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"O pai? Era muito curioso, eu o comi”

Atualizado: Ago 24



Por Luciane Evans


São 11 milhões de mães solo no Brasil, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2018. Um batalhão de mulheres que se desdobra para conciliar trabalho, filhos, falta de dinheiro e sanidade mental.


"A sociedade está pouco se lixando para mães solo. Somos julgadas como putas, como aquela que deu o golpe da barriga ou que não soube escolher bem o pai dos filhos. Eu fui casada por quase 12 anos, quando iria imaginar que passaria por tudo isso sozinha? Eu não escolhi ser mãe solo, fui obrigada, não tive opção”, dispara Angie Cunha, mãe de Sophie, de 7 anos.

Quando Sophie nasceu, Angie ainda era casada e viveu um puerpério muito difícil e solitário, mesmo ao lado do marido. "Mas a minha solidão estava apenas começando." O pai da menina, segundo Angie, não ajudava em nada. "Limpava a casa e se considerava um máximo por isso. Ainda me cobrava constantemente que fizesse sexo com ele no puerpério. Sim, isso é inacreditável! Eu, morta de exaustão, tendo que me submeter aos caprichos de macho que nem por um momento se colocava no meu lugar."

O casamento acabou e Angie se manteve como a única responsável por cuidar da filha. E veio a culpa. "Assim que me separei, sofri muito. Eu me culpava. O sentimento de fracasso tomou conta de mim, e me sentia um verdadeiro cocô diante daquela situação. Me perguntava 24 horas por dia: 'como vou dar conta de tudo com um bebê de colo? O que vão falar de mim?' Ainda bem que passa! Hoje levo como um livramento do universo", enfatiza.

Mesmo bem resolvida com a situação, Angie diz que ser mãe solo num país machista e patriarcal é cruel e desumano.


"A sociedade não questiona o abandono afetivo paterno, ela questiona a mãe que está ali sozinha, dando tudo de si numa maternidade solo. Ela julga a mãe que está totalmente sobrecarregada, exausta de estar tentando fazer aquilo dar certo."

Para Angie os pais não são questionados sobre a sua ausência na criação do filho "porque a sociedade acredita que é papel da mulher dar conta disso". "Sabe aquela velha frase: quem pariu Mateus que o embale? Ela é retrato da nossa sociedade machista que pensa que filho é só da mãe. Não, não é."

Acolhimento

Depois que se tornou mãe solo e se viu sozinha, Angie quis juntar forças com outras mulheres que passam pela mesma situação. Criou a página no instagram @maternidade.solo.real, que conta com 22,4 mil seguidores.


"Meu projeto nasceu através da minha experiência como mãe solo e de todas as problemáticas envolvidas, e, principalmente, por ver a quantidade de mulheres sangrando que são silenciadas pela sociedade. Não temos voz, aliás, não tínhamos. A minha página nasceu para isso", reforça.

Nesse espaço, Angie aborda os vários aspectos da maternidade solo, como saúde mental, abandono afetivo, machismo, patriarcado, preconceito, lutas, vitórias, relatos reais, relatos de superação, entre outros. "É um lugar de acolhimento, desabafos, experiências, conhecimento, dicas e informações para mães solo como eu", define.

Por lidar diariamente com o desabafo dessas mulheres, ela conta que o abandono afetivo é real e "a sociedade trata como se fosse a coisa mais normal do mundo". Com o objetivo de empoderar e acolher as mães solos, Angie ressalta que a culpa materna é uma coisa que as acompanha eternamente, sendo preciso saber lidar com ela.

"Conforme vamos nos fortalecendo, informando, empoderando, ela vai perdendo a força sobre nós. O autoconhecimento, autocuidado e terapia são muito importantes para ajudar nesse processo. Não se culpe por aquilo que não deu certo. Pense nas novas possibilidades, pense no recomeço. Isso, sim, é importante!”

Preconceito

A pergunta "cadê o seu marido?", infelizmente, segundo Angie, ainda é constante. “É surreal que, nos dias de hoje, ainda temos que abordar esse assunto na sociedade. Sou sempre debochada quando me fazem esse questionamento e já respondo: o pai? Era muito curioso, eu o comi", diverte-se.

Ela destaca que o preconceito não para por aí. "Empresas dificilmente contratam mães solo. No processo seletivo, fazem mil perguntas, entre elas, sobre com quem deixamos os filhos, o que faremos quando a criança adoecer, precisar de um médico, entre outros", enumera.

Há também o preconceito escancarado e discursos de ódio nas redes sociais. "As pessoas são cruéis e não se importam se do outro do lado da tela há uma pessoa sobrecarregada, exausta, dando tudo de si para criar uma criança sozinha com o mínimo de dignidade."

No campo amoroso, Angie revela que a discriminação também acontece. "Somos tratadas como objetos sexuais, como fetiche, como se não fossemos levadas a sério, uma total desvalorização. Uma vez fiquei com um cara que me disse que não saberia como explicar para família dele que eu era mãe solo e tinha tatuagens. Eu não acreditei que estava ouvindo aquilo."

Embora a paquera se torne mais seletiva, Angie vê um lado bom nisso. "A maternidade nos traz esse filtro maravilhoso, aprendemos a reconhecer de longe homens fúteis. Isso é libertador." O maior medo de Angie é de um dia faltar.

"Isso me causa um certo pânico. Olho para a minha filha e me pergunto o que será dela se um dia eu faltar? É muito louco, porque, ao mesmo tempo em que eu me faço esse questionamento, eu me sinto forte para lutar por um futuro melhor para ela."

Ela alerta as mães solo a estarem atentas ao que consomem na internet. "Seguir perfis reais, com mães reais, que mostrem a vida real. Perfis que não romantizem a maternidade. Do contrário, você vai estar se sentindo sempre frustrada e culpada. A maternidade perfeita não existe. Ninguém é perfeito. Solte sua culpa, assim você será uma mulher e mãe mais feliz”, aconselha.

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