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Para criar crianças cidadãs

Atualizado: Jan 28

Preocupados em formar pessoas engajadas e com consciência social, pais trazem para o cotidiano das crianças temas como machismo, racismo e homofobia

Foto: Alexas_Fotos/ Pixabay

Por Nathalia Ilovatte


Paulo Freire, o educador e filósofo brasileiro que é referência em todo o mundo, dizia que a educação não transforma o mundo. Ela pode, sim, transformar pessoas, e são as pessoas que transformam o mundo.


Em tempos de crescente abismo social, homofobia, violência de gênero e racismo, muitos pais reconhecem a importância de educar filhos para além do "por favor", "com licença" e "obrigado". Entender a educação como algo que é muito mais do que transmitir normas de etiqueta, e que engloba a formação de cidadãos socialmente conscientes, é fundamental se queremos construir uma sociedade menos violenta e desigual.


Pensando nisso, a engenheira e terapeuta Kika Moreira, mãe de Thaís, de 4 anos, procura ajudar a filha a desenvolver a capacidade analítica e a empatia. "Aprendemos muitas coisas juntas. Já mudei de pensamento por questões que ela mesma levantou", diz a mãe, que a partir de experiências do cotidiano usa o diálogo para propor reflexões à pequena.


Kika conta que, apesar da pouca idade, Thaís já demonstra na prática que compreende os questionamentos suscitados. Recentemente, a caminho da aula de balé, a menina passou por um morador de rua e ficou preocupada com o fato do homem possivelmente não ter casa, e por isso ter que dormir na rua. Reparou que ele estava descalço, com pedaços de pano amarrados nos pés, e decidiu que pediria ao avô que desse os chinelos dele para o rapaz.

Kika com a filha Thaís: educação para a empatia

Chegando em casa, tentou comprar o par de calçados com as moedinhas que tinha guardadas. "Ela disse ao avô que o moço já estava triste na rua, não tinha casa, poderia ser mordido por um lobo enquanto dormia, que não tinha nem chinelo e tinha feito um sapato de pano que poderia molhar, sujar e rasgar. Falou que achava certo todo mundo ter casa e chinelo".


O avô, emocionado, doou o calçado, e a menina saiu apressada para levar o presente, junto com alimentos, água e as moedinhas que havia juntado. O homem em situação de rua recebeu o carinho de Thaís com os olhos cheios d’água. "Depois que nos despedimos dele, eu disse a ela que estava muito orgulhosa do que tinha feito, falei do quanto ela é inteligente, pensa nas pessoas que precisam de ajuda, tem bom coração, e de tudo de bom que ela fez ao moço", lembra a mãe.


Atitudes dos pais também contam


Mais do que pela conversa, os pais ensinam pelo exemplo, já que sempre acabam servindo de modelo às crianças. É por isso que na casa da jornalista Ana Paula Pedrosa não basta falar sobre feminismo e igualdade. As tarefas domésticas são compartilhadas por todos, sem distinções de gênero, para que Beatriz, de 11 anos, e Helena, de 4 anos, cresçam vendo na prática aquilo que aprendem nas conversas em família. Ana Paula também envolve as filhas em projetos e trabalhos voluntários, como o que desenvolve na Fundação Sara, que presta assistência a crianças e adolescentes com câncer.

Ana Paula coloca em prática o que ensina às filhas, Beatriz e Helena

Tudo é introduzido no cotidiano das meninas com leveza e naturalidade. Ana Paula recorda a ocasião em que, ao reunir as duas para o hábito diário de escrever a maior alegria do dia, Helena, a caçula, contou que o ponto alto foi quando elas ofereceram água aos profissionais que estavam limpando a rua. "Era um dia muito quente e entramos em uma lanchonete para comprar água. Como eles estavam varrendo a calçada em frente, sugeri comprarmos para eles também. Ela viu o quanto ficaram felizes", lembra a mãe.


O intuito de atitudes como essa, além de ajudar pessoas, é ensinar algo valioso às filhas. "O que eu quero é que elas enxerguem além da bolha e usem o privilégio que têm para fazer alguma coisa boa pelos outros", explica.


Diálogos francos podem ser desafiadores para os pais


Oferecer aos filhos uma educação questionadora, reflexiva e com canal aberto para o diálogo pode ser lindo na teoria, mas a prática tem seus pormenores. Conforme as crianças crescem, e as perguntas se tornam mais complexas, mães e pais acabam tendo que encarar assuntos com os quais ainda não aprenderam a lidar. E, se isso acontecer, tudo bem! Todo mundo aprende e cresce junto.

Marcelo e a esposa, Loren, têm como prioridade o respeito à diversidade

O professor de língua portuguesa e um dos idealizadores do podcast Entre Fraldas Marcelo Cafiero é pai de Alice e Helena, de 3 anos. Ele conta que entrar em contato com questões que não estão bem resolvidas é um dos grandes desafios de criar filhos questionadores e conscientes. "Às vezes é mais fácil explicar por que tem uma pessoa pobre na rua do que os motivos que levam alguém a se prostituir, porque a sexualidade é um tabu. Acho que transformarmos nós mesmos é uma das coisas mais difíceis da educação dos filhos", explica.


Ele considera importante não deixar as crianças sem respostas, nem fugir de alguns temas, e afirma que esse foi um erro comum nas décadas passadas.


"Acho que as gerações anteriores pecaram muito em evitar falar sobre determinadas questões. Eu vejo muitos colegas meus falando ‘ah, lá em casa a gente não vivia preconceito, minha mãe tratava todo mundo igual’, mas ninguém conversava sobre racismo. E eu vejo que isso faz diferença", afirma.

Com essa preocupação em mente, Marcelo busca escolas que tenham a diversidade e a inclusão como uma das prioridades, especialmente porque Helena é uma criança neurotípica, e a irmã gêmea, Alice, tem paralisia cerebral. "Uma das coisas mais importantes pra gente, também pela nossa realidade, é a convivência com a diversidade", diz. "É a partir dessa convivência que a Helena vai falar pra gente que a Alice não fala, a Alice não anda… E a gente vai explicar por que, e vai trazer os coleguinhas de diversas realidades pra gente conversar com eles".


O respeito ao próximo é uma das pautas mais importantes para a família. "A gente vê que nessa idade as crianças são muito competitivas, querem ver quem é o mais rápido, o mais forte... E isso não custa a daqui a pouco ser quem é o mais bonito, e a partir disso começarem a adotar padrões. Então, acho que essa convivência com a diversidade é importante para surgirem os assuntos e a gente começar a abordá-los, para dizer que as diferenças existem, que a gente tem que compreender como elas são encaradas socialmente e lutar contra o preconceito", explica o pai.


Quando os questionamentos partem deles


O caminho escolhido por Marcelo é o que a doutora em ciências sociais e professora de antropologia e sociologia da ESPM Tatiana Amêndola tem como ideal. Nele, as abordagens são feitas naturalmente, a partir de perguntas trazidas pelos filhos. "Mas, para isso acontecer, a criança tem que ter em casa um ambiente em que as pessoas conversem normalmente sobre essas questões e dêem liberdade para ela participar, o que eu vejo que acontece cada vez menos", diz.

Tatiana e a filha, Alice, gravando o podcast Sociologia para Crianças

Tatiana ressalta a importância de estimular a criança a conversar, incluí-la nos papos da família, além de transitar pela cidade e conviver com quem é diferente. É essa combinação que vai fazer os assuntos surgirem. E, quando alguma pergunta complexa vier, como "por que essa pessoa não tem uma casa?” ou, citando o exemplo de Marcelo, “por que as pessoas se prostituem?", não

fugir do assunto, nem partir para explicações simplistas. "Percebo que muita gente opta por não responder, ou por dar respostas fáceis, que muitas vezes deturpam e prejudicam nosso pensamento crítico, do tipo 'a pessoa mora na rua porque não trabalha'. E isso me preocupa muito, porque quando a gente reproduz essas respostas fáceis, ou ignora essas questões, está contribuindo para a manutenção do estado em que a sociedade está nesse exato momento. E o caminho da sociedade agora não me agrada, acho que a gente precisa de transformação", diz a professora.


Mãe de Alice, de 5 anos, Tatiana também encara assuntos complexos, mas profundamente necessários, e procura explicá-los com leveza e em linguagem acessível à filha. Dessas conversas surgiu até um podcast, o Sociologia Para Crianças, disponível no Spotify. "Eu comecei a pensar sobre como é importante formar as crianças dentro de um pensamento crítico, como é importante tratar de questões que vão além do que as mídias e os canais do YouTube nos impõem", explica Tatiana. "As crianças veem vídeos de unboxing, de slime, e isso é legal, mas até que ponto basta? A gente precisa colocar outras questões para criar seres pensantes".


A primeira temporada do podcast tem 13 episódios curtos, de 5 a 10 minutos, e cada um explica um conceito. "O que é capitalismo?", "O que é democracia?" e "O que é religião?" são alguns deles. A próxima temporada, que já está sendo preparada, vai propor para as crianças algumas reflexões a partir de filmes infantis, sempre em um papo divertido entre mãe e filha.


A importância de enxergar o mundo com o olhar do outro


Em uma famosa palestra no evento TED Talk, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie fala sobre como as histórias que ouvimos se tornam nossas referências de mundo, especialmente quando somos crianças. Em um papo de 18 minutos que fez tanto sucesso que virou livro, Chimamanda conta que cresceu em um campus universitário na Nigéria, em uma família de classe média que tinha empregados domésticos, um deles chamado Fide. A mãe falava a Chimamanda, então com 8 anos, que Fide morava em um vilarejo muito pobre. Cada vez que Chimamanda não queria comer, a mãe alarmava: “Termine seu jantar! Você não sabe que pessoas como Fide não têm comida em casa?”. Quando as roupas paravam de servir, eram doadas para a vila de Fide. Cestas básicas também eram entregues a ele para que levasse aos parentes.


Na palestra, Chimamanda recorda que sentia muita pena de pessoas como Fide. Um dia, a família toda foi visitar o vilarejo onde o rapaz morava. Chegando lá, a mãe mostrou um lindo cesto estampado, de ráfia seca, feito pelo irmão dele. Chimamanda ficou espantada.


"Nunca havia pensado que alguém na família de Fide pudesse criar alguma coisa", conta. "Tudo que eu tinha ouvido sobre eles era como eram pobres, assim, havia se tornado impossível para mim vê-los como alguma coisa além de pobres".

O intuito da fala da escritora, chamada de "O perigo uma história única", é mostrar a importância de não se limitar a uma só visão de mundo, formada a partir do próprio ponto de vista.

Julia apresentando Arthur ao caçula Thomás: o objetivo é criar filhos para o mundo

Ciente de que é preciso crescer com outras referências além de si mesmo, a psicóloga Julia Pimenta da Rocha, mãe de Arthur, de 6 anos, e do recém-nascido Thomás, sempre teve em mente que criaria os filhos para o mundo, e faria deles pessoas capazes de enxergar a vida para além da própria realidade. Por isso, mantém canal aberto com o mais velho para todo o tipo de pergunta e assunto: homoafetividade, racismo, preconceito, fé. Os papos surgem a partir de vivências do pequeno. "O objetivo é, acima de tudo, furar a bolha que as crianças tendem a ficar", afirma a mãe. "É mostrar que existem várias formas de existir no mundo, para que ele cresça entendendo que isso é essencial para que possamos ter criaturas capazes de conviver e respeitar o diferente".

Ocupar espaços públicos para furar a bolha


A cientista social Tatiana Amêndola defende que, para a criança entender o que é o mundo, não basta a teoria, é preciso mostrá-lo na prática. "Eu acho super complicado quando a criança só frequenta o próprio bairro, não vê crianças de outras camadas sociais, só anda na rua dentro do carro, não transita pelo espaço público, porque assim não aprende que existe um mundo", reflete.


Tatiana não vê problema em passear em ambientes controlados, como shopping centers. Segundo ela, isso só se torna nocivo para a formação da criança quando essa experiência exclui todas as outras. "Acho que o mais importante é o trânsito. Frequentar shoppings não seria ruim se as crianças transitassem mais", diz, ponderando que é importante não privar a criança da experiência em grandes centros de compras. "Também não acho bom quando a criança simplesmente não vai a shopping, porque acaba se transformando em um adulto que não consegue compreender a dinâmica do mercado, e critica essa dinâmica de modo a fugir dela".


O gestor ambiental e membro do Movimento Nossa BH Guilherme Tampieri frisa a importância da convivência no espaço público para a formação cidadã das crianças. "Se a gente tem uma cultura de usar o espaço público desde cedo, essa relação vai sendo construída ao longo da vida, e quando adulto a gente interpreta o espaço público de outra forma, não como espaço de passagem, mas de convivência, de possibilidades, de relações sociais, culturais e afetivas", explica. "Com isso a gente se apropria do espaço público, e reclama por mais".


O gestor ambiental pontua que ocupar verdadeiramente os espaços não se resume a frequentar pracinhas, é preciso ir e vir, fazer piquenique, olhar ao redor, ter liberdade e segurança para escolher se vai à escola a pé, de bicicleta, de patinete.

Mas quase sempre essa escolha não existe, já que as ruas apresentam uma série de riscos à segurança dos pedestres, em especial das crianças. Guilherme comenta que Belo Horizonte ainda precisa melhorar muito em termos de acessibilidade, tanto na segurança das vias quanto na eficiência do transporte. "Hoje BH carece de espaço público. O automóvel consome boa parte do nosso espaço, seja na passagem ou no estacionamento, e a gente precisa entender que usar o espaço público de uma outra forma é democratizá-lo, universalizar seu uso", diz.


"Hoje quem tem mais acesso aos lugares em BH é quem tem automóvel, e essa parcela da população, especialmente nesse momento de empobrecimento do nosso país, está cada vez menor. As pessoas estão tendo menos acesso aos espaços públicos, e isso passa também pelas crianças".

Como solução para o problema, o gestor ambiental propõe o engajamento em duas direções simultâneas. “A gente precisa pensar em como descentralizar as ofertas de lazer e outros serviços e oportunidades, para que as pessoas possam percorrer distâncias menores. Mas, se elas quiserem se deslocar a lugares mais distantes, a gente tem que ter um sistema de transporte coletivo integrado à mobilidade por bicicleta, por exemplo, que permita que as pessoas acessem a cidade”, afirma o especialista. “A mobilidade deve ser um elemento de inclusão social para que as pessoas possam usar os espaços públicos. Mas, hoje em dia, o que a gente tem em Belo Horizonte é o contrário, a mobilidade exclui as pessoas do direito que elas têm”.


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