• Cria Para o Mundo

Quando a adolescência bate à porta

Para ajudar pais a se conectarem com os filhos e com o adolescente que foram, psicólogas e designer lançam o livro "Meu adolescente: memórias, diálogos, conexões"

Foto: Gaelle Marcel/ Unsplash

Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Num piscar de olhos, aquela criança falante e agarrada aos pais sai de cena, e quem entra no lugar dela é um pré-adolescente cheio de opiniões, que discorda, questiona, prefere sair e conversar com os amigos (sem pai nem mãe!) e reivindica privacidade.


Logo vêm as mudanças físicas, a recusa em usar as roupas da seção infantil escolhidas pela mãe e o despertar para a sexualidade. É tanta mudança acontecendo, e num ritmo tão acelerado, que não é incomum que os pais se perguntem quem é aquele estranho quase adulto dentro de casa e desejem ter de volta a criancinha fofa e espoleta com quem conviveram durante anos e já conheciam tão bem.


Para a designer Carolina Lentz, mãe de Gabriel, de 15 anos, e Lucas, de 14, ver os filhos passando da infância para a adolescência é como dirigir. “Você aprende a ligar o carro, aí vai para a estrada, vai se sentindo segura, e chega um momento em que você está mais ou menos confortável, a 100 quilômetros por hora, numa rodovia bonita. De repente, curva acentuada à direita. Vem a adolescência, e você entra numa estrada esburacada, tipo Rally Dakar. E ninguém te avisa”, descreve.


A mudança brusca e por vezes caótica vem acompanhada, em muitos casos, da solidão dos pais, que hesitam em compartilhar angústias, trocar figurinhas com quem está no mesmo barco ou buscar apoio profissional. “Às vezes há um certo isolamento desses pais, e uma dificuldade em procurar redes e falar disso, porque para eles também é um momento de reinvenção”, explica a psicóloga Anna Cláudia Eutropio. “É difícil conseguir perceber e mapear internamente o que aquela adolescência está causando neles, e o que aquela adolescência que está ali dentro de casa também rememora da adolescência deles, das dores e das conquistas que tiveram”.


Muito se fala sobre a criança interior, mas também há um adolescente em cada adulto, que pode ser acionado e se mostrar em lembranças e comportamentos. “Esses comportamentos vão aparecendo, ou não, quando os filhos adolescentes entram em contato com algum lugar da adolescência que o pai ou a mãe não puderam entrar, ou que não querem que o filho reproduza”, pontua a psicóloga Carolina Dantas. “São gatilhos que acionam quem esses pais tiveram permissão para ser ou quem não puderam ser, aquilo que escondem, que está na sombra porque não querem mostrar, ou lembrar, ou que foi muito duro de viver. Pode ser uma frase ou um comportamento a acionar essa lembrança antiga, e muitas vezes esse adolescente volta, e volta revoltado, confrontando, assim como quando a gente lida com crianças e tem comportamentos infantis de birra”.


Com tanto acontecendo, dá para entender por que a fase é tão complexa para filhos e para pais. Pensando nos percalços dessa curva acentuada à direita, e quão valioso pode ser para os pais encontrar alguém que lhes estenda a mão e ajude a percorrer esse trajeto, as psicólogas Carolina Dantas e Anna Cláudia Eutrópio e a designer Carolina Lentz se reuniram para escrever o livro Meu adolescente: diálogos, memórias, conexões.

“O livro é um convite de volta para casa, mas por um caminho mais seguro, porque é um caminho mediado, atento e acompanhado por nós três”, explica Carolina Dantas.


As palavras do título foram escolhidas cuidadosamente e dizem muito sobre como as autoras querem conduzir esse trajeto. “Pra gente cuidar do “meu adolescente” é preciso resgatar memórias. Então, o livro tem uma série de sugestões de reflexões para que cada um encontre esse adolescente que foi e se conecte com ele, para poder acolher esse adolescente que tem em casa agora”, explica Anna Cláudia. “O diálogo é o fio condutor do livro inteiro. Ele é como uma conversa, foi escrito numa linguagem tranquila e oralizada e quer puxar conversas, então é um bocadinho de prosa pra vir mais um bocadinho de prosa”.


Mais do que instigar a reflexão, Meu adolescente: diálogos, memórias, conexões propõe a aproximação entre pais e filhos e inspira os adultos a encontrarem caminhos para resgatar essa intimidade com os adolescentes. “É um livro para pais e mães que pode ser livro por avó, por tia, por educadores, psicólogos… Porque o papel de ajudar o adolescente a fazer essa transição é de toda a sociedade”, diz a psicóloga.


O Cria Para o Mundo conversou com as três autoras sobre o livro, sobre a adolescência e sobre ser mãe de adolescente. Veja o papo:


Meu adolescente: diálogos, memórias, conexões será vendido online. O link para compra pode ser encontrado no perfil do Instagram @meuadolescente. O lançamento acontecerá em uma roda de conversa pelo aplicativo Zoom, no dia 15 de junho, às 20h30.