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"Samuel nasceu e viveu 35 minutos em meu colo"

Atualizado: 14 de Dez de 2019



Por Iaçanã Woyames


Em 2014, após muitas tentativas, consegui engravidar do meu primeiro filho. Era uma emoção sem tamanho, depois de quase dois anos de tentativas. Tudo estava indo muito bem, os primeiros ultrassons, os exames de rotina, até que chegou o grande dia de descobrir o sexo do meu bebê. E lá fomos nós: eu, meu marido e minha mãe. Quem disse que eu conseguiria dormir direito? Seria Samuel ou Yasmin?


Um grande silêncio inundou aquela sala. Foram os cinco minutos mais longos da minha vida. Eu olhava para a tela e só conseguia ver uma bola enorme. Meu coração estava acelerado e minha respiração começou a ficar ofegante, tinha alguma coisa errada com aquela imagem? Foi então que a médica, com muita sensibilidade, nos disse que meu bebê estava com uma mega bexiga, provavelmente, de uma malformação, uma obstrução no trato urinário.


Eu fiquei paralisada por alguns minutos. Será que eu estava ouvindo direito? O que era aquilo? Ninguém me preparou para aquela notícia. Eu estava preparada para saber sobre uma nova vida e não para lidar com a morte. Eu só queria saber se era menino ou menina.

Saber o sexo já não era mais importante. Inclusive, a bexiga do meu filho era tão grande que nem dava para saber. Foi um momento de muita dor e medo, mas, inicialmente, também foi de uma busca incessante por informações. Fui ler tudo que tinha sobre o assunto, procurei dois ou três médicos, até chegar na equipe de medicina fetal do Hospital das Clínicas e realizar um exame de urina no meu bebê. Com este exame era possível saber se algo poderia ser feito, inclusive, uma cirurgia intrauterina.


Fiz o exame e aguardei por alguns dias. Foi a espera mais dolorosa da minha vida. Eu

tinha muita esperança, acreditava que era só um pesadelo e que, quando o resultado ficasse pronto, tudo se resolveria. Mas novamente não foi como eu acreditei. Samuel era "incompatível" com a vida. Este é o termo que eu escutei depois desse exame, em cada consulta, em cada ultrassom... Ou seja, ele não tinha chances de sobreviver, os rins dele não funcionavam.


Primeiro foi um grande susto. Um filho amado e muito desejado que não iria viver. Tive que aprender a lidar com a vida e com a morte ao mesmo tempo. Um dia de cada vez, era meu mantra.

Meu filho era “incompatível” com a vida. Porém, ele estava vivo dentro de mim: eu ouvia seu coração batendo e, algumas vezes, o sentia mexer. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha que lidar com a morte, pois ele poderia morrer a qualquer momento na minha barriga ou logo depois do parto. Eu chorei muito, me perguntava o porquê de viver tudo aquilo e também sentia muita raiva.


Mas, todas as vezes em que chorava ou ficava triste, eu sentia que tinha um bebê vivo dentro de mim e isso me dava muita força. Então, eu tomei uma decisão. Eu prometi para mim mesma, junto ao meu marido, que ele viveria o tempo que fosse necessário. Eu cantava para ele, contava histórias e dizia: “Filho, você vai viver o tempo que quiser”. Recebemos muito apoio da nossa família e amigos. Inclusive, eles foram fundamentais. Sem eles eu não teria conseguido sozinha. Eles respeitaram minha decisão e me apoiaram.


No dia 9 de junho de 2015, no dia do aniversário do meu irmão, com 33 semanas de gestação, entrei em trabalho de parto. Samuel nasceu de parto normal e viveu 35 minutos em meu colo. Foram os minutos mais intensos da minha vida.


Eu o beijei, abracei, cheirei e disse tudo que minha emoção permitiu. Entre os dizeres, além de falar do meu amor, eu disse que a cura que eu queria tanto para ele, talvez, fosse para mim. Alguns minutos antes de ele morrer eu pedi para a médica levá-lo para a incubadora, para que minha mãe e minha avó o conhecessem. Eu tenho a certidão de nascimento do meu filho e também tenho da morte.

 

Viver tudo isso foi desafiador, difícil, extremamente dolorido, mas também foi uma experiência que me ensinou muito. Mudou a minha maneira de enxergar o mundo. Existe uma Iaçanã antes do Samuel, e, outra depois. Gosto de falar ainda que passei por três etapas durante essa fase. Primeiro eu não queria aceitar, eu neguei o que estava acontecendo. Fui a vários médicos para tentar ouvir opiniões diferentes. O que não aconteceu.


Depois eu passei a aceitar o que estava vivendo e a lidar melhor com os meus sentimentos. E, por fim, eu agradeci por tudo que vivi. Esta fase demorou quase um ano. Aconteceu depois que ele já tinha morrido. Mas para mim foi libertador quando eu consegui agradecer.


Confesso que nem eu sei de onde tiramos forças. Na verdade, no meio da guerra o soldado não tem a dimensão do que está vivendo, ele só sabe que tem que lutar. Mas é incrível como ficamos mais fortes em situações como essa.


O luto é um processo que se inicia com o momento da ausência e termina quando este ente é reencontrado internamente. E ele precisa ser vivido. É que, quando a gente para de querer fugir da dor, ela vai embora mais rápido. A gente se esquece de que não temos nenhum controle sobre a vida, sobre os acontecimentos e, principalmente, sobre as pessoas. A única certeza da vida é a incerteza.

Eu não amamentei o Samuel, não saí da maternidade com ele, nunca coloquei nenhuma

roupinha nele. Não dei banho. Não vi seu sorriso. Não fiz um monte de coisas... Mas sabe o que eu fiz e o que ficou? O amor. O amor é tudo que eu tenho desta história!!!


Sua partida foi marcada por grande dor, mas também por um amor absurdo que me transformou em uma pessoa muito melhor.  Eu aprendi a sonhar menos, planejar pouco e viver mais. Não existe conto de fadas, amor ideal e família perfeita. A vida de verdade é cheia de problemas, medos, mortes, angústias e frustrações... e o mais lindo dela é buscar alegria e amor mesmo assim.


Aprendi a entender melhor a dor do outro, a ter empatia e compaixão para com o

próximo, principalmente, nos momentos difíceis. Aprendi a ser mais forte e, ao mesmo tempo, ser fraca e frágil, e o melhor: sem me culpar por isso. Aprendi que não tenho controle. Aprendi a perceber que o que importa nesta vida é "invisível aos olhos".

E ainda estou aprendendo a ter fé, em sua mais pura concepção.


Hoje, quatro anos depois do nascimento e morte do meu filho, sou mãe de duas meninas: Sophia, de 3 anos, meu bebê arco-íris; e Yasmin, de 5 meses. Mas, se me perguntarem na rua quantos filhos eu tenho, digo: "Três, claro! Um mora longe dos seus olhos, mas perto dos meus, pois sua morada é dentro de mim".


E não tem um dia que eu não me lembre dele, que eu não imagine como seria se ele estivesse aqui. É uma cicatriz na alma que às vezes sangra.

Também sou uma estudiosa do luto e da comunicação não violenta. Há alguns meses estou

escrevendo um livro contando essa história e também realizando uma pesquisa sobre a linguagem do luto com outras mulheres que já perderam seus filhos. O título provisório é "Pare de dizer: - Meus sentimentos".


Além do projeto do livro, recebi um convite para falar no dia 22 de dezembro, entre outras coisas, sobre o luto. O que será que precisamos deixar morrer antes de iniciar um novo ano? Como é mudar a rota e ter que fazer novos planos quando o que você quer não foi como o planejado?

Quer compartilhar sua história? Envie pra gente pelo e-mail criaparaomundo@gmail.com