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"Pieces of a Woman" rompe o silêncio sobre o luto materno

Em novo filme da Netflix, mãe atravessa a angústia e a dor da perda neonatal


A atriz Vanessa Kirby em cena de parto como Martha Weiss
Reprodução Netflix

Por Nathalia Ilovatte


Uma gravidez tranquila, um bebê saudável, um parto planejado e uma equipe experiente a postos. Nem todos os cuidados e todas as garantias foram capazes de evitar o desfecho subitamente trágico do parto de Martha. Minutos após nascer, a pequena Yvett começa a respirar com dificuldade e o impensável se concretiza: a recém-nascida morre nos braços da mãe.


Pieces of a Woman, protagonizado pela brilhante Vanessa Kirby, não é um filme sobre superação, nem sobre casamento, tampouco é propriamente sobre maternidade. Ele percorre com maestria o luto de uma mulher que vive a perda neonatal da única filha, e lembra que a arte, em especial o cinema, tem o poder de nos colocar na história e na dor do outro para nos despertar a humanidade.


Depois do nascimento e morte de Yvett, Martha vive a própria dor em meio a um turbilhão de demandas e decisões que as pessoas ao redor fazem por ela. A mãe, que sem o aval da filha processa a parteira, também culpa Martha por ter optado por um parto natural domiciliar. A irmã espera que ela siga em frente e trata o comportamento de uma mulher enlutada como loucura. O marido quer que restabeleçam o diálogo - mas também não sabe dialogar - e, em dado momento, exige que retomem a vida sexual.


Enquanto tudo colapsa ao redor dela, Martha tenta encontrar sentido nos próprios sentimentos, e é com delicadeza que o filme nos conduz por essa busca. Entre metáforas sutis e muita sensibilidade, Pieces of a Woman mostra que o luto é travessia, é processo não-linear, é ciclo da natureza. Martha toma decisões, recua, parece agir impulsivamente em alguns momentos e prolonga escolhas em outros, justamente porque não há caminho certo para cruzar essa longa e gélida ponte.


Quando a mãe diz que ela precisa "lidar com isso", a até então murmurante puérpera responde, aos berros, "Eu estou lidando!". A cena é emblemática, pois ilustra a discrepância entre a vivência do luto e o senso comum sobre ele. Para quem olha de fora, lidar com a perda significa agir, juntar os cacos e colá-los no tempo do mundo. Mas, para a mulher que vivencia um pós-parto com o peito molhando de leite a camiseta e nenhum bebê para amamentar, lidar com a perda é algo estritamente subjetivo, introspectivo e visceral.


Se Pieces of a Woman é um filme recomendado para quem viveu história semelhante à da protagonista, eu honestamente não sei dizer. Mas é uma obra necessária para todas as pessoas. Primeiro, pelo trabalho impecável de roteiro, direção e atuações, não só de Vanessa Kirby, mas também de Shia LaBeouf e Ellen Burstyn, que interpretam o marido e a mãe de Martha. E, não menos importante, porque a perda e o luto são tabus que precisam ser encarados, e o filme faz isso com sensibilidade, densidade e respeito.


Pieces of a Woman está disponível na Netflix e, embora não seja uma história real, foi inspirado na perda gestacional e no consequente luto vividos pela roteirista, Kata Weber, e pelo diretor, Kornél Mundruczó.


Veja o trailer: