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“Se fizer sentido para você, não deixe de ir”

Ane Vaz é mãe de duas meninas, uma de 5 anos, e uma de poucos meses. Ela, o marido e as filhas vivem em Nova York, Estados Unidos

Foto: Arquivo Pessoal

"Eu e meu marido estamos juntos há 22 anos, e desde sempre existia a vontade de sair de Brasil. Quando nossa primeira filha nasceu, em 2014, começamos a conversar mais seriamente sobre isso e a pensar como essa mudança poderia ser estruturada.


Começamos a buscar oportunidades e ele recebeu uma proposta de trabalho. Então, no começo de janeiro de 2018, ele veio para Nova York. No final do mesmo mês eu e minha filha chegamos. Ela tinha 3 anos, estava prestes a completar 4.


A mudança foi delicada. Embora para nós fosse uma decisão muito sólida e que fazia muito sentido na nossa cabeça, foi difícil lidar com a falta que ela começou a sentir da família. Nós trouxemos só algumas roupas, e principalmente brinquedos e livros com os quais ela tinha uma ligação mais afetiva, com o intuito de minimizar essa transição, mas mesmo assim ela sentia muita saudade e falava muito da família.


Minha filha já tinha uma noção de inglês porque conversávamos muito com ela dentro de casa, mas não é a mesma coisa, até porque não somos nativos. Mesmo assim, isso deu uma dianteira para ela, e quando começou na escola, a professora me perguntou se ela vinha de escola bilíngue, porque já entendia uns 60% do que eles falavam. Mesmo assim não foi fácil, porque ela era uma criança muito comunicativa no Brasil e passou um tempo muito angustiada, porque queria se expressar e não sabia. Mas pegou rápido o idioma e hoje fala fluentemente.

Foto: Arquivo Pessoal

Nessa fase eu também me sentia sozinha. Por um lado eu me sentia muito bem porque estávamos realizando algo que eu queria muito, e eu gosto muito daqui e não senti nenhuma dificuldade em relação ao lugar. Mas no Brasil tínhamo muitos amigos, e a cada fim de semana tinha um amigo em casa. Aqui levamos um tempo até conhecer pessoas e fazer amizades. Embora eu e meu marido sejamos bastante comunicativos, o americano tem uma dinâmica diferente da nossa nesse sentido.


Em outubro do mesmo ano eu engravidei, e aí foi mais difícil porque não tinha amigas me visitando, não tive chá de bebê… Essa conexão foi um pouco difícil. Eu fiz um trabalho muito intenso para me adaptar, com terapia e usando as minhas ferramentas para fazer um trabalho comigo nesse sentido.


Uma coisa que me ajudou muito foi que nessa época comecei a interagir com muitas pessoas pelo Instagram, e assim consegui me conectar com muita gente.

Minha filha também está super adaptada hoje, tem muitos amigos americanos e amigos filhos de brasileiros, e interage super bem com eles.


Se eu puder, não volto a morar no Brasil. Gosto do Brasil, sinto falta da minha família e dos meus amigos, mas infelizmente o Brasil não é para mim uma opção, por motivos políticos, econômicos e de segurança.

Foto: Arquivo Pessoal

Aqui sinto que estou proporcionando uma qualidade de vida para as minhas filhas que aí eu não conseguiria, principalmente quanto à segurança. Eu morava no Rio de Janeiro, tinha que morar em apartamento, tomar mil cuidados, e a gente queria morar em uma casa, ter um jardim… Mas no Rio de Janeiro isso não era viável. Então esse é o primeiro ganho, sentir que minhas filhas andam tranquilas na rua e que eu estou tranquila com elas.


Além disso, aqui elas têm acesso a educação, a oportunidades de desenvolvimento tanto academicamente quanto profissionalmente, no futuro, que no Brasil a gente só teria com um investimento muito alto.


Sinto que a vida é bem mais feliz hoje. A gente sente saudade, minha filha mais velha sente saudade, a minha filha menos nasceu um pouco antes da pandemia então só conhece a minha mãe e a irmã da minha mãe, não viu nenhum outro parente pessoalmente. Isso é doloroso, mas ainda assim acho que foi a escolha certa e a cada dia tenho mais essa certeza.


Viver aqui também me proporcionou o Mães Expatriadas (@maesexpatriadas, no Instagram), que surgiu na minha vida quando eu estava nessa adaptação. Na época, quem tocava o projeto foi uma grande amiga que o criou, e depois ela abriu vagas para voluntárias que queriam ajudá-la nesse trabalho. Eu me candidatei e, com o tempo, ela me chamou para dar mentoria de negócios para ela. Fomos nos afinando cada vez mais e, depois, fiz um trabalho de sono com a pequena dela, que fez com que ela conseguisse se reorganizar profissionalmente. Hoje ela é uma mentora de negócios incrível, com foco no empreendedorismo feminino.


Por isso, ela me perguntou se eu não queria assumir o Mães Expatriadas de vez. Eu topei, e desde então gerencio, cuido, produzo conteúdo e faço toda a integração com outras mães. São mais de 13 mil mulheres, de mais de 30 países, trocando informações umas com as outras.


Meu principal conselho para quem deseja mudar de país é conversar com pessoas que já estão no país para onde você pretende ir, e entender como é a vida lá, se familiarizar, porque nem tudo são flores. Tem muitos desafios, e quanto mais você puder interagir com pessoas do lugar, melhor vai conhecer a realidade e saber se é isso que você quer.

O segundo passo eu acho que é entender como as pessoas daquele lugar viabilizaram essa mudança. Por exemplo, o Canadá possibilita que as pessoas vão para estudar e depois isso vira uma permissão para morar lá. É diferente dos Estados Unidos, e por isso muita gente tem mais facilidade de ir para lá. Então, tem que entender para onde você quer ir e estudar a melhor forma de fazê-lo, principalmente se conectando com pessoas que já foram.

Foto: Arquivo Pessoal

Entender a realidade do lugar também é essencial. Aqui nos Estados Unidos, por exemplo, não é como na Europa, e a saúde tem um custo. Você tem que vir sabendo disso, para não arranjar uma super dívida inesperada.


Fazer uma reserva também é importante é, se possível, buscar formas de já ir com um trabalho engatado, ou pelo menos sabendo como vai fazer para conseguir esse emprego, porque ir no susto é difícil.


Também recomendo entender se esse é um sonho para você. Porque às vezes a gente tem essa ideia de que precisa sair do Brasil, mas não considera que isso envolve abrir mão de algumas coisas. Lidar com adaptação de filho não é fácil, ver o filho triste, sentindo saudade, demorando para se adaptar na escola, também não é fácil. Então você tem que ter bem claro na mente por que essa mudança é importante para você, e se não é só uma projeção. Tem que entender o que é que não funciona no Brasil para você, e se funcionaria em outro lugar.


Se a gente romantiza essa mudança, geralmente se frustra. Conheço muita gente que veio para cá achando que essa era a resposta para a vida, e não era.


A família faz falta, reconstruir a rede de apoio demora, é complicado, a gente tem que lidar com uma sobrecarga muito grande. No Brasil, quem pode manter uma pessoa para limpar a casa ou uma babá, nem sempre consegue fazê-lo em outro país. Aqui paga-se um valor muito maior, um valor justo, porque são trabalhos importantíssimos, mas sei que nem todo mundo consegue arcar.


Para mim essa vida funciona, mas são mudanças que não funcionam para todo mundo. Então, recomendo ir com a noção clara do que é a realidade no país para onde você vai. Não adianta lidar com isso como sonho, tem que lidar como realidade.

Mas, se fizer sentido para você, e se for o seu sonho, não deixe de ir. Mesmo que eventualmente não dê certo, eu prefiro ir do que ficar a vida inteira pensando como seria se eu tivesse ido."


Ane Vaz é mãe de duas meninas, mora em Nova York, Estados Unidos, e é coach e educadora sistêmica do sono. Trabalha com bebês e crianças.