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“Não queria que minhas filhas achassem que aquilo era normal”

Atualizado: 14 de Nov de 2019

Após duas décadas em um relacionamento abusivo, Daniela ajuda mulheres na mesma situação



Daniela conta que sofreu todas as formas de violência tipificadas na Lei Maria da Penha, mas se reconstruiu, reuniu forças e hoje ressignifica o que viveu ajudando outras mulheres com o projeto Eu Disse Não

Por Nathalia Ilovatte


Durante 18 anos, Daniela Schanen viveu o lado B de um conto de fadas. Em um ciclo infindável de abuso e violência, ela foi agredida física e psicologicamente, viu o então marido se arrepender, ouviu promessas de mudança, acreditou que a culpa não era dele. Para, então, a breve calmaria acabar, as agressões voltarem, e Daniela viver esse looping novamente, e depois de novo, e de novo.


“Eu conheci todas as formas de violência previstas na Lei Maria da Penha”, conta a publicitária e mãe de duas meninas. As formas de agressão tipificadas na Lei 11.340, conhecida como Maria da Penha, são de cunho físico, moral e psicológico, entre outras. E Daniela vivenciou cada uma delas dentro de casa.


“É muito difícil para uma mulher entender que a pessoa que deveria amá-la e protegê-la é a mesma que a agride”, explica a publicitária. “Muitas, como eu, acham que aquela é só mais uma crise. Aí vem o parceiro, que não é violento o tempo todo, se mostrando arrependido e sensibilizado após o abuso, dizendo que tudo irá mudar a partir daquele momento. E a mulher, criada para acreditar que o amor tudo salva, acaba por minimizar a situação para tentar ajudar o agressor”.

Foram quase duas décadas presa no ciclo de um relacionamento abusivo, até que a ficha de Daniela enfim caiu. “Em outubro de 2013, um tio muito querido faleceu. Menos de uma semana depois, minha mãe entrou desenganada na UTI por causa de uma embolia pulmonar gravíssima”, conta. “Foram 40 dias de hospital, a possibilidade de uma perda imensurável, uma casa para gerenciar com duas filhas pequenas, uma tristeza profunda e um entendimento de que, mais uma vez na minha vida, eu não podia contar com meu marido”.


O extremo do sofrimento foi, também, o início de uma ruptura com o agressor e com aquela vida. “Naqueles últimos 18 anos, fora as agressões físicas, o abuso moral e psicológico, eu tomava café da manhã, almoçava e jantava com a solidão. E aí eu finalmente entendi que eu não queria que minhas filhas achassem que aquilo era normal, que minha mãe não iria viver para sempre, que eu não era imprestável, burra, gorda ou um lixo como ele sempre dizia, que eu não queria mais ser aquela pessoa triste, que eu não estava velha para recomeçar, que era preferível viver sozinha de verdade a viver daquele jeito e, principalmente, eu entendi que minha zona de conforto era incrivelmente desconfortável”, diz a publicitária. “Eu esperei minha mãe sair do hospital e rompi sem olhar para trás”.


O pesadelo, entretanto, ainda não havia chegado ao fim. “O inimaginável estava só começando e eu precisei ser muito forte nos anos seguintes”, lembra Daniela.


O término do relacionamento fez o abusador perder o pudor e atacar Daniela de todas as maneiras que estavam ao alcance. Para enfrentar os dois anos até que o divórcio enfim saísse, a publicitária contou com o amparo de uma rede de apoio, que ela diz ser imprescindível para lidar com a violência doméstica.


“Sair do ciclo de abuso já não é fácil. Se tiver denúncia de violência e pedido de medida protetiva, então, a rede de apoio tanto psicológica como financeira é de uma importância tremenda”, afirma.

“O caminho é longo: existe muita burocracia e a justiça é lenta e falha. E quando o ex-companheiro não puder mais atingir a mulher fisicamente, ele vai atingi-la através dos filhos, dinheiro ou difamação. Muitas pessoas vão achar que ela fez alguma coisa para “merecer” aquilo. E mesmo que se tenha provas documentais, periciais, e o escambau a quatro, ainda assim, essa mulher será duramente julgada", previne Daniela. "A polícia vai mandá-la voltar pra casa, as pessoas vão sugerir que ela deixe pra lá pra não prejudicar a vida do ex-parceiro, e cada dia vai chegar uma versão da mais nova mentira que ele falou nas redes sociais”.


Somado à burocracia, à lentidão da justiça e aos julgamentos da sociedade, ainda há a necessidade de reencontrar com o agressor. “Quando a poeira está baixando, a justiça vai lá e intima pra mais uma interminável audiência cara a cara com o abusador”, diz Daniela. “Sem essa rede de apoio é quase insuportável enfrentar tudo isso”.


O recomeço


Diagnosticada com Estresse Pós-Traumático, Daniela foi cuidar de si. Hoje, ajuda outras mulheres

Depois do término, Daniela foi diagnosticada com Transtorno do Estresse Pós-Traumático, um distúrbio de ansiedade comum em quem lida com situações de extrema violência, como militares que voltam da guerra. “Fiquei os primeiros 24 meses após a separação tentando sobreviver”, recorda. “Depois iniciei um processo de reconstrução e descoberta do meu valor, entendendo quem eu era de novo. Precisei de muita terapia, que faço até hoje, e não abro mão. Mas me orgulho de nunca ter recuado, fraquejado ou olhado pra trás”.


Hoje, ela transforma os traumas em força e empatia para apoiar outras mulheres que vivem ou acabam de sair de um relacionamento abusivo. “Quando eu passei por isso poucas pessoas falavam abertamente sobre relacionamentos abusivos. O discurso, quando existia, ainda era frio e distante. Faltava empatia”, diz.


Sentindo na pele as carências e demandas de uma mulher sobrevivente desse ciclo de violência, Daniela tornou-se coach, especializou-se em psicologia positiva e programação neurolinguística e desenvolveu o Projeto Eu Disse Não, que oferece palestras, workshops, rodas de conversa e atendimentos individuais. “O Projeto Eu disse Não nasceu dessa necessidade de dizer pra essas mulheres, independente da idade ou classe social, que elas não precisam ter vergonha, que elas não estão sozinhas e que a culpa não é delas”, explica. “E, principalmente, que é possível sair desse pesadelo e que existe uma vida feliz após um relacionamento abusivo”.

Daniela conta que recebe pedidos de ajuda de outras mulheres o tempo todo. “Inclusive de pessoas muito próximas que eu nunca achei que estariam passando por isso”, diz.

Mas a quantidade de vítimas de homens abusivos que a procuram não surpreende. De acordo com um levantamento do Datafolha, encomendado pela ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento no Brasil, no último ano. Quase metade desses casos ocorreu no ambiente doméstico.


Os números também denotam crescimento na violência contra a mulher. Dados do Conselho Nacional de Justiça indicam que o número de feminicídios e casos de violência doméstica aumentou 34% de 2016 para 2018, passando de 3.339 casos para 4.461.


Daniela opina que os relacionamentos abusivos não têm se tornado mais frequentes. O que mudou foi que as mulheres começaram a ter coragem de denunciar namorados e maridos agressores. “Antes era um segredo vergonhoso”, pondera. “E é por isso que a informação é tão importante. Ela liberta. Quanto mais luz jogamos sobre esse tema tão difícil, mais as mulheres criam coragem de pedir ajuda”.


Como é um relacionamento abusivo


A fundadora do projeto Eu Disse Não explica que um relacionamento é abusivo muito antes do primeiro tapa. “Os ciúmes excessivos e sem fundamento, a possessividade e o controle são sinais de alerta vermelho. Por exemplo: ele tem ciúmes dos seus amigos, dos colegas de trabalho e até da sua família", diz.


"Ele quer controlar com quem você pode falar ou com quem você pode sair. Ele exige a senha das suas redes sociais, do seu celular e e-mail. Ele desconfia de traição o tempo todo e sem motivos. Ele controla as roupas que você usa e tenta te isolar do mundo. O comportamento é agressivo e ele usa de ameaças para te intimidar e coagir. Ele te empurra, puxa pelo braço, soca, chuta ou quebra objetos. Força o sexo ou faz chantagem emocional do tipo “se você não quer, vou procurar na rua””, descreve.

Em um relacionamento saudável, as pessoas envolvidas se respeitam mutuamente. Já no relacionamento abusivo, uma subjuga a outra. “O parceiro abusivo vai te pôr para baixo para poder se sentir poderoso. Ele ofende, humilha, xinga, desvaloriza, te faz sentir feia, burra ou incapaz e te faz passar por inúmeros constrangimentos. E com isso, ele vai destruindo a sua autoestima e consequentemente a sua capacidade de discernimento e de impor limites”, descreve Daniela. “Ele também costuma destratar mulheres da família como a mãe, irmãs e colegas de trabalho. E sempre te culpa e se vitimiza quando você legitimamente se queixa das atitudes dele”.


O comportamento agressivo, no entanto, não aparece 100% do tempo. Ele é alternado com momentos de carinho e gentileza. “Depois de um abuso, quando você finalmente se desconecta emocionalmente do abusador, ele se torna repentinamente carinhoso e romântico para que você o desculpe, seja através de manipulação, ou fazendo chantagem caso você ameace abandoná-lo”, explica.


O início do relacionamento, segundo Daniela, também é cheio de afeto. Antes de mostrar a face violenta, o abusador conquista a vítima, e o faz com maestria. “No início tudo é tão incrivelmente perfeito que você acha que finalmente encontrou sua alma gêmea. O parceiro abusivo faz tudo que ele acha que você iria gostar. Ele se transforma num reflexo seu. É como se fosse um camaleão se adaptando ao ambiente”, alerta.


“Você acaba se apaixonando perdidamente por uma fantasia e, quando as coisas começam a realmente dar errado, você se agarra na esperança que ele volte a ser aquela pessoa perfeita do início”.

Sair de um relacionamento abusivo, segundo Daniela, é um processo “lento, doloroso e que exige uma coragem absurda”. Após o término, é preciso se curar, e esse processo demanda tempo. “Você estará emocionalmente ferida, desconfiando de tudo e de todos, desacreditada de relacionamentos saudáveis, paranoica achando que todo mundo mente pra você e que não existem pessoas boas e honestas no mundo, armada pra guerra, com medo de se machucar novamente, se culpando e se desculpando por tudo e acreditando que você não é digna de amor nem merecedora de coisas boas. E muito, muito carente!”, descreve.


Por isso, ela dá um conselho: vivenciar esse processo de cura e ressignificação primeiro, e só depois engatar um novo relacionamento. “Não se envolva emocionalmente sem antes se reconectar com a sua essência, entender quem você é. Fortaleça a autoestima. O primeiro passo é se dar um tempo, procurar ajuda profissional. Saia desse turbilhão primeiro. Encontre seu eixo, sua paz”, recomenda. “Dê uma chance ao amor próprio antes de dar outra chance a alguém. E eu garanto que depois que você se reergue existe uma vida incrível, e que cada passo vai valer a pena”.