• Cria Para o Mundo

Um chamado para a transformação masculina



Por Luciane Evans


O documentário O Silêncio dos Homens, lançado em agosto, já alcançou mais de 500 mil visualizações no Youtube, e tem despertado rodas de conversas masculinas em todo o Brasil. Isso porque o filme, além de refletir sobre a realidade dos homens, é um chamado para que se façam encontros que permitam a abertura emocional deles.


O longa é fruto de uma pesquisa com mais de 40 mil pessoas e foi desenvolvido pelo portal Papo de Homem. Dados impressionantes sobre a realidade masculina são mostrados durante o documentário. Entre eles, o de que 6 em cada 10 dos entrevistados declaram lidar hoje com algum tipo de distúrbio emocional, como ansiedade e depressão.


Coordenador do projeto O Silêncio dos Homens, Ismael dos Anjos é um dos entrevistados do documentário dispostos a quebrar o silêncio. Mineiro, fotógrafo e pesquisador de masculinidades, Isamel fala com muita sinceridade sobre racismo e machismo no longa.


É dele a reflexão de que a partir do momento em que há uma mudança de comportamento, não tem como voltar atrás. Em entrevista ao Cria Para o Mundo, Ismael alerta que, nesse contexto em que o Brasil vive, rever as masculinidades que estão no poder é fundamental.


Ele garante que a paternidade é um dos principais gatilhos para a transformação masculina. E em relação aos homens negros, destaca que a criação de grupos com esse recorte de raça é essencial, pois “existir já é uma maneira de resistir .”



Cria Para o Mundo: O que tem impulsionado o movimento de homens contra a masculinidade tóxica no Brasil?


Ismael dos Anjos: Muitas coisas têm impulsionado o movimento de homens em torno das masculinidades no Brasil. Uma delas é a repercussão em torno da masculinidade tóxica. Esse termo foi eleito palavra do ano em 2018 pelo dicionário Oxford, muito por conta da organização dos movimentos feministas e da luta das mulheres. Assim, se tornou uma pauta necessária e inescapável para os homens.  Acredito que em um momento em que vivemos uma volta ao conservadorismo, num contexto de medo das mudanças, de combate às pautas e recortes identitários, rever as modalidades clássicas, rever as masculinidades que estão no poder é fundamental.


Os homens precisam olhar para dentro, olhar para si e olhar também para aqueles amigos e colegas que estão no seu entorno para a sociedade melhorar. Na pesquisa de O Silêncio dos Homens encontramos que 6 a cada 10 homens sofrem com questões relacionadas à saúde mental, mas só 1 a cada 10 já procurou um psicólogo. O enfrentamento de questões como essas move os homens a conversar, a romper a restrição emocional e a buscar em grupos ou outras formas de rever essas masculinidades e as dores que sentem e causam.



Cria Para o Mundo: Os homens negros passaram a criar seus próprios grupos. Qual a importância disso?


Ismael dos Anjos - A negritude se organiza de diferentes maneiras e em diferentes movimentos há muitos anos no Brasil. Mas a criação de grupos de homens com esse recorte de raça é essencial, pois existir já é uma maneira de resistir. Muitos de nós acreditam que a masculinidade tóxica, por exemplo, não diz respeito aos homens negros, pois advém de uma noção de masculinidade majoritariamente construída em torno de uma suposta identidade universal, que na verdade é branca. Eu acredito que tem a ver conosco sim, pois muitas vezes performamos essa masculinidade, mesmo sem nos dar conta que ela não é acessível, que seu topo não é atingível para nós.


Independentemente disso, é preciso que os homens negros tenham chance de, entre si, definir novos parâmetros de masculinidades que passem além da hipersexualização, de força, de aguentar o tranco e outras questões que têm cercado o imaginário e as construções das masculinidades negras nos contextos em que estamos inseridos até aqui.



Cria Para o Mundo: Como a paternidade pode ser relevante nesse cenário de combate à masculinidade tóxica?


Ismael dos Anjos- A paternidade pode ser relevante nesse cenário pois é um dos principais gatilhos de transformação dos homens. Quando o homem se torna pai, a cada bronca, a cada carinho, a cada interação com filho, um espelho aparece na frente dele. Ele pode decidir agir no automático, repetindo aquilo que o pai fazia com ele e que muitas vezes ele não gostava, ou pode decidir fazer diferente.


Acaba sendo uma oportunidade de nos tornarmos homens melhores ao agirmos de forma mais pensada, mais refletida, seja sobre os filhos em si ou sobre as coisas que vão impactar essa família que nasce, como tempo, carreira etc.  Quando me tornei pai do Francisco, minha relação com ele se tornou um pilar essencial para todas as outras coisas que se seguiram e as escolhas que fiz.  



Cria Para o Mundo : Sobre o documentário, o Silêncio dos Homens, como tem sido a repercussão?


Ismael dos Anjos - A repercussão no documentário tem sido incrível. Para além de ter batido a marca de 500 mil visualizações em apenas um mês após o lançamento no YouTube, temos recebido muitas mensagens sobre rodas de conversa acontecendo em torno do filme. Ele já foi exibido em igrejas, dentro de uma OAB, em lugares para adolescentes, na Assembleia do Estado do Rio Grande do Sul e muito mais. Foram mais de 350 exibições já realizadas de forma voluntária, no Brasil e fora dele. 


E a ideia do documentário é justamente essa. Servir de fagulha. Desejo que as pessoas possam assisti-lo e refletir, seja com os amigos, namorado ou namorada, com os pais e por aí vai. E que a partir dessa reflexão os homens partam para ações mais positivas em torno das masculinidades.