem-viver das mães e crianças (cultural, econômico, psicológico, emocional, social, etc). Infelizmente ainda não temos financiamento o suficiente para poder pensar a Casa como também um espaço físico permanente e lugar de referência para o acolhimento integral de mães e crianças.


Hoje, nós abraçamos o que nossa potência (e ‘hipo-tências’) comportam: dar visibilidade e urgência às condições de violência vividas por mães e crianças; buscar o financiamento necessário para que possamos fazer efetivamente mais; articular projetos com o que temos em territórios/equipamentos pelo Brasil; formar mais mulheres para se tornarem parte das redes de apoio comunitárias também como fonte de inteligência social para desenvolvimento de estratégias de saída (e de permanência fora) das situações de violências doméstica, social, institucional, ambiental vividas por mães e crianças; monitorar as propostas e projetos políticos sobre nossos temas e realizar um constante mapeamento e colheita das experiências e demandas dos territórios, mulheres e crianças a quem temos acesso.

Reprodução Instagram/@a_maesolo

Você sente que o feminismo hoje tem abraçado as questões referentes à maternidade? Por que?

Thaiz Leão: Todo dia um pouco mais. Mas só porque nós, mães, lutamos para que nossa pauta não tenha um puxadinho, mas sim que faça parte de toda a discussão.


Reprodução Instagram/@a_maesolo

A sociedade patriarcal confina a mulher mãe nos espaços privados. Nesse contexto, a internet é uma mão na roda porque nos possibilita trocar ideias, desenvolver projetos, acolher outras mulheres, sem sair desse espaço privado. Mas isso basta? Qual é a importância de ocuparmos espaços públicos reivindicando nossos direitos, e de que maneiras podemos fazê-lo levando em conta as barreiras que a maternidade, em especial a maternidade solo, nos impõe?

Thaiz Leão: Primeiro, acho importante pontuar, todas as experiências de maternidade com privação, violência e unilateralização de responsabilidade e cuidado é solo. Ser mãe é ambiente fértil de violência no Brasil.


Pode ser a violência que te prende num vínculo afetivo vazio, ou a sociedade que valida e naturaliza a ausência dos homens no cuidado, pode ser a violência contra uma criança com deficiência que tem instituída socialmente apenas a mãe como cuidadora capaz, pode ser a mãe que perde sua dignidade por estar solteira. As violências não são binárias, são várias.


Lugar de mãe é todo lugar social. Nas redes ou ruas.

Thaiz Leão: Eu não conheço melhor jeito de juntar mãe do que escutando, acolhendo e somando. Escutar as demandas, os quereres, as ausências e oportunidades. Acolher na realidade todas essas dimensões. Somar para suavizar e tirar dor, nunca subtrair.


Estamos em ano de eleições e de novo volta a discussão sobre as cotas para mulheres nos partidos políticos. Mas a gente sabe que ter mulheres vereadoras, ou ter uma mulher na prefeitura, não é necessariamente sinônimo de representatividade para a maioria de nós. Para você, o que é prioridade na hora de escolher candidatas para votar? Quais são os pontos principais que hoje os projetos políticos dessas candidatas precisam abordar para que sejam, de fato, para as mulheres, e em especial para as mulheres mães?

Thaiz Leão: Minha ordem de prioridade é ser mãe; ser preta, indígena ou trans; saber que a experiência de maternidade e infância que a maioria de nós vive precisa de muito trabalho pra começar a pelo menos ficar ok; ter rede e estar nas ruas e, por fim, priorizar o trabalho de acordo com a vulnerabilidade da população.


Pra mim, o trabalho importante para esses próximos anos é incidir contra o genocídio negro e indígena, o feminicídio e a LGBTQfobia; defender os direitos adquiridos a todo custo, porque eles estão sob ataque; garantir a toda mãe e criança e jovem lugar, direito e dignidade; combater a política de interesse e centralização de bens e poder.