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"Chutei o balde e pedi demissão"

Atualizado: 7 de Out de 2019


"Realização é ter as coisas que você valoriza", afirma Sandra

Por Nathalia Ilovatte


A jornalista Sandra Camilo de Carvalho trabalhava como repórter quando engravidou da primeira filha, Ana Sofia, hoje com 10 anos. A chegada da bebê foi inesperada, mas muito bem recebida. “Mudou minha vida, mudou meu jeito de ver o mundo, mas continuei trabalhando naquela vida louca de jornalista”, conta.

A maternidade não tornou Sandra uma profissional menos dedicada, mas com os cuidados que a filha demandava, levar trabalho para casa deixou de ser possível, e assumir compromissos fora do turno, também. “Antes, o editor falava que eu tinha ir lá na divisa com Goiás e eu ia. Não tinha nem mala de roupa, mas aceitava e ficava lá uma semana”, diz.


Depois que Ana Sofia nasceu, a profissional precisou recusar dois pedidos dos chefes. “Eu não quis viajar porque estava amamentando. E, numa outra ocasião, eu tinha que chegar mais cedo para fazer um treinamento e queriam que eu trabalhasse das 11 da manhã às 11 da noite. Eu me recusei”, conta.


Como consequência, Sandra perdeu oportunidades de promoção. “Apareceu uma vaga, eu sabia fazer todo o trabalho, quando a pessoa tirava férias era eu que assumia o cargo. Mas colocaram alguém de outra área na vaga”, relata. “Eu fui questionar e falaram: ‘Você não veste a camisa’. Eu expliquei que estava amamentando, e ouvi em resposta a frase: ‘jornalista não amamenta’. Foi uma mulher mãe que falou”.


Preocupada com as contas, Sandra continuou na empresa até arrumar um emprego em outro veículo, em um cargo menor, por um salário mais baixo, mas com uma carga horária mais leve e sem escala de plantão. Foi quando engravidou de Cauã, hoje com 6 anos. “Eu ainda pensava muito na questão da grana, do conforto, tinha uma mentalidade muito consumista. Eu não queria sair do emprego para não baixar o padrão”, recorda, “Aí, fui para esse jornal mais tranquilo e tive meu segundo filho. Tive uma vontade imensa de parar de trabalhar porque não estava dando conta dos dois. Vejo que tem muita gente que trabalha e cuida das crianças com maestria, mas eu não. Eu sou muito perfeccionista e estava sofrendo com isso”.


Até que, com 1 ano e meio, o caçula parou de falar. O menino, que vinha se desenvolvendo dentro das expectativas e já se comunicava falando algumas palavrinhas, regrediu da noite para o dia. Cauã também não atendia quando alguém o chamava. Já ciente do que se passava com o menino, Sandra procurou atendimento especializado e Cauã recebeu o diagnóstico de autismo.


“ Aí eu chutei o balde. Pedi demissão e falei: vamos aprender a viver com menos”.

Sandra conta que sempre teve o sonho de ser mãe e cuidar dos filhos, mas não conseguia fazer isso da maneira que queria porque a dedicação ao trabalho tomava muito tempo. Deixar o emprego, portanto, foi uma maneira de atender esse desejo. “Eu decidi fazer isso pelos dois, e por ele principalmente, porque ele tem uma rotina de terapias de segunda a sexta”, explica a mãe, “Agora, graças a Deus, teve alta da fonoaudiologia depois de 4 anos e meio. Mas ainda tem terapia ocupacional, neuropsicólogo, faz natação…”.


Manter a família somente com o salário do marido fez Sandra repensar suas prioridades. “A maternidade me amadureceu nesse aspecto, de ver as coisas que são realmente importantes. Antes, eu pensava em proporcionar aos meus filhos uma big festa de aniversário em um buffet, uma viagem super cara… Agora a gente faz um bolinho aqui em casa mesmo, faz um piquenique, e coisas muito mais simples mas que são tão prazerosas ou mais do que essa ditadura do consumo”.


Com serenidade e segurança, Sandra afirma que hoje enfim se sente uma mulher realizada. “Eu acho que realização é você ter as coisas que você valoriza. E hoje o que eu valorizo é completamente diferente de 10 anos atrás. Dou muito, muito, muito valor à minha família".

Mas pondera: “Eu não sou aquela mãe que se mata por causa da família, não. Eu crio momentos só meus para dar uma respirada, e eu consigo também dar uma assistência para os meus pais que são idosos”.


Essa transformação permitiu a Sandra uma vida mais leve e sem um fardo carregado pela maioria das mães: a culpa. “Antigamente eu tinha um sentimento de culpa inexplicável que hoje eu não tenho mais. Eu ia trabalhar com culpa, voltava do trabalho com culpa. Eu consegui acabar com isso. Não sinto mais culpa porque tenho consciência de que faço o melhor que eu consigo. Talvez não seja perfeito, mas é o que eu consigo. Eu aprendi com a maturidade que veio da maternidade a me cobrar menos”, conclui.


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“A sensação que tenho às vezes é que não me conheço. Eu não sei que eu sou. Eu sei quem a Flávia mãe é. A Flávia mãe é uma leoa. É uma mãe muito focada, que tenta ser a melhor mãe para os filhos”, explica, “Mas a Flávia pessoa está só o pó, está destruída. Está com muita dificuldade de enterrar os sonhos que ela teve a vida inteira". Leia mais




"Eu achei que não fosse conseguir abandonar minha vida de antes"


“Eu nunca me vi mãe e dona de casa, eu sempre estudei e trabalhei. Eu achei que não fosse conseguir abandonar essa minha vida de antes de ter filho”, explica, “Para mim foi uma transformação muito forte, eu mudei da água para o vinho. E quando eu aceitei isso e abracei a causa, a minha vida começou a fluir diferente. Eu estava brigando comigo mesma e com as coisas que vida insistia em me mostrar". Leia mais



"Prefiro morar sozinha com a minha filha. É uma libertação"


Depois de um puerpério difícil e solitário, a licença maternidade chegou ao fim e Flávia decidiu se separar do marido. "Eu notei que não dava mais para morar junto porque havia um descompasso gigante sobre percepções e divisão de tarefas. Isso sempre foi um grande problema no relacionamento, e se intensificou com a chegada da Larissa”, relata a jornalista. “Pedi a separação”. Leia mais