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Precisamos conversar sobre "aquilo"

Atualizado: 14 de Out de 2019

Falar sobre sexualidade com as crianças é uma maneira de protegê-las. Com leveza e naturalidade, pais podem abordar o tema com os filhos desde bebês


Proteção, privacidade e consentimento devem ser ensinados às crianças desde cedo

Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Se alguém tentasse tocar o corpo do seu filho, ele saberia que isso é errado e que a culpa não é dele? E, caso isso acontecesse, ele teria coragem de contar a você ou ficaria com medo da sua reação?


Por mais que queiram, os pais não têm nas mãos o poder de proteger as crianças de todos os perigos. Portanto, explicar a elas o que fazer caso sofram uma tentativa de violência sexual é um cuidado, e parte de uma conversa mais ampla e muito necessária sobre sexualidade.


O assunto, aliás, deve começar a ser introduzido pela família desde o nascimento da criança, conforme reforça a educadora parental em Disciplina e Parentalidade Positiva, Dani Ribeiro. "Educação sexual é um assunto muito sério, que deve ser conduzido pelos responsáveis desde a chegada do bebê, nomeando os órgãos, falando sempre da limpeza, da higiene e do cuidado, do toque do sim, do toque do não", recomenda.


Mãe de quatro crianças, Dani Ribeiro explica que para essas conversas é preciso sempre dar um tom de naturalidade. Ela lembra que durante muitos anos, os pais evitavam falar sobre isso em casa, mudavam de assunto quando aparecia algo na TV e, hoje, com tanto acesso a informação, esse tipo de atitude não garante nada e pode ser até arriscado.



"Sexualidade é um tabu em nossa sociedade, sendo passado de geração em geração. Isso precisa ser quebrado. Qual o problema de falarmos vulva, pênis? Qual o problema de conversar sobre isso com uma criança?”, questiona Dani Ribeiro, para quem ter esse tipo de conversa desde cedo pode ser uma forma de proteção para os pequenos.

A empresária Hélica Arruda, mãe de Helick, de 12 anos, e Cauã, de 5 anos, também vê na conversa uma forma de proteger as crias. Por isso, ela procura manter um diálogo leve e franco com os meninos. “Acredito que ter esse canal aberto ajuda demais, porque assim você previne abusos. A criança sabe o que não é legal, sabe que pode contar com você, e que você pode ajudá-la”, afirma.


Hélica defende esse como o caminho para criar confiança nas crianças, tanto para identificar possíveis violências quanto para relatar aos pais qualquer problema, sem medo nem culpa. “Se você não conversa, se você não a posiciona sobre o assunto, ela não vai falar. E se algo acontecer, vai se sentir culpada ou errada por aquela situação. Então, quanto mais conhecimento a criança tiver, mais ela pode se proteger”, explica.


A postura da mãe tem o apoio da psicóloga infantil, pedagoga e psicopedagoga Daniela Salum, que também defende o diálogo como forma de proteção. “Sou a favor de criar esse canal de comunicação, de falar ‘filho, eu estou aqui para te proteger, para te ajudar’, de explicar que não existe segredo entre adulto e criança, e que para tudo que acontecer, ela pode procurar o adulto e ele vai ajudá-la”, orienta.

A literatura infantil pode ser uma grande aliada para abordar a sexualidade com os filhos

Mas como começar essa conversa?


Especialmente para pais que não cresceram vendo questões ligadas a sexualidade sendo tratadas de maneira natural dentro de casa, esse assunto pode ser difícil de fluir. Há, também, quem tema que abordá-lo dentro do lar possa sexualizar precocemente os filhos. Então, como fazer?


Primeiro, é preciso quebrar tabus. É certo que falar sobre sexualidade com os pequenos, respeitando a maturidade deles em cada fase da infância, não vai incentivá-los a querer fazer sexo. Em verdade, esse papo poder ser mais simples do que se pensa, como orienta a psicóloga infantil Daniela Salum.


“A conversa não precisa ter um cunho sexual, e nem colocar nada na cabecinha deles. É possível simplesmente falar sobre proteção, cuidado, segurança pessoal, intimidade e respeito. Essas são coisas que a gente ensina desde cedo", afirma Daniela Salum.

Dani Ribeiro comenta que há pesquisas que mostram que crianças que receberam instruções sobre educação sexual desde cedo, quando chegam na fase da adolescência iniciam mais tarde a vida sexual. "Ou seja, ter a informação não quer dizer que haverá um interesse precoce para isso", aponta a especialista.

Nem mesmo a nudez é um despertar para a sexualidade, segundo Dani. "Quando a criança está com 5 ou 6 anos e não aprendeu sobre a nudez de forma natural, fica difícil introduzir o tema, uma vez que há, nessa fase, a vergonha social, e é o momento em que ela percebe o julgamento do outro", afirma, explicando que banhos em família ajudam os pequenos a conhecerem o corpo com naturalidade, em um ambiente seguro.


No caso das crianças menores, especialistas indicam a literatura como forma de introduzir questões ligadas ao corpo. Dani Ribeiro indica o Pipo e Fifi, da autora Caroline Arcari, que é voltado para meninos e meninas de 4 anos. É um dos livros mais famosos para prevenção da violência sexual infantil, tendo mais de 100 mil copias distribuídas no Brasil. Outro indicado é Não Me Toca, Seu Boboca, escrito por Andrea Taubman, que mostra, por meio lúdico, o que é a situação de violência sexual e o que fazer para evitá-la.


Outro ingrediente importante nas conversas sobre sexualidade é o acolhimento. "A criança é um ser que decide, pensa. Temos que enxergá-la com respeito", afirma Dani Ribeiro.


Mesmo com bebês, pais podem nomear partes íntimas

Trabalhar autonomia, não forçar abraços e beijos


Uma das recomendações de Daniela Salum para proteger crianças na primeira infância é trabalhar a autonomia para que precisem menos de um adulto para ir ao banheiro ou tomar banho.

“Também sou contra forçá-las a abraçar e beijar quando não querem ou não conhecem. Gosto de explicar às crianças que ninguém encosta a mão no outro sem permissão, seja para abraçar ou bater”, diz a psicóloga , que também é mãe e adota essa postura com os próprios filhos.

Bárbara começou a falar com Felipe e Rafael sobre consentimento quando os meninos tinham 2 anos

A advogada Bárbara Myssior é mãe de Rafael, de 6 anos, e Felipe, de 4 anos, e conta que a sexualidade passou a ser tema de conversas com os meninos quando eles tinham 2 anos. “Eles foram para a escola com essa idade e foi uma fase boa para introduzir conversas sobre quem poderia levá-los ao banheiro, quem poderia limpá-los”, lembra. “A gente também sempre nomeou as partes do corpo. E quando eles perceberam que eu era diferente deles, começou o papo de que não pode colocar a mão e não é qualquer pessoa que pode chegar perto”.


As conversas foram progredindo conforme o entendimento e as vivências dos pequenos.


“Com 4 anos começamos a falar sobre intimidade e privacidade, porque eles começaram a descobrir que é gostoso mexer no pênis. Aí falei que faz uma 'cosquinha' gostosa mas que não é para mexer na frente de todo mundo e nem para deixar que alguém coloque a mão, que não é qualquer um que pode limpar o bumbum, tocar o corpinho deles. Então, começamos aí a ensinar que o corpo é íntimo e privado", conta Bárbara.


Diálogo franco e leve traz bons resultados


Julianna com os filhos, Lívia e Saulo: diálogos ajudaram a mais velha a lidar com a curiosidade de um colega

A professora Julianna Ricieri, mãe de Lívia, de 7 anos, e de Saulo, de 3 anos, garante que o diálogo franco, leve e adequado à maturidade das crianças traz bons resultados. Quando Lívia tinha 4 anos, um coleguinha da escola a abordou algumas vezes pedindo que mostrasse a “leleca”, como ela chama a vulva.


“Ela disse que não poderia porque é uma parte íntima, uma coisa só dela e que não era para sair mostrando”, conta a mãe, que ouviu da menina o relato do ocorrido e procurou a professora para conversar.


“Ela conduziu as crianças para a coordenadora, que conversou com os dois e elogiou a minha filha pela forma como lidou com a situação. Lívia chegou em casa toda feliz porque ganhou um adesivo de estrela, e depois disso, sem citar o que aconteceu, a professora trabalhou com os alunos essa questão da curiosidade”.


Para que a filha tivesse a clareza e a autoconfiança necessárias para lidar com o pedido do menino, e ainda contar à mãe o que aconteceu, Julianna trabalhou com Lívia desde os 3 anos questões como consentimento, intimidade e privacidade, nomeando partes do corpo e explicando a ela quem poderia vê-la ou tocá-la, e de que forma. “Não é simplesmente despejar na criança a informação, é colocar dentro do dia a dia dela, aproveitar as situações para entrar no assunto, intervir de forma lúdica, e responder as dúvidas de maneira sincera, mas cuidadosa”, explica a mãe.


“Minha filha continua tendo a inocência infantil, mas ela, desde cedo, tem informações e instrumentos para se proteger quando não estivermos por perto para fazer isso por ela. E, com meu mais novo, estou seguindo os mesmos passos”, revela.


Tenha escuta ativa e nunca deixe seu filho sem respostas


A preocupação dos pais se justifica pelos números. Diariamente, o Disque Denúncia recebe cerca de 50 ligações relatando crimes sexuais cometidos contra crianças e adolescentes, em todo o país. Segundo dados do Ministério da Saúde, entre 2011 e 2017, 184.524 casos de violência sexual foram notificados e, destes, 76% foram contra crianças e adolescentes.


Outro alerta que não deve ser esquecido é que dados mostram que o inimigo está mais perto do que se imagina. Quase 70% dos casos notificados aconteceram dentro da casa das crianças e adolescentes agredidos. Em cerca de 35% dos casos o agressor tinha vínculo familiar com a vítima, e um em cada três tinha caráter de repetição.


Por isso, a recomendação é estar sempre atento. A educadora Dani Ribeiro aconselha a escuta ativa para tudo que a criança contar.


"Escute, com olhos nos olhos, tudo aquilo que seu filho lhe falar. Seja o que for, é legítimo. Valide os sentimentos dele, oriente-o, porque isso vai mantendo esse canal de diálogo aberto", afirma.

Dani diz que nunca deixa os seus filhos sem respostas. "Uma vez um deles me perguntou o que era sexo. Perguntei então o que era sexo para ele, e ele disse que era feminino e masculino. Eu, então, disse que ele estava certíssimo e que o feminino tem vagina e o masculino tem pênis. Ele ficou satisfeito com as respostas".


A naturalidade, segundo ela, é um ponto importante para essa abertura. "Busque do filho o que ele sabe sobre o assunto e responda, e veja se aquilo foi suficiente", aconselha.


Diálogo aberto é importante, naturalidade também, e o respeito à maturidade de cada criança, idem. Mas tudo isso precisa ser combinado a uma educação respeitosa e que não seja baseada em castigos.


Dani ressalta que as punições podem minar a confiança dos filhos. "Eles fazem com que a criança tenham medo de contar se aconteceu algo. Ela pode pensar que ficará de castigo e acaba se silenciando", enfatiza, reconhecendo que talvez nós, pais, pequemos ao adotar uma forma de educar não respeitosa, não acolhedora.


"A escuta ativa, o acolhimento e a validação dos sentimentos dos filhos são importantes para que a criança se sinta confortável e lhe conte o que aconteceu", orienta Dani Ribeiro.

Em caso de alguma suspeita de abuso infantil, procure ajuda de profissionais. "Dependendo de como você pergunta, induz uma resposta da criança. O assunto tem que ser abordado de forma lúdica e neutra", pontua a psicóloga infantil Daniela Salum.