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“Fortaleço Beatriz porque não posso mudar a sociedade"


Luciana Rocha e Beatriz enfrentam juntas as peculiaridades da adoção (foto:Ivna Sá)

Por Luciane Evans


Quando Beatriz chegou, os seios da jornalista Luciana Rocha, de 44 anos, incharam. Vieram as inseguranças, o medo de não dar conta, o choro de olhar para aquele bebê de 4 meses e e ser tomado por um amor avassalador. Sentimentos vivenciados e comuns entre mulheres que se tornam mães, inclusive, as adotivas.


“A maternidade é muito sozinha, tanto a biológica quanto a de adoção. A Beatriz veio com 4 meses. Senti muita insegurança, mas chorava de emoção por minha filha, finalmente, ter chegado”, conta Luciana.


Com esse amor avassalador nos braços e na vida, Luciana foi descobrindo que a maternidade também tem seus dias de caos e que a sociedade ainda tem muito para evoluir. E teve que enfrentar os preconceitos que vinham por ser mãe adotiva, solo e de uma menina negra.


“Tive um tempo bem deserto até eu encontrar o Grupo de Apoio à Adoção de Belo Horizonte (GAABH) que, para mim, foi o divisor de águas da minha vida.” Quando Beatriz tinha 4 anos, Luciana soube da existência do grupo por meio de uma reportagem e, então, resolveu ir atrás desse amparo. Nunca mais se sentiu sozinha.

Ali, entre os pais adotivos, ela diz se sentir entre os "seus". "Tive muito apoio da minha família, mas no grupo você compartilha vivências com pessoas que estão passando pela mesma coisa que você. Fui vendo que aquela minha angústia e os desafios também eram passados por outras famílias", diz.


É por meio desses encontros, presenciais e virtuais do GAABH, que Luciana se sente forte para dar força à filha, hoje com 8 anos. Outro dia, por exemplo, uma coleguinha do balé da Beatriz perguntou se ela era adotada. Como ela disse que sim, a criança, que devia ter uns 6 anos, saiu gritando pela sala: "Beatriz é adotada". "Ela chorou demais, ficou constrangida e não queria voltar para o balé. Compartilhei essa minha dor com o grupo. Vieram os conselhos de outras mães e pais", conta, satisfeita por ter com quem compartilhar as peculiaridades de quem adota e ser compreendida.


Para Luciana, os pais do grupo de apoio são os amigos que ela levará para sempre

Questões como essa, segundo conta Luciana, são corriqueiras e há situações dos pais adotivos em que é preciso sabedoria e apoio para lidar. “Não existe um jeito de eu mudar a sociedade, então, me fortaleço e fortaleço a minha filha”, diz.


Desde quando Beatriz era menor, a jornalista usa a literatura para contar para ela sobre a adoção. Ela cita o livro O menino que não nasceu da barriga da mãe como um dos que ajudaram a sua filha a entender a história das duas. “Com uns 3 ou 4 anos, ela questionava o fato de ser negra e eu não. E eu fui usando as histórias para contar.”

Com o grupo, Luciana foi percebendo que os questionamentos, inclusive, as diferenças raciais eram vivenciadas por muitas famílias que adotam. "A partir do momento que a criança vai crescendo, ela começa a questionar sobre a sua genitora e a sua cor. A maioria das crianças que é adotada é negra", comenta.


De acordo com dados do Cadastro Nacional de Adoção, 66% das crianças que estão para serem adotadas são negras e pardas. Luciana conta que o preconceito racial é um dos desafios que o grupo ajuda a enfrentar. "É uma rede de apoio que estará para sempre na minha vida. São meus amigos, fazemos eventos juntos e compartilhamos nossa vivência", diz.