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O puerpério para os homens

Atualizado: Jan 27

Pais buscam compreender e estudar as mudanças que chegam com os filhos para enfrentar o pós-parto ao lado da mulher. Falta de conhecimento pode gerar conflitos entre casais.


Curso do projeto Homem Paterno aborda puerpério e parto para os pais. Haverá encontro em Belo Horizonte, em fevereiro.

Por Luciane Evans


Numa sociedade que enxerga a mulher como a maior responsável pela criação dos filhos, não é de se estranhar que os homens se sintam mais perdidos do que nunca quando se tornam pais. Vistos há anos como coadjuvantes de uma história que carrega uma visão machista de que "filho é amor de mãe", eles, sem informação, levam um tapa na cara quando o tão temido puerpério bate à porta.


Sem saber o que realmente significa essa explosão de hormônios por qual passa a mulher após o nascimento do bebê, o pai, muitas vezes, se vê sozinho, incompreendido, sem lugar nessa nova configuração familiar e sem ter pra onde correr. E o resultado disso muitos conhecem bem: brigas, irritações, falta de paciência e até o divórcio passa pela cabeça dele e também dela, que se vê sem amparo diante de tantas transformações físicas, emocionais e psíquicas.


Não há entre os especialistas um consenso de quanto tempo pode durar o puerpério. Alguns dizem meses e outros, anos.


"Embora nossa sociedade e os profissionais de saúde em geral foquem sua atenção e cuidados na mãe e no bebê, o homem também vivencia com a chegada do filho uma gama de sentimentos, muitas vezes ambíguos e contraditórios, passando por momentos de insegurança em relação a sua capacidade de cuidar do filho e de enfrentar as transformações que acontecem na sua vida, sobretudo, na relação com sua mulher, que nesse momento volta todo o seu investimento afetivo, cuidados e atenção para o filho", comenta a psicóloga clínica e psicanalista Marina Otoni.


Segundo Marina, também professora e palestrante de temas relacionados à maternidade e à infância, a insegurança que chega para o homem no pós-parto está relacionada à falta de informação sobre o que ocorre com a mulher no período puerperal.


"Ela vivencia oscilações de humor, que alteram seu comportamento de forma significativa, decorrentes não só das alterações hormonais, mas também dos lutos inerentes à vivência da maternidade. Tais mudanças podem provocar o seu afastamento e desinvestimento na relação com seu companheiro, podendo gerar ressentimentos, brigas e conflitos, que poderiam ser evitados se o homem tivesse maior clareza do que se passa com sua mulher nesse período”, enfatiza a psicóloga.

Tiago Koch, fundador do Homem Paterno, diz que conhecimento masculino é a ponte para a empatia


Eles estudam o puerpério


"É um 'ou vai ou racha' para o casal", define o psicólogo Ítalo Mazoni, reconhecendo ser difícil para os homens vivenciar um momento de mudança, como é a chegada de um filho. Como o sistema fortalece a cultura de que a mulher é a detentora do cuidar, o pai "fica no lugar do não saber". "Ele não tem a conexão que a mulher tem com o filho e nem a experiência que a avó tem. Ele precisa compreender, buscar e se afirmar em determinado lugar. Ele terá que achar esse lugar", aponta.

Essa busca citada pelo psicólogo tem sido encarada por homens que não querem ser coadjuvantes e, sim, ativos em todo o processo de criar uma criança. São pais que estão estudando o puerpério para viver a paternidade em sua plenitude.

Uma da propostas é do naturólogo e terapeuta Tiago Koch, idealizador do projeto O Homem Paterno, que leva para homens em todo o Brasil cursos presenciais sobre o parto e puerpério. As aulas são frutos da vontade e necessidade de Tiago de entender mais sobre as mudanças que chegam com os filhos. 


Em Belo Horizonte, esse encontro ocorre pela terceira vez nos dias 7, 8 e 9 de fevereiro.

Tiago Koch tem uma filha de 3 anos e 5 meses, a Iara, e diz que, mesmo com o passar do tempo, ele e a esposa Bruna ainda enxergam no dia a dia alguns traços do puerpério. "Isso já nos mostra o quanto essas transformações são profundas. Elas ocorrem com a mulher de forma indubitável, enquanto que, para os homens, ocorrem à medida em que eles se conectam com a paternidade", compara.


Desde a gestação da sua mulher, Tiago buscou conhecimento sobre esse universo e se deparou com um cenário sem conteúdo voltado para os homens. "Não havia informação e, muitas vezes, me senti sozinho, sem ter com quem falar. Com os meus amigos que não eram pais, na segunda palavra sobre o assunto já íamos para outras questões como futebol, política, mulher. Com aqueles que já eram pais, tinha dificuldades de acessá-los para a busca de conhecimento e para suporte", conta.


Tiago diz ter vivido durante toda a gestação um encantamento pela esposa, o que se intensificou depois do parto. "Eu olhava para as duas apaixonado, mas Bruna não vinha no mesmo movimento. Eu tinha consciência que aquilo era natural, mas com o passar do tempo comecei a perceber que foi ganhando outros direcionamentos. Passaram 5, 6, 7, 8 meses e começaram os conflitos", conta.


Segundo ele, tentava ocupar o seu lugar da melhor forma possível. "Buscava equidade nas tarefas e disponibilidade afetiva, não que eu tenha cumprido isso 100%, pois nunca tinha vivenciado algo parecido. Algumas coisas eu não enxergava devido ao meu próprio machismo, proveniente do mito do amor materno. Achamos que a mãe vai saber dar conta do recado melhor do que nós”, diz.

Com isso, Tiago diz ter ficado carente e vivenciado muitos dilemas. "Quando você está apaixonado, é natural que queira ofertar esse afeto e queira recebê-lo. Como esse retorno não vinha, comecei a ficar preso na solidão." E percebeu que faltava repertório para lidar com todas as transformações que estavam ocorrendo. "O que ela me falava era legítimo, só que era inalcançável. Depois de alguns desalinhamentos e conflitos, mergulhei nesse universo e vi que não era o único. O que vivenciava era também vivenciado por muitos."


Tiago criou o Homem Paterno, que faz encontros presenciais sobre o puerpério e parto para os homens. O curso é dividido em quatro pilares: amor, conhecimento, empatia e comunicação empática. E faz uma reflexão sobre questões existenciais, como as de "onde vim", "quem eu sou", "o que quero para mim e para o meu filho", "quais são as minhas referências paternas."


"São questionamentos relacionados à nossa masculinidade", define, explicando haver imersão e dinâmicas. O amor, o primeiro pilar, é a força propulsora e não está necessariamente relacionado ao outro. O conhecimento, segundo eixo, é baseado em evidências científicas, relatos, experiências sobre o que é o gestar, o que é ser pai.


"O conhecimento traz segurança e amplia a visão. É uma grande ponte para a empatia, pois se sei o que você está passando com 23 semanas de gravidez, isso me dará um senso de responsabilidade sobre os meus atos”, esclarece.

A comunicação empática, segundo Tiago, é outra grande ferramenta. "Ela não se dá apenas de forma verbal. A pessoa pode não lhe dizer algo, mas mostra por sinais expressos no corpo, por exemplo. O homem tem que estar aberto a essa comunicação", ensina. Geralmente no segundo dia do curso, a mulher é convidada a participar da aula sobre o parto para que ambos saibam mais sobre esse momento.



Luciano Lucky se preparou para o puerpério e diz que é preciso quebrar paradigmas. "Criação de filhos é 100% de responsabilidade do homem e 100% da mulher."

"Para nós, homens, a ficha só cai na hora do parto"


O conhecimento sobre o assunto, segundo o chefe de culinária funcional e pai da Iris, Luciano Lucky, é uma quebra de paradigma. "Os homens estão começando a se abrir e a conseguir quebrar o gelo, mas colhemos frutos de uma sociedade tradicional e machista para a qual quem toma conta de filhos é a mulher. Para essa sociedade, é melhor ser coadjuvante do que realmente fazer parte", analisa, dizendo que há, por outro lado, muitos homens que querem mudar essa história. E Luciano é um deles.


Quando soube que seria pai, ele se preparou, se informou e estudou. E na hora de viver o puerpério, ele disse não ter sido tão difícil devido ao conhecimento e à parceria com Juliana. Luciano estava com 43 anos quando sua esposa engravidou, hoje Iris está prestes a fazer 1 ano de vida e ele diz que a chegada da filha mudou tudo.


"Durante nove meses, a mulher vai conhecendo e sentindo o bebê. Para nós, homens, a ficha só cai na hora do parto. Para mim, parece que ligou uma chave e desligou outra. Nem me lembro como era a minha vida antes, meus conceitos, julgamentos. Começou tudo de novo e isso é incrível”, orgulha-se.


Luciano diz ter visto em sua esposa uma outra mulher. "Eu conhecia a Juliana jornalista, professora de yoga, ciclista... Aí, no dia do nascimento da Iris, conheci uma nova Juliana e ela é incrível. Iris nasceu na banheira e eu conheci uma Juliana selvagem”, recorda, dizendo que depois disso a conexão ficou ainda maior entre o casal.


"O curso foi um divisor de águas para mim. Ele confirmou o que eu acreditava. Não sou um bicho diferente, estranho. Há outros homens que aceitam, respeitam e que entendem que a criação de filhos é 100% do homem e 100% da mulher. Eu me senti abraçado”, diz.

Momento natural, passageiro e de fortalecimento do casal



Ítalo Mazoni diz ter encontrado o seu papel de guardião depois do nascimento de Caetano.

Quem estudou a chegada de um filho conta que o conhecimento fez diferença. Isso porque o homem, antes visto como coadjuvante, passa a enxergar no puerpério um momento natural, passageiro e de fortalecimento do casal.


Para o psicólogo Ítalo Mazoni, o primeiro mês depois do nascimento do seu filho Caetano foi o mais difícil.


"No sistema familiar, a minha esposa era a detentora da conexão com o meu filho. Ela tinha o poder de saber o que a criança precisava. A minha sogra tinha a experiência. A sensação que eu tinha era de que eu não servia para nada. Foi muito difícil para mim”, conta.



Ele diz ter refletido a respeito e concluído que tudo impele o homem de estar ausente, começando pela licença-paternidade para qual algumas empresas não dão mais do que cinco dias.


"Você fica sem lugar. A sua esposa não te vê e só tem olhos para a criança. E para piorar, toda vez que Caetano vinha para o meu colo, ele chorava. Internamente, a sensação é de uma responsabilidade sobre o outro. Há a preocupação com o legado, desde aquilo que você pensa até o que você constrói. Pequenas coisas ganham peso de escolhas", afirma, dizendo ter encontrado seu papel de guardião e protetor da família graças às leituras e curso que fez.

Para o engenheiro civil Henrique Barcelos, que também se preparou para o puerpério, a chegada de uma criança já traz uma rotina completamente nova. "Muda pra todo mundo. Pra mim, a maior mudança foi saber encaixar tudo isso em harmonia, especialmente comigo mesmo”, diz e reforça que a relação com a esposa se fortaleceu.


"Hoje somos bem mais cúmplices e companheiros do que antes. Mas porque sempre houve muito diálogo e compreensão de ambas as partes. As dificuldades do puerpério fizeram com que buscássemos os novos ensinamentos e isso nos fez evoluir bastante", afirma.

Henrique Barcelos conta que as dificuldades do puerpério fizeram o casal evoluir e ficar mais próximos

Ele reconhece ter sido difíceis os primeiros dias. "Passamos cinco dias com o João Pedro no hospital, por complicações simples que ocorreram no pós-parto. Apesar do aperto no peito, foi o um grande intensivo sobre o que é cuidar de uma criança. Esses dias nos trouxeram mais tranquilidade pra cuidar dele", conta.





Ao ter conhecimento sobre o assunto, o engenheiro civil Christiano Tirado Dias diz estar

Christiano Tirado Dias e a esposa Sharlene, pais da Isadora, fazem cursos e participam de grupos. "É sempre bom, nessa jornada, caminharmos juntos e em sintonia", ensina Christiano.

encarando  o puerpério de forma mais leve. "Ao invés de transformar as dificuldades em problemas, eu as encarei como parte da escolha de ter um filho", conta Christiano, que é pai da bebê Isadora. Ele reconhece que, ao ter informação, o pai quebra paradigmas.


"Quando ela nasceu, o meu mundo parou. Meus hábitos e objetivos também mudaram. Para minhas esposa também foram muitas transformações. Nós dois participamos de cursos e grupos. É sempre bom, nessa jornada, caminharmos juntos e em sintonia", defende.



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