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Pegue as crianças e vá viajar

Partir para o mundo com bebês e crianças certamente é mais cansativo, mas viajar com filhos pode ser uma experiência enriquecedora que toda a família levará para a vida

Por Nathalia Ilovatte


No clássico de fim de ano Esqueceram de Mim, a família do protagonista Kevin McCallister se reúne para viajar para a Flórida, e as 24 horas que antecedem o embarque são uma loucura. Irmãos brigando, criança vomitando, xixi na cama, uma pilha de documentos para organizar, disputa pelo banheiro, atraso, correria e uma van para levar todo o clã ao aeroporto. A confusão é tamanha que o caçula dos McCallister, interpretado por Macaulay Culkin, acaba esquecido no sótão de casa.


Na vida real, viajar com os filhos tem um quê de Esqueceram de Mim. Se antes da chegada do primogênito as viagens eram a dois e permeadas por momentos de descanso e contemplação, depois dos filhos - e especialmente enquanto eles ainda são pequenos - quebrar a rotina e conhecer o mundo fica um tanto menos relaxante.


No meio da lista mental de afazeres pré-viagem, pais e mães se pegam fazendo perguntas como: “será que vende dipirona em Curaçao?”, ou ainda “como se fala fórmula infantil em espanhol?”. São tantos detalhes para lembrar e para fazer caber na mala, que só os preparativos já cansam.


Mas ficar em casa também cansa. E mesmo com tantas responsabilidades para tornar a experiência das crianças a melhor e mais saudável possível, viajar com elas vale a pena. E como vale!

A jornalista Cristina Barroca e o marido Alexandre Amantea viajam com a filha, Malu, de 4 anos, desde que ela tinha 3 meses. As primeiras viagens da vida da pequena aconteceram dentro de Minas Gerais, mas com 11 meses Malu mudou de continente e foi conhecer a Flórida, nos Estados Unidos. De lá para cá, a lista de destinos cresceu um bocado: Colômbia, França, Bélgica, República Tcheca, Áustria, Hungria, Holanda e Inglaterra já são países conhecidos por ela.


Malu começou a viajar aos 3 meses. Hoje, com 4 anos, tem uma lista enorme de países por onde passou

"Não consigo me imaginar em uma viagem sem a Malu", conta Cristina. "Assim como proporcionamos essa oportunidade a ela, ela nos proporciona momentos que não teríamos se ela não estivesse inclusa no roteiro, como um piquenique no Jardim de Luxemburgo (em Paris), ou uma visita ao Museu de História Natural, em Viena. Eu jamais descobriria um verdadeiro parque de diversões dentro de uma loja de brinquedos se não fosse pela Malu, jamais iria ao Museu da Criança no Castelo de Schonbrunn (em Viena) e me vestiria com roupas do século 17, nem conheceria brincadeiras e brinquedos típicos da época se não estivesse com nossa pequena".


Cristina conta que viajar com filhos é uma experiência rica porque as crianças ensinam a perceber pequenos detalhes que já nos acostumamos a ignorar. Foi com Malu que a jornalista aprendeu que a linguagem da criança é universal e sem fronteiras, em uma viagem em que a filha fez amizade com duas meninas sírias refugiadas. "Elas brincaram de roda, bate-mão, pega-pega, sem trocarem nenhuma palavra na mesma língua. Cada uma se pronunciando em sua língua nativa. Até choraram para se despedir", recorda.

Diante de experiências como essa, é inegável que pegar os filhos e as malas, e partir para o mundo faz bem para os pais e também para os pequenos. "Criar uma criança com essa noção de que o mundo é gigante e cabem nele todas as diferenças, e que, ainda assim, podemos conviver bem com elas é demais. Isso é muito incrível", comenta Cristina.


Cristina, Malu e Alexandre em Versalhes, na França

Viajar faz bem para todo mundo


Essa não é só a opinião de uma mãe viajante: os benefícios de viajar são comprovados. Uma pesquisa realizada pela Student & Youth Travel Association com professores de crianças e jovens dos Estados Unidos concluiu que crianças que viajam apresentam melhores desempenhos na escola e um maior desenvolvimento pessoal. Elas ficam mais desenvoltas, topam encarar situações novas e desconhecidas com mais facilidade, e lidam melhor com pessoas diferentes delas. Os professores entrevistados na pesquisa também pontuaram que viajar é uma maneira muito eficaz de fazer uma criança aprender, e que crianças e jovens que viajam mais demonstram um interesse maior pelos estudos e por avançar para uma graduação.


Mas não é só isso. Viajar em família é uma experiência que vale a pena até para os bebês. De acordo com a psicóloga clínica e infantil Raquel Masini, mãe da Sofia, de 9 anos, e da Helena, de 4 anos, bebês e crianças pequenas também curtem esses períodos fora da rotina.


“Se a família viaja para um lugar que a criança também possa aproveitar, mesmo que depois ela não se lembre, vai guardar a memória afetiva desse momento”, explica a especialista.

Já para as crianças maiores, as viagens proporcionam oportunidades de entrar em contato com diferentes culturas, modos de vida, sotaques, gastronomias… “Mesmo que seja dentro do Brasil, a experiência pode ser muito rica”, garante a psicóloga.


Acostumada a viajar com as filhas, Raquel conta que se preocupa muito em seguir a rotina e as regras de alimentação. “É claro que se é uma viagem curta, um feriado ou fim de semana, não tem como manter uma rotina regular. Mas quando a viagem é de 10, 15 dias, acho muito importante manter a rotina”, afirma ela, dando o exemplo das viagens ao litoral que faz com as meninas. “Vamos à praia de manhã, depois voltamos para casa, almoçamos, descansamos e voltamos à praia no fim do dia. Tem hora pro passeio, pro jantar, pra dormir. Acho que isso é importante para o desenvolvimento da criança”.


Crianças podem participar desde os preparativos


Outro ponto importante para tornar a experiência da viagem em família mais saudável é tomar cuidado para que a ansiedade pelo evento não tome grandes proporções. “Nós, pais, ficamos ansiosos com o desconhecido, nos preocupamos se o planejamento vai dar certo, se vai estar tudo ok. Não tem como não transmitir isso para a criança. Mas tem que tentar passar o mínimo”, recomenda Raquel. “O que pode ajudar é não contar com tanta antecedência e não falar de problemas que podem surgir e que são questões de adultos, que crianças não precisam saber”.


Cristina e Malu vestida com roupas de época no castelo de Schonbrunn, em Viena

Uma boa maneira de trabalhar a questão com as crianças é envolvê-las nos preparativos de maneira lúdica. A jornalista Cristina Barroca começa meses antes a mostrar a Malu alguns filmes e livros que tenham a ver com o destino, e assim vai apresentando histórias sobre os locais que a família vai visitar. "Vimos Bailarina e Ratatouille, e contei a ela sobre a Imperatriz Sissi e Mozart, antes de viajarmos para a Áustria. Apresentei Van Gogh de forma lúdica antes de irmos para a Holanda, contei que os Smurfs foram criados na Bélgica... Busco referências do mundo dela antes da viagem", explica a mãe.


Perrengues são parte da experiência


Um dos motivos para postergar viagens com os filhos é o medo do que pode dar errado. Mas, se serve de incentivo, além de incidentes e percalços poderem acontecer até dentro de casa, qualquer lugar do mundo tem famílias e crianças, portanto, não há de ser impossível encontrar pediatra, antitérmicos ou um band-aid da princesa Elsa.


No caso de Malu, foi preciso um pouco mais do que isso para resolver um "probleminha" que rolou durante a passagem da família por Delft, na Holanda. Lutando contra o sono, ela pulava em um banco de concreto quando caiu para trás e bateu a cabeça em uma borda da parede.

"Nos assustamos muito e, no ímpeto, eu tirei ela do vão em que se enfiou ao cair e coloquei no colo do pai. Comecei a perguntar onde ela sentia dor e ela disse que na cabeça. Quando eu olhei para as mãos do pai dela, era puro sangue. A cabeça dela tinha muito sangue", recorda Cristina. "Comecei a estancar com guardanapos que tinha na bolsa, deitei ela no carrinho e meu marido saiu para pedir ajuda na primeira loja que vimos. A moça chamou uma ambulância. Nesse momento, Malu começou a fechar os olhos, ao mesmo tempo que gritava pedindo para não deixá-la morrer. Foi desesperador".


A ambulância prestou os primeiros atendimentos, mas a família precisou pegar um táxi para o hospital. A conta foi uma pequena fortuna em euros, mas pelo menos o seguro-saúde os reembolsou. Por essas e outras, Cristina recomenda que a família faça um seguro, qualquer que seja o destino. Ele deve garantir atendimento médico e hospitalar.

Malu e Cristina curtindo férias na Colômbia: experiências são enriquecedoras para toda a família

Dicas para viajar com filhos


Outra sugestão da mãe viajante é levar um carrinho para a criança descansar. Mesmo que no dia a dia esse item não seja mais usado, em uma viagem pode ser necessário, já que a família vai passar muito tempo batendo perna por lugares turísticos, e se a criança não aguentar o ritmo vai ficar difícil curtir tudo com ela no colo.


Cristina também recomenda dar alguma distração nos passeios menos interessantes para crianças. "Dentro dos museus mais tediosos para ela ofereço fones de ouvido e o tablet, para que ela possa se distrair enquanto temos nosso momento de adulto", conta a mãe, que todos os dias leva a filha a algum parquinho, na saída e na volta para o hotel, além de incluir no roteiro programas pensados para Malu, como piquenique e visita a museus interativos.

Viajando, Malu conhece outras culturas e aprende a conviver com as diferenças

Até nos momentos corriqueiros a jornalista dá um jeito de incluir a filha e de tornar a experiência mais legal para ela. "Gostamos de dar liberdade a ela para se comunicar e se sentir útil. Às vezes deixamos que ela pague no caixa sozinha por algo que quis comprar e observamos de longe. Ensinamos como pedir a conta em outra língua e ela pede", diz Cristina. "Ela é super companheira de viagem. Topa tudo e adora experimentar comidas diferente, então isso ajuda bastante".