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"Resolvi adotar e serei pai solo"




Por Luciane Evans


Conhecer alguém, apaixonar-se, namorar, casar, comprar uma casa, quitar as dívidas, para, então, ter filhos. Se fosse escrever esse script, dito pela sociedade como o “padrão”, Cristiano Martins Bento não realizaria o sonho de ser pai ou pelo menos ficaria mais distante dele. "Eu já segui parte desse roteiro e, infelizmente, não deu certo. Agora, resolvi adotar e serei pai solo", conta.


Aos 40 anos, o analista de banco de dados Cristiano Bento entrou para a fila da adoção, depois de um ano de reflexão. "Levei muito tempo para tomar essa decisão porque é um passo e uma responsabilidade muito grandes. Tinha meus receios, minhas inseguranças. E o medo de não dar conta", revela. Ele procurou o Grupo de Apoio à Adoção de Belo Horizonte (GAABH) para ouvir os pais adotivos que fazem parte do grupo sobre o processo e as experiências com a adoção. E, agora, está certo de que esse será o seu melhor caminho para a paternidade.


Por meio do grupo, conheceu várias histórias e, assim, passou a ter mais certeza do que queira. Um dos primeiros medos de Cristiano de ser pai solo era de tirar a criança do abrigo e colocá-la na escolinha em tempo integral, já que precisa trabalhar. "Mas uma amiga que fiz no grupo e mãe solo, me disse que o mais importante era o tempo de qualidade que vou ter com o meu filho", diz.


Há poucos dias, ele deu entrada no processo de adoção e diz esperar por uma criança de 2 a 4 anos, independente do sexo e da cor. "Eu cheguei a cogitar adotar meninas ou meninos por volta dos 10 anos, mas eu quero viver a experiência de ter uma criança em casa".

Cristiano foi noivo e durante dois anos morou junto com a mulher. "Chegamos a pensar em ter filhos, mas o relacionamento não deu certo. E eu sempre pensei em adotar", conta, dizendo gostar muito de crianças e se dar bem com elas. Inclusive, ele tem uma irmã 14 anos mais nova com quem diz ter uma grande parceria. "Sou muito afim de ser pai, gosto de estar em família".


Sobre encarar uma paternidade solo sem uma companheira com quem dividir a criação do filho, ele diz que a "a pessoa certa" para um relacionamento vai aparecer.


"Eu quero ser pai e uma pessoa certa pode aparecer lá na frente. Eu não preciso seguir o script imposto pela sociedade para realizar esse sonho", diz.

Cristiano tem curso superior, mora com a cachorrinha Mel, uma Golden, e diz não ter dívidas financeiras. “Chegou o momento de eu ser pai".


Uma das inspirações de Cristiano para encarar essa paternidade solo é o jornalista Érico Aires, que é gay, pai solteiro e adotou o João. Érico é uma das vozes da paternidade solo hoje no país e conta suas histórias nas redes sócias. "Quando eu conheci Érico, que não teve nenhum problema em adotar, eu me perguntei: por que não?".


Não há no processo adotivo brasileiro nenhuma restrição aos pais solteiros e o andamento processual é o mesmo por qual passa um casal. “Vejo que por parte da Justiça há uma preocupação maior por conseguir uma família para as crianças que estão em abrigos do que ficar preso em preconceitos”, comenta Cristiano.

Sobre o pai que pretende ser quando seu filho ou filha chegar, ele diz saber que ninguém nasce pronto para a maternidade nem para a paternidade. “É uma construção. Eu senti que estava pronto para viver essa experiência. Quando entrei com os papéis, tirei um peso das minhas costas”, afirma.


Ele diz que pretende ser um parceiro para a criança que chegar. “Não quero criá-la dentro uma redoma. Sou um homem que gosta da natureza. Faço trilhas, caminhadas e quero ensiná-la a nadar na cachoeira”, diz, sabendo que haverá mudanças em sua vida com a chegada de um filho.

“Eu fui criado com muita cobrança em relação ao futuro profissional. Quero que esse meu filho (a), quando chegar na idade de prestar vestibular, possa escolher entre entrar na faculdade ou fazer um intercâmbio. Quero ensiná-lo (a) que estudar é importante, mas que não devemos padronizar as nossas vidas nem valorizar demais os bens materiais, eles não são fundamentais", diz, leve e feliz com as suas escolhas e sonhos.

De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), há atualmente, 46 mil pretendentes cadastrados para adoção no país, sendo que quase 90% dos pretendentes são casados ou vivem em união estável. Apenas 8,6% dos registros são de pessoas que se declaram solteiras. Somando-se os separados, viúvos e divorciados aos solteiros, são 11,9% de pessoas cadastradas que desejam adotar individualmente.