• Cria Para o Mundo

"Fomos dormir sem filhos e acordamos mães de dois"


Adélia Carvalho e Ana Jardim adotaram os gêmeos Miguel e Francisco

Por Luciane Evans


Foi tudo muito rápido. Depois que atriz e professora de teatro Adélia Carvalho e a historiadora Ana Jardim decidiram adotar, receberam os gêmeos em pouco mais de nove meses. Entraram com a papelada em janeiro de 2015, foram habilitadas em agosto e, em outubro, os meninos Miguel e Francisco chegaram para elas, ainda bebês de 7 meses. “Fomos dormir como um casal sem filhos e acordamos mães de dois", brinca Adélia.


No cadastro para adoção, elas informaram a preferência por crianças menores de 2 anos e, inclusive, disseram que receberiam irmãos maiores, caso houvesse. “Chegaram os gêmeos. E, na maternidade adotiva, há essa questão de que você não sabe que dia os seus filhos irão chegar. Não esperávamos que fosse tão rápido. E eles foram para a nossa casa no mesmo dia em que recebemos o telefonema do fórum”, comemora Adélia.


Sem experiência com bebês e sem providenciar muita coisa, Miguel e Francisco foram para a casa das mães e a família delas foi a rede de apoio. “As avós, tias e amigos estavam muito felizes. Todo mundo quis ajudar”, recorda Adélia. Ela conta que esse suporte foi fundamental para o casal já que a maternidade, seja ela adotiva ou não, é uma construção.


Embora algumas pessoas tenham dito que as duas mães se "safaram" da fase recém -nascida dos bebês, Adélia diz que os 7 meses de duas crianças para duas mulheres que nunca tinham vivenciado a maternidade não foram fáceis.

“Tudo era novidade para nós e para eles. Ter duas crianças foi maravilhoso, mas era exaustivo também. Eles revezavam para acordar de madrugadas, tinham demandas que para nós eram completamente novas. Antes, tínhamos o nosso trabalho, nosso estudo, nossos horários. De repente, havia duas crianças que dependiam de nós”

Adélia conta que, na primeira noite, Miguel acordou de madrugada e chorava muito. “Eu fiquei desesperada e queria levá-lo para o hospital porque achava que ele estava passando mal. A Ana, com mais calma, teve a ideia de dar mamadeira e ele parou de chorar”, lembra.

A construção materna, assim como todas elas, veio para Adélia e Ana aos poucos.


“Muitas vezes, o bebê biológico tem a mãe como referência e, aos poucos, vai se permitindo ir no colo de outras pessoas. Com os nossos filhos, o caminho foi inverso. Eles estavam acostumados com o colo de várias pessoas e foi uma construção para que nós fossemos a referência deles.”



Adélia Carvalho e Ana Jardim felizmente não sofreram preconceitos em relação à adoção

Apesar da alegria em dose dupla com a chegada de Miguel e Francisco, veio o medo. “O receio de não dar conta, a cobrança, a culpa. A sociedade é cruel com as mães”, observa Adélia, para quem a maternidade não pode ser vista como a perda da individualidade da mulher. “Eu amo meus filhos e amo ser mãe. Foi uma decisão certa, mas o cansaço e a necessidade de ajuda são reais. Há uma romantização da maternidade muito cruel com as mães. Eu fico exauta, a Ana também. Tem dias que precisamos descansar até para ter mais tempo de qualidade com eles.”


Felizmente, o casal não lidou com preconceitos. Mas Adélia reconhece que há comentários que poderiam ser evitados. “Algumas pessoas dizem: ‘nossa, vocês são pessoas maravilhosas, tiveram coragem de adotar dois meninos. Eles têm sorte’”, conta, dizendo ser cruel a maternidade adotiva ser vista como coragem ou ato de caridade.

“Nós queríamos ter filhos, construir uma família como qualquer outra. Não é um ato de coragem, é amor”, defende Adélia, contanto que há comentários também sobre adoção de meninos. Muita gente acredita que eles “são piores”. “Há todo um estereótipo por trás que não faz sentido.”


De acordo com dados do Cadastro Nacional de Adoção, do Conselho Nacional de Justiça, no Brasil são 46mil pretendentes à adoção, sendo que, destes, 26% so aceitam adotar meninas, 8% só aceitam meninos e 30% são indiferentes em relação ao sexo da criança.