• Cria Para o Mundo

"No meu tempo não era assim"

Atualizado: 19 de Nov de 2019

Mães, avó, profissionais da pediatria e nutrição comentam o que mudou na criação dos filhos nos últimos anos e ensinam que a leveza é o melhor caminho para lidar com os pitacos



Por Luciane Evans


Se você nunca ouviu essa frase como uma observação à forma de criar seu filho, pode se preparar: cedo ou tarde, alguém vai lhe dizer isso. E ela vem de uma outra geração que compara o que viveu como pais com os tempos atuais. Geralmente, traz um completo: “...e meus filhos estão vivos até hoje.”


Há quem sinta arrepios só de ouvir isso, mas há quem saiba levar numa boa as experiências passadas e tirar proveito disso. Mas, enfim, o que mudou nos últimos 20 anos na criação dos filhos? Somos uma nova geração de pais exagerada nos cuidados ou são os nossos pais que estão se esquecendo das suas preocupações de antigamente?


Em busca dessas respostas e tendo como ponto de partida a frase mais ouvida pela nossa geração nos dias de hoje, o Cria Para o Mundo foi atrás de quem conhece a fundo sobre o assunto, com base em conhecimento científico e experiência de vida. Elas são mães, profissionais dedicadas, atualizadas e aprenderam a driblar os palpites com leveza e sabedoria.


Avó de quatro netos e pediatra há 40 anos em Belo Horizonte, Laís Valadares é hoje presidente do Comitê da Primeira Infância da Sociedade Mineira de Pediatria, e uma apaixonada pela profissão e pelos netos. Ela diz que, antes de tudo, é preciso respeito com a geração passada. “Essas pessoas querem que vocês façam o que elas fizeram, e que realmente deu certo para elas naquele momento. Temos que dar a oportunidade de elas serem avôs, avós e tios”, aconselha, destacando que muita coisa mudou nos últimos anos.


Há 40 anos na pediatria, Laís Valadares diz que muita coisa mudou nos últimos anos, principalmente, nas recomendações dos pediatras.
Ela lembra que quando começou a exercer a sua profissão, as crianças chegavam ao consultório com muita cárie, reflexo do uso da mamadeira. “Hoje em dia você não vê mais isso. Há o incentivo ao leite materno e o cuidado de não dar açúcar para os pequenos de até 2 anos”, destaca, dizendo que, quanto mais cedo se inicia uma alimentação saudável, menos obesidade infantil haverá. “Isso não é achismo, tem comprovação científica”, garante.

Para uma nova geração de pais, os palpites e comparações com a antiga infância começam, geralmente, na gestação, mas é quando o bebê nasce que o “no meu tempo não era assim” se torna rotineiro de ouvir. E vem de tios, avós, vizinhos... Um grande exemplo, talvez um dos primeiros pitacos nessa fase, é a posição de dormir, conforme destaca a pediatra Amanda Goulart, também Educadora Parental em Disciplina Positiva.


A pediatra Amanda Goulart, mãe do Arthur, de 1 ano, diz que estudos comprovam o benefício do amor, do colo e do respeito para a saúde das crianças

“Há algumas décadas era indicado colocar o bebê para dormir de lado, era introduzido suco antes mesmo dos seis meses de vida, as papinhas no início da introdução alimentar eram batidas no liquidificador, usava-se álcool para abaixar a febre, entre outros. Hoje as recomendações são completamente diferentes: recém-nascidos devem ser colocados para dormir de barriga para cima, suco é permitido após 1 ano de idade, nunca se deve liquidificar os alimentos, e o álcool para abaixar a febre é totalmente contraindicado”, enumera Amanda.



Outra mudança, conforme destaca Laís, é a própria recomendação dos pediatras às famílias. Hoje o incentivo ao contato com a natureza, ao movimento livre das crianças e à leitura faz parte da conversa nos consultórios.  “Antigamente as pessoas moravam mais em casas e tinham mais contato com a natureza. Hoje digo aos pais para trocarem os shoppings por praças e deixarem os filhos se exercitarem, correrem, saltarem, ou seja, fazerem seus exercícios naturais”, defende, lembrando que o proscrever telas até os 2 anos de idade também entra nesse pacote.


Aliás, a nova geração de pais tem percebido que há, entre os médicos, a preocupação com os três primeiros anos de vida da criança. Laís garante, com base em estudos, que esses são os anos mais importantes da vida de uma pessoa.


Inclusive, aquele papo de que o colo vai deixar o pequeno mal acostumado ficou para uma geração passada. Hoje ele é o melhor remédio para o vínculo entre pais e filhos.

“Já percebíamos há tempos como o afeto, o colo, o limite e a presença dos pais na vida das crianças impactavam na saúde delas. Elas se tornam adolescentes e adultos mais saudáveis. Hoje a neurociência explica isso e podemos comprovar que as conexões cerebrais se tornam melhores e com mais qualidade”, afirma.


“Diversos estudos mostraram a importância a curto e longo prazo de a criança se sentir amada, protegida e acolhida: elas adquirem maior senso de pertencimento, autoconfiança, autorresponsabilidade. Viver em um ambiente de respeito mútuo é positivo não só para a criança, mas para toda a família – por isso a importância do colo, do acolhimento do choro e da birra, da validação de sentimentos”, defende a pediatra Amanda Goulart.





Alimentação como qualidade de vida a longo prazo


Mas é para a alimentação que as palpites parecem saltitar. E os novos pais se sentem perdidos entre uma geração que viveu uma liberdade na alimentação e a nossa, que tem como preocupação as muitas doenças causadas por uma dieta não saudável.


Atualmente é recomendado o sal em alimentos para os bebês acima de 1 ano de idade, mesmo assim, em pouquíssimas quantidades. Há médicos, inclusive, que só recomendam depois dos 2 anos. O açúcar também só depois dos 2. As guloseimas, como os famosos biscoitos de polvilho e maisena, que eram sucesso em décadas atrás, estão abolidas e a preferência é pelas frutas.



A nutricionista e consultora materno infantil, Luiza Miranda, é mãe da Maria Flor, de 2 anos, e defende que as crianças tenham uma boa relação com a comida

Mas, para muitas pessoas, seguir isso é maldade, já que antigamente se dava de tudo e “eles não morriam”. É aí que mora a polêmica. Luiza Miranda Campos sabe muito bem disso. Nutricionista e consultora materno infantil do Miranda Cirandinha, ela é mãe da Maria Flor, de 2 anos, e diz que é preciso cautela com os conselhos.


Ela, que já ouviu muitas vezes a frase “no meu tempo não era assim”, diz buscar informações de qualidade para seus argumentos. Mas reconhece que, para as gerações passadas, é mais difícil entender as restrições de agora.


Isso porque, atualmente, há uma enorme facilidade de os pais se informarem sobre a alimentação dos filhos, o que não estava disponível antigamente. E, nesse aspecto, ela diz ser preciso uma mudança cultural para que as pessoas passem a entender as novas recomendações e preocupações em torno do tema.

“Antes não havia estudos nem tantas informações sobre esses cuidados. Agora, está tudo de bandeja, só não segue quem não quer”, diz Luiza.

Ela percebe que está começando uma mudança de cultura em relação à alimentação no começo da vida. E diz que a preocupação com a diabetes, obesidade infantil e casos de câncer tem feito as pessoas pensarem a longo prazo, largando a cultura imediatista.


“Os cuidados com a alimentação, como introdução de sal após 1 ano de idade e introdução de açúcar após 2 anos de idade, são fundamentais. Estudos mostram que a introdução precoce destes alimentos se relaciona a um aumento de hipertensão arterial e obesidade no futuro, além do risco de deixar o paladar mais seletivo”, alerta a nutricionista.


A obesidade é uma grande preocupação dos pediatras. De acordo com últimos dados dos Ministério da Saúde, 13% dos meninos e 10% das meninas entre 5 e 19 anos no Brasil sofrem com obesidade ou sobrepeso.


Sobre o sal, Luiza explica que, quando o bebê se alimenta de legumes, como brócolis ou cenoura, ele recebe uma boa quantidade de sódio para a sua idade e seu organismo. Por isso, o sal está proibido no primeiro ano de vida dos pequenos. Ela chama a atenção para que os pais estejam atentos e os médicos atualizados, uma vez que a nutrição é uma área em constante mudança.

“Um médico não pode orientar os pais a iniciarem a introdução alimentar antes dos seis meses se a criança não tem os sinais de prontidão para isso. Ela não terá desenvolvido a capacidade de mastigar e de ingerir os alimentos."


Seguidora do pediatra espanhol Carlos González, Luiza defende que os pais não devem forçar os filhos a comer. “Quando dizem ‘no meu tempo não era assim’ para esse cuidados com a saúde das crianças, temos que pensar que esta geração que cresceu não está nada saudável. Vivemos num mundo, atualmente, doente. E os primeiros anos de vida trazem consequências para o resto da vida de uma pessoa”, alerta a nutricionista, que dá cursos sobre introdução alimentar e para crianças acima de 1 ano.



Leveza, diálogo e informação entre gerações


Para a pediatra Laís Valadares, avó de quatro netos, é preciso deixar que os avôs sejam avôs

Na casa da pediatra Laís, os quatro netos têm para eles um armário mágico, no qual estão ali as coisas de que gostam, entre elas, o chocolate. “Fizemos um combinado, eu e minhas filhas: o chocolate vai ter na casa da avó, e não na deles. Assim, eles não terão o excesso”, explica.


Ela diz que nessa história de criação de filhos, ninguém pode andar nas pontas da linha. “Tudo em excesso faz mal. A falta de doce e do picolé, por exemplo, é prejudicial porque eles também fazem parte da infância”, diz.

Luiza concorda e conta que, depois dos 2 anos, a criança vai ter contato com o doce em ocasiões especiais e vai comer, por exemplo, chocolate ou chupar picolé. Ela conta que, outro dia, seu pai deu chocolate para Maria Flor. “E ela veio me contar satisfeita sobre a brincadeira de esconde-esconde dos dois. Ou seja: naquela tarde, não foi o doce o que mais lhe agradou, mas, sim, a presença do avô na brincadeira”, destaca Luiza.



Pediatra Amanda Goulart diz que os pais devem seguir aquilo em que acreditam
A pediatra Amanda Goulart conta que, como mãe, também recebe pitacos, que na maioria das vezes, são dados com boas intenções “Sãos os – “é fome!” “é dente!” “é calor!” “é frio!” “leite materno não sustenta!” “tem que deixar chorando!”, entre vários outros. É ouvir, tentar argumentar quando possível ou simplesmente sorrir, ignorar, e seguir com o que você acredita”, diz, também indicando a leveza como forma de lidar com os palpites.

“Quando temos familiares que constantemente questionam orientações atuais, sugiro que os levem à consulta pediátrica de rotina. Geralmente, eles tiram suas dúvidas ainda mesmo na consulta, o que reduz o estresse em domicílio. Mostrar estudos e informações confiáveis disponíveis na internet ajuda bastante a tentar modificar esses conhecimentos que estavam enraizados”, recomenda Amanda.