• Cria Para o Mundo

Que mulher mãe sou eu?

O autoconhecimento pode ajudar as mães a resgatarem a mulher dentro de si



Por Luciane Evans

É difícil não se perder, não se deixar levar pelos velhos discursos, não deixar a maternidade nos engolir e se esquecer da mulher que existe na mãe. É fácil cair naquilo que a sociedade em que vivemos levanta como bandeira: “a boa mãe é aquela que se anula em nome do filho”.

Um peso gigantesco que fortalece a inexistência de divisão igualitária na criação dos filhos. Como consequência, a sobrecarga. Muitas adoecem, principalmente, num contexto de exaustão extrema em que a saúde mental está em frangalhos.

Como resistência, há a busca para regressar na mulher que existe dentro de si, e muitas partem para um caminho de descobrimento: o autoconhecimento. São muitas as rotas para isso, sendo a psicoterapia a mais comum delas. “A terapia é um processo importante para acolher esta mãe, para ajudá-la a desconstruir gradualmente os discursos da nossa sociedade e resgatar a mulher que existe dentro dela, fortalecendo-a”, comenta a psicóloga Amanda Jonas.

Hoje, no Dia das Mães, o Cria Para o Mundo deseja a todas essa redescoberta. Esse caminho de fortalecimento, de novas percepções sobre si, de não desistir da mulher que existe ali. Ele nunca foi tão essencial como agora, quando vivemos inúmeros retrocessos na luta pela igualdade de gênero.

Há alguns anos, a psicoterapia era vista como algo para pessoas com sérios problemas. “Coisa de louco”, diziam. Mas, com o passar do tempo, as pessoas passaram a enxergá-la como fundamental para o autoconhecimento, a ponto de pregarem a teoria de que “o mundo seria bem melhor se todos fizessem terapia”.

Não dá para afirmar se esse espaço de escuta é para todos, mas para as mulheres que passam por uma grande transformação, como é a maternidade, ele tem sido cada vez mais indicado. Tanto que há psicólogos especializados em atender mulheres na gestação e pós-parto.


O fato é que precisamos, muito, nos fortalecer, principalmente nesse contexto em que vivemos. As mulheres mães perderam espaços no mercado de trabalho, estão mais solitárias, com sintomas de depressão e sobrecarregadas.

Ana Matos, psicanalista e filósofa

“A terapia é importante para qualquer pessoa. Para as mães, o foco do trabalho é nas mudanças que ocorrem na sua vida com a chegada de um filho e na importância de não se abandonar. Priorizar o filho por um tempo é uma necessidade, devido à dependência para o atendimento das suas demandas. No entanto, a mulher precisa ficar muito atenta para não confundir prioridade com anulação, abandono de si”, enfatiza Ana Matos, psicanalista, filósofa e autora do livro O caminho para o inevitável encontro consigo mesmo.

Ela reforça que, para muitas, ser mãe traz um novo olhar, um novo sentido para a vida. “O que acontece é que a maternidade pode tanto fazer aflorar vontades e desejos como anular a mulher que ela era antes. Por isso, a terapia é importante - um papel não anula o outro. Eles se complementam e se realizam”, diz Anna.

Maternidade é confronto com idealizações

A psicóloga Amanda Jonas faz terapia bem antes de se tornar mãe. Quando engravidou, em 2018, estava em processo de se descobrir como mulher. “Quando carreguei meu filho no colo, a chave virou. Que mulher eu sou? Passara por vários processos de terapia para tentar me descobrir, conhecer minhas limitações e potencialidades. A maternidade veio e balançou tudo. Descobri que a Amanda que eu fui já não cabe mais aqui”, conta.

Defensora do autoconhecimento como parte fundamental do empoderamento feminino, Amanda critica o discurso de que “a boa mãe é aquela que se abdica da própria vida e vive em função do filho”, porque, segundo ela, esse tipo de crença da sociedade promove o sentimento de culpa, a sensação de não ser boa o suficiente e de ser egoísta quando a mãe faz algo para si.

“A terapia nos ajuda a desconstruir essa ideia da sociedade sobre o ser mãe. A mulher ainda existe ali. À medida que me cuido, busco resgatar essa mulher. Eu me sinto melhor para poder cuidar do meu filho, me sinto, inclusive, mais inteira. É adoecedor quando você se abdica de si”, afirma.

Amanda Jonas, psicóloga

Amanda define maternidade como uma “confrontação com idealizações”. Isso porque, conforme ela explica, há a romantização do ser mãe que, ao encontrar com a realidade de se criar um filho, causa frustrações em muitas mulheres.

“Não há uma receita pronta para o maternar. Ele vai sendo construído por aquela mulher, que pode se redescobrir até mesmo depois de muitos filhos”, afirma, acrescentando ser um dos maiores desafios da maternidade o de responder a essa pergunta: “Que mulher é possível ser após ser mãe?”. Amanda lembra que além das terapias como caminho para o autoconhecimento, há os grupos de mães e redes de acolhimento que ajudam nesse processo.

Melhora da autoestima

Quando a sua filha estava com 1 ano e 6 meses, a professora Amanda de França Costa, de 26 anos, procurou a terapia e descobriu que o maternar pode ser mais leve, graças ao autoconhecimento. “Estou aprendendo a simplificar muitas coisas na vida e isso se reflete na minha maternidade. Estou tendo que admitir que não tem como ser impecável em tudo. Muitas mães se cobram demais e eu já era assim antes, com a maternidade piorou essa sensação, com a terapia tenho consigo me controlar.”

Nessa busca, ela conta ter até melhorado a autoestima. “Estou conhecendo mais sobre os limites da minha paciência, o meu jeito de demonstrar carinho e cuidado, entre outras coisas. A terapia me ajuda a me situar no meio disso tudo.”

Reflexo na relação com os filhos


A busca pela psicoterapia tem vários motivos. Pode ser por uma patologia mental, para resolver um conflito, por uma crise existencial, para resgatar a autoestima e fortalecer a autoconfiança ou pelo autoconhecimento. “Não raro, tanto mulheres quanto homens me procuram com o objetivo de se conhecerem para serem pessoas melhores para os seus filhos, fortalecerem seus pontos fortes e lidarem com suas emoções”, ressalta a psicanalista Ana Matos.

Ela diz que, quando os pais conhecem seus traumas, dificuldades e bloqueios, eles ficam mais conscientes. “E isso pode minimizar a projeção e a transferência de suas questões mal resolvidas para os filhos. Ou seja, pais minimamente resolvidos, crianças mais saudáveis psiquicamente”, comenta Ana.

Amanda de França, professora

Amanda de França concorda e diz que a terapia te ajudado na sua relação com a filha. “Eu tenho resgatado algumas inquietações da minha infância quando reflito sobre a criação da minha filha e isso me ajuda a pensar sobre meus traumas. E aí eu vejo que tem uma série de problemas da minha vida ligada à infância”, avalia.

Caminhos do autoconhecimento



Psicoterapia constitui um processo científico de compreensão, análise e intervenção terapêutica que se realiza através da aplicação sistematizada e controlada de métodos e técnicas psicológicas reconhecidos pela ciência, pela prática e pela ética profissional. Tem-se como objetivo promover a saúde mental e propiciar condições para o enfrentamento de conflitos e/ou transtornos psíquicos de indivíduos, ou grupos. Esta prática não é exclusiva do profissional da psicologia.

Psicanálise é uma área específica do conhecimento e se constitui em uma abordagem teórica e técnica utilizada pelo psicólogo, mas não é restrita a este profissional. Há psicanalistas que possuem formação específica em Psicanálise e que atuam como psicoterapeutas não-psicólogos. A psicanálise é um saber criado e desenvolvido pelo médico austríaco Sigmund Freud e consiste, entre outros pontos, em um método psicoterápico baseado na interpretação dos conteúdos inconscientes através das palavras, ações e produções imaginárias do sujeito, tendo como técnica básica a associação livre.


Meditação: Muitas pessoas conseguem alcançar o autoconhecimento por meio do silêncio da mente. A meditação, segundo quem pratica, ajuda a alinhar com a própria essência


Sagrado Feminino é uma filosofia, um estilo de vida que promove ensinamentos sobre aspectos físicos e mentais da figura feminina. É a consciência dos ciclos femininos, da capacidade de criação e acolhimento e da força da mulher. É a reconexão consigo mesma e a harmonização de tudo isso com a natureza.


Fonte: Conselho Regional de Psicologia 3ª Região