• Cria Para o Mundo

O feminismo aqui em casa

Atualizado: Set 26

Perguntamos a um pai e duas mães de diferentes formatos de famílias como o feminismo é colocado em prática dentro da casa deles. Eis os relatos

Foto: rawpixel.com

Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Colocar os ideais feministas em prática dentro de casa significa desconstruir, dia após dia, o machismo que nos foi ensinado ao longo da vida. Significa, também, não reproduzí-lo com nossos filhos, dando a eles a liberdade de ser quem quiserem, sem papeis e moldes pré-definidos.


Para entender como isso acontece na prática, conversamos com um pai e duas mães, em diferentes configurações familiares. Ao Cria Para o Mundo, eles relataram como reveem ideias e comportamentos machistas que carregaram por anos, que caminhos encontraram para não reproduzir velhos moldes de educação com os próprios filhos e como percebem as mudanças nas novas gerações.


“Esse é o jeito que nossa família encontrou de ser feliz”

Foto: Arquivo Pessoal

“A primeira vez que lembro de ouvir falar em feminismo foi nos shows de punk rock. Lembro em especial quando vi a banda Dominatrix pela primeira vez e meus amigos da época falaram que o som era bom mas "as minas são muito chatas. Feministas, né". Mas durante o show eu não ouvi as integrantes falarem nada de errado. Elas pediam para respeitar as meninas que estavam na roda, chamavam as meninas pra frente, falavam sobre igualdade de gênero…


Hoje eu sei que "as minas são muito chatas" porque tiravam dos meus amigos todos os privilégios de serem homens, machos e de se baterem numa roda punk sem se importar com os outros.


De lá para cá, meu entendimento sobre o feminismo cresceu bastante. Hoje eu leio mais sobre, inclusive tenho dado preferência a ler mais mulheres negras e tenho uma posição de escuta quando sou questionado sobre alguma atitude que tive. Coisa que parece óbvia, mas demorei anos negando situações em que fui machista (aliás, continuo sendo, né).


Muita coisa eu fui desconstruindo com os anos ainda dentro da cena punk, tomando orelhada de banda de mina. Mas sempre tem coisas que vão estar ali. Algo que lembro que eu questionava era quando tinha denúncia ou carta aberta sobre abuso e eu sempre falava que era estranho a menina ter esperado X anos para falar sobre. Hoje eu percebo que essa é uma maneira de invalidar a vítima. O tempo que ela demorou para digerir um abuso é algo que não me diz respeito.


Quando soubemos que teríamos o Timtim, a Pri falou "Meu Deus, o que eu vou fazer com um menino, eu não sei nada desse mundo de heróis". Eu adoro super-heróis mas isso nunca foi tão importante no meu mundo, sabe? Então conversamos muito e percebemos que talvez aquela seria uma oportunidade boa demais de criar um menino que não ficasse preso a padrões heteronormativos, que não precisasse se provar pela força e, principalmente, seria uma chance de criar alguém que não precisasse se desconstruir depois de adulto.


Não sei se tivemos muita sorte ou se estamos fazendo nossa parte direito, mas o Timtim, com 4 anos, é um menino carinhoso, que ama tumtum (esse é o jeito que ele chama coração), beija a gente sempre, fala sobre os sentimentos dele e dorme abraçado com um ursinho rosa. Deve ter pai que morreria vendo isso, mas a gente quase morre de amor.

Depois da chegada da Lola, o trabalho ficou em dobro mas estamos empolgados com a chance de criar duas pessoas que não terão diferença ou privilégios pelo gênero, pelo menos aqui em casa.


Como eles são pequenos eu acho que vão aprender muito pelo exemplo. Em nossa casa todas as tarefas são divididas, aliás, na nossa história de família quem criou uma marca (de camisetas, a Mamahood) e que hoje é responsável pelo sustento da casa foi a Mamãe. Não sei, mas acho que eles nunca terão essa imagem de "papai sai pra trabalhar de gravata, enquanto mamãe cuida da gente".


Outros grandes aliados nessa luta são os livros e desenhos infantis que saem do padrão de exaltar homens brancos cisgênero. Tem muitos livros fofos para eles com meninas que não são princesas, temos livros que tratam sobre o comunismo e anarquismo de maneira bem lúdica e também gosto muito de trazer livros e desenhos com protagonistas negros.


É claro que eu me preocupo com as influências também. O Timtim já trouxe muita coisa da escolinha. Teve uma época em que não queria nada rosa, mas conseguimos reverter isso com conversa, exemplo e amor. Na verdade, eu gosto mais de pensar positivamente, acreditar que ele vai pra escola de unha pintada e os amiguinhos vão ver e vão pra casafalar sobre isso com os pais deles.


O que eu tento por aqui é deixá-lo consciente de que nossa criação talvez não seja igual à dos amiguinhos dele e que não existe certo ou errado, mas esse é o jeito que nossa família encontrou de ser feliz.”


Shamil Carlos, 37 anos, pai do Valentim e da Lola, sócio da Mamahood Store e marido da Priscila



“Revemos nossos pontos de vista enquanto passamos manteiga no pão”

Foto: Arquivo Pessoal

“Poderia dizer que não me tornei feminista. Para mim o feminismo é um devir, um caminho, um repensar constante e ininterrupto.


O feminismo é um movimento histórico que, ao longo do tempo, se transforma constantemente, mas mantém em seu cerne o desejo de equidade.


Se hoje trabalho, se fui à universidade, se posso ter direitos e deveres políticos, se posso me considerar cidadã é devido a esse movimento chamado Feminismo.


Não conversamos especificamente sobre isso, mas sempre é uma questão que nos ronda, e que nos coloca a auto responsabilidade de reconhecer e trabalhar o machismo em cada uma de nós para que possamos de fato desconstruir a forma como atuamos na sociedade, na família, e repensar o lugar que ocupamos no âmbito do poder social, familiar. Para reconhecermos a trajetória singular de cada uma de nós, para que possamos não reproduzir um modo de existir e educar através de uma posição de violência, patriarcal, machista, ancestral, alienante.


Qual o grau de implicação de nós mesmos com nossa própria ação, nosso próprio pensamento?


Mulher ou homem somos responsáveis pela teia social que está em jogo, e todos somos co-responsáveis por transformar esse jogo que, certamente, visivelmente, não é justo.

É nossa responsabilidade reconhecer a opressão, os papéis impostos, as violências, trazendo para o Maitri a possibilidade de escolher e significar suas escolhas, no seu tempo, a seu modo. Apontando os limites do corpo do outro, dos desejos do outro, de seu próprio corpo. Respeitando e nomeando suas emoções.


Aos 3 anos, Maitri ainda não apresenta nenhuma fala ou comportamento onde faça ou perceba qualquer distinção de gênero.


Não tenho nenhuma preocupação com machismo e homofobia como ameaça a meus filhos. Se há algum temor é de que, em algum momento, não possam reconhecer o próprio machismo e homofobia, este que habita secretamente os porões de cada um de nós, e acabem violentando a si mesmos, não se permitindo existir verdadeiramente, ou ao outro, não respeitando escolhas e limites.


Em nossa casa, conversamos quase que diariamente sobre as questões sociais, medos, dúvidas, situações de nossas vidas... Pensamos juntos em soluções e revemos nossos pontos de vista enquanto passamos manteiga no pão.


Então, se eu pudesse dar um conselho aos pais e mães, seria: não se preocupem, ocupem-se de si! Somente reconhecendo a subjetividade que nos constitui é que teremos a possibilidade de revermos nossas ações e sermos exemplo.


Discursos bonitos e palavras esvaziadas de experiência certamente não irão edificar uma ação autêntica de equidade”.


Lizandra Hachuy, psicóloga, mãe do Maitri, da Manu e do Miguel e esposa da Mari




"Quero empoderar meu filho a partir da minha representatividade"


Foto: Arquivo Pessoal

"Eu acredito que nada tem mais alcance do que representatividade. Eu tento todos os dias fazer uma militância nos meus arredores que ultrapasse os posts de rede social. Tenho encarado essa luta de “quintal de casa”, tentando empoderar quem tem o mínimo de contato comigo. O meu foco de agora é fazer isso sem raiva, com paciência e mostrar qual o verdadeiro lugar que nós, mulheres, devemos (e queremos) ocupar.

Quando eu estava grávida, eu ouvi um podcast que falava que quando o filho chega o feminino se materializa de fato. Acho que hoje minha luta tem outras prioridades. Sempre quis ser mãe de menino. Mas quando engravidei pensei que viria uma menina. Comecei a idealizar como seria empoderar uma menina e como todo o meu discurso seria materializado nela.

Quando descobri que esperava por um menino, eu entendi o tamanho da minha responsabilidade. O universo tem feito mulheres fortes para criar uma nova geração de homens e eu sou grata por ter sido escolhida para esse projeto.

Hoje minha principal luta é criar esse moleque como parte dessa nova geração. E não adianta eu ficar o dia inteiro palestrando na cabeça dele. Quero que ele entenda tudo a partir do nosso movimento, de toda a nossa vivência aqui em casa, principalmente.

Aqui, definimos as tarefas de casa, mas tudo ainda está muito longe do igualitário, até porque pensar na logística da casa, se tem lixo, comida pro Ruan, vacina e todos esses processos é muito desgastante.


As tarefas de casa nem são as mais complicadas dentro dessa divisão. Acho que a grande luta aqui é a busca pela divisão igualitária com as coisas do menino. Estamos em ajustes, com estresse. Dias que tenho certeza de que quero o divórcio e outros que casaria novamente.


Filho muda muito a gente, né? E acho que a vasilha que eu esperava o dia seguinte para ser lavada, eu já não quero esperar. Eu já não estou disposta a "passar pano" pra nada, até porque não quero que Ruan cresça achando que é normal eu fazer muito mais coisa que o pai.


Então, a minha luta de quintal de casa é essa: fazer meu companheiro entender que a nossa vida vai refletir diretamente nas escolhas e nos caminhos do Ruan.


Espero ser um bom reflexo de luta para o meu filho e que as minhas bandeiras em prol de minorias sejam bandeiras defendidas por ele. Aí tudo vai ter valido a pena.

Ruan, meu filho, é branco. Minha prioridade é que ele entenda o tamanho do privilégio que carrega. Nasceu homem e branco. Você consegue entender que se Ruan estiver de boné na rua e correr pelo passeio, dificilmente alguém vai segurar a bolsa? O meu trabalho é mostrar a ele todos esses privilégios.

O lugar dele já é o de privilégio. A questão do feminismo é meu modo de vida. Ele vai perceber isso nos meus atos, na minha postura e nas minhas falas. Quero empoderar meu filho a partir da minha representatividade.

Tudo para o negro é infinitamente mais complicado. E olha que o meu lugar de fala não é a de uma negra retinta. Mano Brown foi mestre numa definição sobre mestiço, em entrevista recente: "Eles sabem exatamente quem é você. Não adianta tentar se passar por um deles".


Eu vivi nessa tentativa de embranquecimento até os 30 anos. Sempre alisei o cabelo e buscava, inconscientemente, ser como eles. Até que minha ancestralidade bateu mais forte e passei pro processo de transição capilar. Na verdade, pelo processo de descoberta da minha negritude.


O racismo veio e vai continuar batendo. Mas isso me fortalece e é o que eu pretendo que Ruan entenda. Mais uma vez eu repito: nada é mais impactante do que representatividade".


Fernanda Martins, 34 anos, jornalista, mãe do Ruan e companheira do Leonardo


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