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"Se falar mal do SUS perto de mim, pode correr"

Depois de perder um filho de uma gravidez de gêmeos, Cristiane engravidou novamente 11 anos depois. Correu riscos, ficou 33 dias internada. Foi salva pelo SUS e seu bebê também.


Fotos: Arquivo Pessoal

Por Cris Moreira


Minha história com a maternidade começa em 2008, aos 23 anos. Descobri que estava

grávida com 15 semanas, depois de diversos testes negativos. Gestação gemelar. Dois

meninos: João e Francisco. Com 22 semanas, foi necessário fazer uma cerclagem, pois eu

já estava dilatando. Diagnóstico inconclusivo de IIC (Insuficiência Istmo Cervical).


Com 28 semanas entrei em trabalho de parto. Foi feita uma cesárea na Maternidade Hilda Brandão, da Santa Casa de Misericórdia, de Belo Horizonte, no dia 25 de junho, quarta-feira. Prematuros extremos, os dois foram direto para a UTI. O único que levaram para eu ver e encostaram o rosto dele no meu foi o Francisco. No dia 27 de junho, dois dias depois, Francisco não resistiu.


Saí da maternidade para enterrá-lo na sexta-feira à tarde. Voltei para a maternidade para ver como João estava na mesma sexta-feira à noite. Durante 79 dias, tempo em que João ficou naquela UTI, subi o elevador daquele prédio, até o 11º andar com medo de não encontrar meu filho vivo.


Todos os dias eu levava uma roupinha na bolsa, caso precisasse enterrá-lo também. Mas João é um sobrevivente, um menininho que passou por cinco infecções hospitalares, incluindo uma pneumonia, precisou de transfusão de sangue, mas lutou diariamente para sobreviver e saiu da UTI com quase 3 meses de vida. Este ano ele completa 12 anos.


Durante anos eu pensei que não teria mais filhos, mas a vida foi mudando e, em 2019,

decidi por ter.


Dessa vez pensei: "vou fazer tudo diferente. Acompanhar desde o início. Entender esse

diagnóstico. Não quero passar por isso de novo. Não quero um filho meu passando por

isso de novo. Não daria conta de ter outro prematuro, é muito sofrido para eles. Se der,

quero parto normal, quero uma gravidez normal".


Descobri que estava grávida no dia 07 de novembro de 2019, no dia 14 de novembro eu

perdi minha mãe. Vida e morte sempre caminham juntas, talvez para mostrar a

inconstância da vida, a contradição do que é estar vivo, e a beleza disso tudo, ao mesmo

tempo.


Procurei minha médica que me aconselhou a fazer cerclagem, assim como na primeira gravidez, só que dessa vez com 14 semanas - uma cerclagem preventiva. Como o diagnóstico não estava fechado, busquei outra opinião. E a segunda opinião foi ao encontro da primeira. Fiz a cerclagem por meio do meu plano de saúde, em um hospital privado.


Logo após o procedimento, perguntei a uma enfermeira se ali o índice de cesárea era grande, e ela disse: 'completamente! Aqui é quase tudo agendado.' Pensei: "acho que aqui eu não volto mais". Sou completamente a favor da realização de cesáreas, caso elas sejam

realmente necessárias. Mas não gostaria de ir para um hospital onde o procedimento

padrão é esse.


A ideia, minha e da minha médica, era levar a gravidez até, pelo menos, 37 semanas, data

da retirada da cerclagem. Só que a vida, né? Faz o que quer com a gente. No dia 6 de maio deste ano, com 30 semanas, comecei a ter contrações e pensei: "não, não é possível". Corri para a maternidade do Hospital Sofia Feldman (único hospital em que eu poderia confiar numa hora dessas), onde inibiram o trabalho de parto.


Para ter alta, precisava ficar em observação por 24 horas. Não voltei mais a ter contrações, eu e meu companheiro ficamos aliviados. Tudo certo, então? Não. Durante essas 24 horas, a minha pressão foi de 12/8 a 16/11. Pediram exame para ver se tinha proteína na urina. Resultado: pré eclampsia com critério de gravidade. Não me deixaram

mais voltar pra casa.


A partir daquele momento, a gravidez era um risco para mim e para minha criança. Fiquei internada do dia 6 até o dia 25 de maio, sendo monitorada e acompanhada por uma equipe maravilhosamente inacreditável. Mulheres incríveis cuidando de outras mulheres (alguns homens incríveis também, mas o número deles ali é infinitamente menor).

O Sofia tem um espaço que se chama Casa de Gestantes, onde mulheres com diagnósticos

graves podem ficar até o parto. A única parte extremamente difícil nessa internação foi

viver um confinamento dentro de um confinamento, por causa do novo coronavírus ( Covid-19).


Nessa casa, não podíamos ter acompanhantes nem visitas. São dias e dias de solidão, num dos momentos mais importantes da sua vida. E dos mais frágeis.


Na casa, além da pré-eclampsia, depois me diagnosticaram com Bolsa Rota (quando

a membrana amniótica se rompe sem que a mulher esteja em trabalho de parto). Isso fez com que o meu monitoramento fosse ainda mais cuidadoso. A ideia era que chegássemos

até as 34 semanas. Quando se tem pré-eclampsia com critério de gravidade, a gravidez

não passa disso, por causa do risco que representa principalmente para a mãe.


Depois comecei a ter, além de um sangramento vaginal, um sangramento na gengiva que

apontava algo. Fizeram diversos exames que não deram nada. Estava tudo certo com

plaquetas, hemoglobina, etc. Manoel, o neném, foi monitorado diariamente com cardio.

Tínhamos ultra-sons (US) semanais que, por volta de 32 semanas, passaram a ser de dois em dois dias, devido a uma alteração que tinha surgido.


No dia 25 de maio, com 33 semanas e 3 dias, o US dele apresentou uma alteração grave. Diástole Zero. Fui avisada de que precisaria fazer uma cesárea de emergência. Liguei para o meu marido, arrumei as minhas coisas e desci para o hospital.


Sem chance de parto natural, normal, nada de playlist do parto, plano de parto, nada de romantizado. Mas tudo muito humanizado. Fui cuidada o tempo todo. Pelo Bê, pelas enfermeiras, pelas técnicas de enfermagem, pela médicas. Durante o parto tive hemorragia, era talvez o que a gengiva, lá atrás, apontava que aconteceria. Mesmo com resultados normais dos exames, aquilo ali sempre me disse algo.

Durante a cirurgia, o Bê segurava minha mão enquanto a equipe salvava minha vida. E a

outra equipe, a vida do Manoel.


Eu fiquei 19 dias internada até o parto, passando pela enfermaria do Sofia, pela

Unidade de Gestação de Alto Risco (UGAR) e a Casa das Gestantes. Manoel ficou 14 dias internado por causa da prematuridade. Nessa soma, passei 33 dias dentro daquele hospital. Num misto de agradecimento e desespero. De calma e loucura.


O meu relato não tem absolutamente nada de romântico. Ele serve para me mostrar, novamente, que não temos controle de nada. E que somos mais fortes do que pensamos. Sempre. E que o amor salva. Que meus amigos e amigas me salvavam diariamente. Elas e eles não fazem ideia. Cada mensagem era um afago. Cada mensagem me fez aguentar

mais um dia ali dentro.


Esse relato é um agradecimento. Ao meu companheiro e amor, às minhas amigas e

amigos, à equipe incrível daquele hospital, ao SUS (eu tenho plano de saúde e escolhi ir

para o Sofia. Se falar mal do SUS perto de mim, pode correr).


Eu agradeço por vocês. Agradeço por estar viva. Agradeço por ter meu filho comigo agora.

Viva a força das mulheres. De todas que lutam pela vida dos filhos dentro dos hospitais e

ninguém sabe da sua solidão e de suas histórias.


A solidão dentro de um hospital é das coisas mais difíceis e tristes que vivi. Entendi, mais uma vez, que a sociedade (isso inclui a forma como o hospital se organiza) adora as gestantes, adora os nenéns, mas não está preparada para lidar com as mães.


Depois que nossos filhos nascem, nos sentimos intrusas nas UTI’s e UCI’s. Mesmo sabendo que nossos filhos são tratados com amor, é difícil sentir que aqueles espaços quase que não nos cabem. Mas ainda assim insistimos e continuamos, por eles e por nós mesmas.


O que sei é que, mesmo com tantas dificuldades, saio com mais amor do que entrei nessa

história. Sei que a vida é agora e que o que importa está comigo aqui.


Ame. De verdade. Ame.


E aceite receber amor. Ele é fundamental para nos mantermos vivos. E estamos.