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Qual história você quer contar?

Usar o Natal como recompensa para o comportamento dos filhos ou aproveitar para ensinar bons valores?



Por Luciane Evans


"Se você foi bonzinho durante o ano todo, obedeceu seus pais e professores, o Papai Noel irá te recompensar." Essa talvez seja uma das formas mais comuns que muitas famílias encontram para usar a magia natalina na educação dos filhos. A maioria de nós, pais, cresceu acreditando que, nessa data, havia, enfim, o pote de ouro para quem conseguiu se comportar. Mas será que essa é a história que você quer contar para o seu filho nesta noite de Natal?


É nesta época do ano que os bons sentimentos afloram e a chegada do bom velhinho se torna um marco. Há famílias que preferem não alimentar essa magia para as crianças e, desde cedo, não inserem o Papai Noel na tradição natalina delas. As famílias que embarcam nessa história, por vezes, se questionam até quando ela pode ser interessante para o crescimento das crianças.


Apesar de não ser um consenso, acredita-se que origem da lenda do Papai Noel tenha sido inspirada em São Nicolau, bispo nascido no século 3, na Grécia Antiga, que tinha o hábito de distribuir moedas de ouro para os mais pobres.


A imagem do bom velhinho como conhecemos hoje - com roupas vermelhas, barba branca e um barrigão - foi criada há pouco tempo, no século 20. E logo se popularizou em todo o ocidente, tornando-o um dos principais símbolos do Natal, especialmente entre as crianças, que têm o primeiro contato com a ilusão culturalmente compartilhada.


Capitalismo X magia


Mas nessa magia há dois lados: a figura do Papai Noel como a esperança e a generosidade da doação e do amor ao próximo, e a imagem dele como o símbolo dos presentes, das compras, dos brinquedos.


"A escolha de contar sobre essa existência é de cada família. Acredito ser possível vivenciar essa escolha sem o símbolo do capitalismo", comenta a educadora parental em Disciplina Positiva e doutora em Saúde da Criança e do Adolescente, Mariana Lacerda.


Ela diz que a construção capitalista em cima do Natal não pertence à história de São Nicolau, a que deu origem ao Papai Noel que conhecemos hoje.

"Para que possamos tomar a decisão sobre a história que vamos escolher contar é importante se perguntar: o que é importante para a minha família em relação ao Natal? Quais os valores são importantes nesse contexto?”, sugere Mariana.

Imaginação e fantasia


De acordo com o método da pedagoga Maria Montessori, imaginação e fantasia são coisas distintas. A primeira estaria associada a uma percepção do real, sendo fruto da criatividade da criança a partir do que ela vê. É a capacidade dela de criar de forma espontânea diante do que já existe. Uma criança que enxerga no arco-íris um escorregador, por exemplo, estaria exercitando a sua imaginação diante do real.


Já a fantasia, na visão de Montessori, é algo que parte do adulto para a criança, algo que nós inventamos e introduzimos no mundo delas, às vezes, até como forma de "educar", como é o caso das famílias que usam os presentes do Papai Noel como recompensa para o comportamento das crianças.


"Não acredito que isso seja uma verdade absoluta. Faz muito sentido para as crianças acreditarem em fantasias que não são reais. Por volta dos 2 e 3 anos, elas começam a desenvolver a imaginação relacionando com a realidade delas e a brincar com coisas que pertencem ao mundo em que elas estão inseridas. Esse processo de imaginação está muito presente na vida delas”, comenta Mariana, dizendo que, no caso do Papai Noel, é uma questão de escolha da família.


Mariana Lacerda e o filho Matias

Com o filho Matias, Mariana diz querer compartilhar a história cristã. "É o que faz mais sentido para mim", diz, destacando que a questão do consumismo vai depender da forma que a data será celebrada.


"O maior questionamento que deveríamos fazer é em relação aos valores que queremos ensinar e não entrar em um jogo de castigo e punição com a criança, porque isso não é saudável", alerta.


Papai Noel e recompensas


Para Mariana Lacerda, mais do que se preocupar com benefícios ou malefícios referentes à história do Papai Noel, as famílias devem se questionar se a data tem sido usada para o bem-estar de todos ou se tornado um ponto de manipulação, punição ou chantagem com os pequenos.


A vinda ou não do Papai Noel como reflexo do bom ou mau comportamento são, para a educadora, pequenas violências. Ela enfatiza que as famílias devem buscar, nesse momento, valores para ensinar e não fazer disso um momento de trocas, castigos e recompensas.


"Todas essas coisas não desenvolvem a autorresponsabilidade na criança. A autorresponsabilidade é desenvolvida de dentro para fora. É claro que, como pais, vamos criar os limites necessários, mas precisamos fazer isso com verdade e honestidade. Quando ameaçamos, manipulamos ou usamos de castigos, não estamos sendo honestos nem respeitosos. Não estamos ensinando para as crianças habilidades de vida nem a lidar com as coisas como elas realmente são. Estamos abusando do nosso poder e autoritarismo", conclui Mariana Lacerda.