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"Morar só com a minha filha é uma libertação"

Atualizado: 7 de Out de 2019


Após separação, Flávia e o pai de Larissa decidiram tentar de novo, mas ela impôs sua condição: sem morar junto

Por Nathalia Ilovatte


A jornalista Flávia Freitas deu à luz Larissa, hoje com 2 anos, no parto que sonhou: na banheira do hospital Sofia Feldman, em um ambiente respeitoso e com assistência humanizada. Três dias depois, mãe e filha foram para casa e a vida de mãe de fato começou.


“Hoje eu percebo que eu me preparei para o parto”, conta a jornalista. “Mas eu acho que me preparei pouco para o pós-parto, a amamentação e, principalmente, para o puerpério”.

Longe da família, sem rede de apoio e acompanhada somente pelo marido, que não teve licença-paternidade e trabalhava das 7 da manhã às 21h30, Flávia se viu completamente sozinha. “O puerpério foi muito difícil, foi punk. Eu quase surtei, mesmo. Ficava o dia inteiro com um bebê e a madrugada sozinha. Os três primeiros meses foram muito difíceis, não entrei em depressão não sei como”, recorda.


Flávia é funcionária pública em Betim, e conseguiu somar férias para passar os 10 primeiros meses de vida de Larissa se dedicando integralmente - e solitariamente - à filha. Quando voltou ao trabalho, sentiu o peso da sobrecarga mental e da jornada dupla. “Lembro de pedir ao pai dela para ficar com a bebê por 15 minutos para eu tirar um cochilo, porque meu cérebro já não respondia mais. Era desesperador”.


Cansada de se sentir só, a jornalista quis mudar para Betim para ficar perto dos pais e do trabalho, mas o marido se recusou a sair de Belo Horizonte. “Eu falei que não ficaria com uma criança pequena em BH e enfrentando estrada para trabalhar em Betim. Ficamos nesse impasse e isso estremeceu a relação”, conta. Mesmo assim, Flávia estava determinada a mudar de cidade para tornar a vida mais leve.


“Comecei a olhar apartamento, peguei minhas coisas e vim embora. Foi a melhor coisa que eu fiz".

A jornalista garante que a vida mudou para melhor. "Hoje estou perto dos meus pais, moro em um bairro central próximo à casa deles e à escola da Larissa, e a dois quarteirões do trabalho”.


Meses depois da separação, o pai de Larissa tentou morar com as duas na cidade vizinha. “Foi aí que eu descobri que prefiro morar sozinha com a minha filha. A relação estremeceu demais, eu notei que não dava mais para morar junto porque havia um descompasso gigante sobre percepções e divisão de tarefas. Isso sempre foi um grande problema no relacionamento, e se intensificou com a chegada da Larissa”, relata a jornalista. “Pedi a separação”.


Há 2 meses, os dois decidiram tentar ficar juntos mais uma vez, mas Flávia impôs suas condições: separados legalmente e sem morar junto.


“Eu descobri que não quero morar mais com nenhum homem, quero morar com a minha filha. É um sentimento de libertação”.

Diante da sobrecarga física e mental por cuidar da casa e da filha sozinha, e da impossibilidade de mudar a maneira como o ex-marido lidava com as tarefas domésticas e o papel de pai, Flávia decidiu ser feliz. “Hoje eu tenho essa visão de que a caixinha do casamento certinho não funciona pra todo mundo. Tem que estar bom para todos os lados”, diz, reconhecendo que poder fazer essa escolha é um privilégio. “Eu só consegui sair desse contexto porque trabalho e tenho renda. Se não tivesse estaria presa, infeliz, doente mentalmente e fisicamente, mantendo aquele formato tradicional de família”.


Priorizar a própria saúde mental foi uma escolha em benefício próprio e também em prol do bem estar de Larissa. “Nossas prioridades com a chegada do filho mudam completamente, e pra gente cuidar de filho precisa estar bem”.


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