• Cria Para o Mundo

"Não venci o sistema, sou privilegiada por ele"

Atualizado: 7 de Out de 2019



Benjamin, logo depois de chegar

Por Nathalia Ilovatte


Assim que eu soube que Benjamin estava a caminho, Alceu Valença começou a cantarolar diariamente em meus ouvidos que “tu virias numa manhã de domingo”. Passei 40 semanas ouvindo essa anunciação e escutando teus sinais até que, coincidência ou não, dei entrada na maternidade justamente numa manhã de domingo. Às 8 da matina, para ser precisa.


Animadíssima para parir, senti o banho de água fria quando, no primeiro e dolorido exame de toque, a enfermeira avisou: “Um centímetro de dilatação”. Ou seja, nada. Ele não vinha chegando para brincar no meu quintal, não naquela manhã, não assim tão fácil.


Um dia antes eu havia feito uma ultrassonografia que acendeu a luz vermelha: o índice de líquido amniótico tinha despencado para 3 pontos alguma coisa. O normal costuma ser acima de 10. Por que isso aconteceu? Não tenho a menor ideia, mas em uma gestação já na reta final, o melhor foi partir para a indução.


Um empurrãozinho necessário


Entrei na Unimed achando que ia surpreender todo mundo com 5 para 6 centímetros, contrações mostrando serviço e a criança já se encaminhando para a saída. Mas que nada. Foram 12 horas de indução com comprimidos de misoprostol e caminhadas com o traseiro à mostra pelos corredores do hospital, até minhas esperanças se esvaírem.


Reta final de gravidez nunca é fácil. Mas para mim, os pés inchados, as dores no quadril e a dificuldade para dormir foram fichinha perto da impossibilidade de conduzir os acontecimentos. Eu queria entrar em trabalho de parto espontaneamente, eu queria sentir a bolsa estourando.


Eu queria viver todas as minhas idealizações, mas nenhuma delas estava sob meu controle.

E depois de 12 horas tentando apertar meus botões para que o trabalho de parto começasse, eu decidi mandar mensagem para a doula pedindo que fosse até lá. Imaginei que só a Kalu, com sua sensibilidade, doçura e palavras certeiras poderia me acalmar durante os preparativos para uma cesárea. Especialmente depois de tantas horas tentando fazer as contrações começarem, e tantos meses esperando pelo trabalho de parto que não viria.


Mas, se eu já não acreditava mais, Kalu tinha certeza por nós duas. Chegou cheia de energia e me botou para malhar: fiz agachamentos, subi e desci as escadas de emergência e tentamos o rebozo.


Ela pediu que meu marido se posicionasse atrás de mim e apoiasse minhas costas. Passou uma canga por trás do meu quadril e, de frente para mim, começou a chacoalhar. Eu sentia minha barriga balançar de um lado para o outro e achava graça, sem entender muito bem no que aquilo ia dar. Pois foi acabar o rebozo que já veio uma contração no pé da barriga que até deixou as pernas fracas.


Enfim, em trabalho de parto


Daí para frente foi aquele roteiro básico de parto humanizado: entra no chuveiro, sai do chuveiro, senta na bola, levanta da bola, recebe massagem, vira pra cá, vira pra lá e, depois de vomitar misto quente no pé do marido, a coisa se intensificou de tal forma que eu fui do suspiro para o resmungo, passando para os gritos de “Aaaai” e, quando dei por mim, já estava urrando na cara do obstetra.


Eu não sei se é uma reação à dor ou à ação dos hormônios, mas tem um momento do trabalho de parto em que nossos muros de racionalidade desabam e o que nos domina é uma mistura de emoção, instinto e força. Para mim essa foi a melhor parte, a mais difícil e também a mais reveladora. Nunca, em toda a minha vida, uma experiência me fez sentir com tanta clareza que por baixo de roupas, regras, costumes e uns boletos eu sou um animal. Nós somos animais. E aquele bicho selvagem e ancestral que um dia fomos ainda habita em nós, latente, esperando uma brecha para despertar.


Eu gritava com uma potência que nunca soube que tinha, e a voz saía de uma parte de mim que eu nunca tinha acessado. Perdi completamente a noção do que acontecia ao meu redor, e entre uma contração e outra sonhava acordada com lampejos de emoções da infância. A cada grito, eu reagia aos flashes que emergiam na minha mente com uma honestidade e uma intensidade que eu nunca tinha me permitido externalizar.


Eu sentia como se estivesse sendo rasgada de dentro para fora. Era dor também, mas não só isso.

Tempos depois, lendo o livro Mulheres que Correm Com os Lobos, entendi essa sensação. No conto La Loba, a psicanalista Clarissa Pinkola Estés fala sobre a loba selvagem que é o Self animal instintivo de cada mulher. Parece algo muito xamânico, e talvez seja mesmo. Mas no livro a autora explica essa loba selvagem de cada uma de nós como a nossa psique, e diz que a prova de que essa loba existe é nosso encontro com ela em sonhos noturnos, anseios e aspirações.


Depois de ler esse livro, senti como se a vida toda eu tivesse esticado o braço para tentar tocar o focinho dela, e só no parto nós pudemos virar uma só. Passado esse momento sublime, a vida mundana e prática pouco a pouco me engoliu novamente, de forma que nunca mais urrei na cara de ninguém. Mas desde essa experiência eu sinto que eu e La Loba nos procuramos e nos encontramos sempre que sentimos saudade.


Meu parto aconteceu há 3 anos e hoje consigo entendê-lo como um processo de ruptura e de aceitação. Meu filho só saiu para o mundo quando, depois de me sentir irrompendo involuntariamente, eu me deixei levar. Eu sempre tive muita necessidade de controle e, por isso, permitir fluir foi uma etapa difícil e avançada de todo esse processo. Mas houve um momento em que veio lá do fundo a necessidade de parar de lutar contra aquela dor e apenas deixá-la passar por mim.


Tu vens, tu vens...


E assim, depois de o choro rolar e de ser acolhida em um abraço cheio de paz, senti a cabeça do meu bebê saindo. Mais uma força e ele escorregou para as mãos do médico, vindo de lá direto para o meu colo.


Benjamin nasceu não numa manhã de domingo, mas à 1h10 da madrugada da última segunda-feira de agosto. Veio de braços abertos, e com os olhos grandes e curiosos que me fitaram por alguns segundos até começar a chorar a plenos pulmões.


Eu saí da sala de parto rouca, exausta, com alguns pontos de laceração e completamente derretida e extasiada de amor por aquela pequenina paixão que veio de dentro de mim.



Flutuando num mar de ocitocina


Levou um tempo até que eu entendesse a dimensão de tudo que vivi no parto, e sou muito grata ao Guilhermino, obstetra, pelo respeito, gentileza, carinho e cuidado. Sou grata à Kalu, doula, por ter me conduzido docemente ao encontro da minha força. Sou eternamente grata ao meu marido pela entrega e apoio incondicionais. Sou grata ao meu corpo, ao meu espírito, à minha psique.


Eu fui muito além de todos os meus limites. Mas não me sinto uma vencedora.

Minha experiência foi positiva porque recebi um tratamento respeitoso e humanizado que não é a regra na realidade obstétrica brasileira. No entanto, eu não venci o sistema. Eu sou a parte privilegiada dele. E sinto que esse processo intenso e maravilhoso que vivi só tem sentido se eu me dedicar a fazer com que um parto positivo não seja um privilégio de poucas, mas a regra para todas nós.


Parir não me tornou um ser humano melhor, mas me deu a oportunidade de mergulhar em mim e encontrar minha força. E eu escolho usá-la para que as outras mulheres também possam resgatar a delas.



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