• Cria Para o Mundo

“Permitam que a gente viva o romantismo da paternidade”

Atualizado: Fev 10

Marcos Piangers, que estará em Belo Horizonte no dia 22 para o ‘Especial O Papai é Pop’, falou ao Cria Para o Mundo sobre paternidade ativa e masculinidade tóxica


Foto: Giselle Sauer/Divulgação


Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Neste pedido de Marcos Piangers, feito em entrevista ao Cria Para o Mundo, pode estar o primeiro passo para aproximar os homens da paternidade ativa. Piangers, que é jornalista, escritor e uma das referências brasileiras no assunto, reconhece a existência do "pai de selfie" ou "pai de Facebook", mas não o critica.


Para os homens que nas redes sociais aparentam ser os pais participativos que na vida real não são, ele acredita que as curtidas e comentários possam ser um despertar. O incentivo virtual, diz ele, pode funcionar para que esse pai passe a ir além da imagem e tenha presença na vida dos filhos.


Por isso, ele pede a nós, mulheres, que deixemos o homem romantizar esse seu papel, ainda que por meio de fotos para Facebook ou Instagram.


"É importante celebrar os momentos bonitos da paternidade para que os outros homens se inspirem e se aproximem, já que a gente está muito longe de ter pais participativos", afirma Piangers.

Mesmo reconhecendo que há mais ausência paterna do que presença, o jornalista tem esperança nos novos tempos. Nesta entrevista, ele diz estar ouvindo pelo mundo que os homens querem mudar e ser diferentes dos pais que tiveram. E aqueles que conseguem ser ativos na paternidade, segundo Piangers, são mais felizes e saudáveis.


O bate papo de Marcos Piangers com o Cria Para o Mundo é um aperitivo para quem é fã do pai da Anita e da Aurora. O jornalista, que já vendeu mais de 300 mil livros do seu best seller O Papai é Pop, chega a Belo Horizonte no dia 22 para um talk show , no Sesc Palladium.


“É um exercício de desconstrução daquela velha imagem de pai e da construção de um sujeito que não está ali só como um coadjuvante da mãe”, explica Piangers sobre o seu talk show.


Serviço

O que é : Talk Show ‘Especial O Papai é Pop’

Quando: 22 de outubro, às 20h

Onde: Sesc Palladium

Ingressos : Entre R$ 60 e R$120 (R$ 90 para quem levar 1k de alimento não perecível)

Mais informações, acesse especialopapaiepop.com.br.


Confira abaixo a entrevista:


Foto: Fábio_Jr._Severo/Divulgação


Cria para o Mundo: O que é ser um bom pai nos dias de hoje?


Marcos Piangers: Não é de hoje que um bom pai é aquele que participa da formação dos seus filhos e está próximo dele como um mentor, um tutor, um cuidador. Um pai que se enxerga como parte integrante da família e não apenas como um provedor ou um alguém que vai chegar em casa, pagar as contas e cuidar da própria vida.


A gente tem algum vestígio cultural deste homem que é um pouco mais distante da família. E isso eu acredito que tenha a ver com as nossas frustrações, nossos problemas como homem. Morremos 10 anos antes da mulher, suicidamos mais, temos mais depressão, falamos menos dos sentimentos, expressamos menos nossos afetos, cultivamos menos as nossas relações e vamos pouco ao médico.


Então, a gente tem uma construção masculina que é um pouco autodestrutiva e que a aproximação dos filhos e da família pode equilibrar, pode fazer com que a gente entenda que somos cuidadores. Ao entendermos que somos cuidadores, passamos a nos cuidar também.

Cria para o Mundo: E qual o impacto da paternidade ativa na construção deste homem?


Marcos Piangers: Alguns estudos científicos têm apontado que o homem que cuida, que participa, que está perto da família é mais saudável. Os homens casados vivem mais que os homens solteiros (apesar das piadinhas que vão dizer por aí) . Os casados relatam mais felicidade ao longo da vida do que os solteiros. Quando o homem se aproxima da família, dos filhos, da esposa, de um relacionamento monogâmico, é uma chance de a gente reconstruir isso que a gente chama de “ser homem”, e buscar ser um pai melhor.


O grande desafio do nosso tempo é a falta de tempo. A nossa geração está sempre correndo, sempre produzindo, sempre precisando de dinheiro, de se atualizar, de trabalhar, de estudar e pegando muito trânsito. Então, essa falta de tempo nos afasta dos nossos filhos. Esse é um desafio de o pai conseguir estar perto da família, participando das questões da escola, da saúde do filho, e ainda ter tempo de qualidade exclusivo com o filho para conversar e conhecê-lo, e ao mesmo tempo viver. É realmente uma sociedade obcecada por estar sempre ocupada. E isso é um desafio de quem precisa de tempo para criar seus filhos.


Cria para o Mundo: Depois da chegada dos filhos, como manter a relação a dois?


Marcos Piangers: Eu e minha esposa sempre entendemos que é importante ter o nosso momento. Sempre nos preocupamos em acostumar nossas filhas a dormir cedo para que pudéssemos ter o nosso horário para conversar, tomar um vinho, ficar junto. E a gente sempre buscou a família para nos auxiliar. Durante os 11 anos que moramos em Porto Alegre, longe da família, sempre demos um jeito para ter o nosso momento, a nossa conversa. Isso é fundamental para o casal.


Foto: Lauro Maeda/Divulgação

Cria para o Mundo: Muitas mulheres reclamam que, ainda que estejam ao

seu lado, muitos homens estão presentes só fisicamente na criação dos filhos. Como romper com o modelo de paternidade que não é totalmente ausente mas também não é presente?


Marcos Piangers: Isso não é um modelo de paternidade, isso é um modelo de masculinidade. Estamos falando de um homem que é mais caladão, mais sério, não sorri, não expressa seus sentimentos, não cultiva afetos dentro da família. Esse homem é um vestígio cultural e uma inspiração antiga nossa. Quando olhamos para um homem típico, já imaginamos essa pessoa que se constrói do ponto de vista antagônico à sensibilidade feminina.


Se o homem fala sobre os seus sentimentos e é muito conversador, ele é considerado menos másculo. Isso é um problema porque é importante a gente conversar, expressar o que sentimos, dar risada, conversar com a nossa esposa, nossos filhos. É importante sermos felizes no ambiente da família e não só quando estamos bebendo ou jogando bola com os amigos.


Essa é uma visão do homem que atrapalha a paternidade e não só ela. Atrapalha a saúde, as relações de amizade. Há homens que jogam bola há mais de 20 anos com os “brothers” e até hoje não sabem que o 'brother' tem filho. Nós não falamos com os nossos amigos sobre as coisas mais importantes da vida, e isso é um "problemasso".

Uma pesquisa sobre felicidade, a mais extensa já feita com a humanidade, acompanhou por 40 anos centenas de homens para entender o que é a felicidade para eles quando chegam no final da vida. E foi constatado que os homens que têm os maiores índices de felicidade são aqueles com mais laços afetivos, mais amigos, mais família, mais gente para conversar. E isso é o fator número um de uma vida feliz. O homem que é mais calado, recluso, mais rude, vai perder isso. Vai morrer antes e vai ter uma vida mais infeliz.



Cria para o Mundo: O homem está preparado para a mãe que exige a divisão de tarefas na criação dos filhos?


Marcos Piangers: Tenho pena do homem que não estiver preparado. É um trauma muito grande. Do ponto de vista desse homem, ele tem uma inspiração masculina bem distante da família, da esposa, sem cuidar da casa. Ele tem uma referência, talvez o próprio pai, ou um incentivo da mãe de não participar. É a mãe que lava toda a louça, toda a roupa. Então, tudo que ele sabe sobre ser gente é não participar das questões da casa.


Foto: Giselle Sauer/Divulgação

Aí vem a esposa e diz que ele tem que participar. Ele simplesmente não entende. Dá um tilt na cabeça dessa cara. É importante que a gente gradativamente converse sobre esses assuntos para quebrar essa visão antiga, porque hoje 49% dos lares brasileiros já são sustentados por mulheres.


Esse homem que não está preparado fica tremendamente ressentido desse mundo ter mudado, de as mulheres estarem trabalhando, ganhando dinheiro e sustentando a casa. Ele não entende quem ele é, tem uma dificuldade muito grande para lidar com esse desconforto, ele está deslocado daquilo que ele considera uma vida correta, porque foi isso que ele aprendeu durante toda a sua formação.


É com esse cara que a gente tem que conversar sem violência, sem dizer que ele é um idiota, sem diminuí-lo. Porque o cara simplesmente se formou daquela forma. Ele recebeu de filme, livro, seriado, da família, inspiração de publicidade. Agora, para ele ser feliz, a gente precisa reorganizar as coisas.


Cria para o Mundo: Muitos casais procuram equilibrar as divisões de tarefas. Sabemos que é necessário a mulher abandonar a ideia de que dá conta de tudo para dar espaço ao homem. Mas por outro lado, quando este pai não está acostumado com essa divisão, a mulher enfrenta o “ter que pedir”, o que contribui para a sua exaustão mental. Como um casal pode se alinhar nisso?


Marcos Piangers: O primeiro passo é, no início do relacionamento, deixar isso bem claro. Porque vai ser um problemasso lá na frente se você quiser um marido participativo e ele tiver uma formação completamente diferente. Você tem uma visão de mundo, uma crença num sistema social, e ele tem uma outra visão. É como se ele fosse de outro planeta. Muitas vezes é difícil para os homens entender essas coisas, assim como é difícil para as mulheres entender o mundo masculino.


Por isso, desde o início isso tem que ficar claro. Acontece de alguns homens se transformarem com conversa. Mas a esmagadora maioria, não só de homens, mas dos seres humanos, só muda com a dor.

Alguns burros mudam o caminho só de ver a vara de quem está conduzindo, outros precisam levar palmada, e tem ainda outros burros que têm que sofrer na carne, na pele, rasgar no couro. Este vai sofrer mais para passar pela transformação.

Feliz o sábio que se transforma só de ver a vara, de perceber a possibilidade do sofrimento. Ele analisa a situação e se transforma em um homem melhor, um marido melhor. O mesmo vale para as mulheres. Todo ser humano tem dificuldade de se transformar.


Alguns sábios conseguem mudar apenas entendendo o sistema, outros precisam sofrer. A gente vê o ser humano aceitando a transformação normalmente no luto, na doença grave, quando perde alguém que ama, no divórcio. Aí começa a repensar a vida. Mas, se puder se transformar sem sofrimento, é melhor.


Foto: Giselle Sauer/Divulgação



Cria para o Mundo: É muito difícil para o homem romper com a masculinidade tóxica (tão enraizada na nossa cultura) e se tornar diferente do pai que o criou?


Marcos Piangers: Quando o homem percebe que a criação que recebeu foi tóxica, foi desagradável, foi uma criação que não fortaleceu laços de afeto com o próprio pai, me parece – e tenho ouvido muito isso no mundo todo – que esse cara decide fazer diferente.


Então, se o pai era grosseiro e ele sentiu esse rompimento de laços, essa frustração de não ter um pai presente e amoroso, quando vira pai ele diz: 'vou fazer diferente'. Tenho ouvido muito esse discurso.

Mesmo sem inspiração, eu vejo muitos pais hoje dizendo 'vou ser carinhoso, participativo, vou ser o pai que meu pai não foi'. Eu acho isso um pequeno milagre, um sopro de esperança no coração da sociedade. A gente pode mesmo mudar as coisas, sem muita referência, muitas vezes sem inspiração, mas com o aprendizado "do que não fazer."

Cria para o Mundo: Os smartphones estão aumentando a distância entre pais e filhos?


Marcos Piangers: O grande drama da nossa geração são os smartphones. Fomos apresentados a essa tecnologia há pouco tempo e me parece que está todo mundo deslumbrado ainda com o uso dela. Algumas pessoas já perceberam que ela as deixa menos produtivas, mais deprimidas. Muitos estudos têm mostrado essa geração de adolescentes mais deprimida, mais solitária, mais suicida. Esses jovens estão expostos a uma série de sistemas, algoritmos desenvolvidos, para qual a nossa fisiologia não está preparada. Não está preparada para lidar com a ansiedade de postar algo na internet e esperar comentário, curtidas, alimentar seguidores.


Milênios da nossa formação biológica e fisiológica se passaram sem que a gente tivesse esse tipo de relação com uma máquina. Esse sistemas nos viciam, nos afastam da família e nos deixam deprimidos. Então, ao entender isso, você pode usar menos os sistemas que te deprimem, como as redes sociais, e mais aqueles que te deixam felizes, como aplicativos de idiomas, exercícios físicos, corrida, de meditação... A tecnologia é fantástica, para o bem ou para o mal. Vai depender da forma como você a usa.


Cria para o Mundo: As redes sociais estão incentivando uma falsa paternidade ativa, do tipo “pai de Facebook"?


Marcos Piangers: Tem o pai de selfie, sim. Mas é importante a gente lembrar que nós homens estamos um pouco atrasados em relação às mulheres. Permitam que a gente, por favor, viva o romantismo da paternidade para depois desromantizá-la.


Vocês viveram isso nos anos 50: a família americana, a mãe que cuida dos filhos. E foi uma idealização romântica da mulher no pós-guerra e em um começo de século atribulado. O sonho da mulher era ficar em casa, cuidando dos filhos. Era uma idealização, embora nem todas as mulheres se encaixassem nesse modelo. Era um romantismo e isso nos ajudou como família.

Acho que é importante celebrar os momentos bonitos da paternidade para que os outros homens se inspirem se aproximem. Porque a gente está muito longe de ter pais participativos, então, qualquer incentivo ou moeda social, mesmo que seja uma curtida no Facebook ou Instagram, já ajuda o cara a estar mais perto dos filhos. E, no momento em que ele está mais perto, talvez desperte para o mundo genuíno e não apenas de imagem, de fachada. Essa é a minha esperança.