• Cria Para o Mundo

Na pandemia, família troca metrópole por vida rural

Quando a quarentena começou, Giselle e Bruno fizeram as malas e partiram com os filhos, Miguel e João, para a área rural de Brumadinho

Foto: Arquivo Pessoal

"Eu sempre fui muito urbana. Cresci em Contagem (MG), ouvindo minha mãe falar que não tinha vontade de morar em casa ou ter um sítio porque dá muito trabalho, e eu acreditei nisso. Já o Bruno sempre morou em casa e visitava os parentes no interior. Então, sempre teve contato com a natureza. Ter quintal, espaço e ambiente natural era uma necessidade dele.

Quando nos casamos, fomos morar em um apartamento. Eu não queria morar em casa porque não achava seguro e morria de medo de entrar rato. Chegamos a ter um lote em um condomínio em Nova Lima, mas eu não quis construir. Eu morava perto dos avós de nossos filhos, trabalhava perto de casa, tinha uma ajudante que ia a pé. Para mim, aquela situação estava ótima.

Quando o meu filho mais velho tinha uns 3 anos, fomos para o sítio de uns amigos e, quando ele pisou na grama, começou a gritar: “Escorpião! Escorpião!”. Eu logo pensei: “Meu Deus, olha o menino de apartamento...”, e percebi que a gente precisava de mais contato com a natureza. Andar descalço, colocar a mão na terra, etc.

Começamos a procurar um sítio para passar os finais de semana, apesar de eu ainda estar com um pé atrás. Até que conhecemos Casa Branca, distrito de Brumadinho, e ficamos apaixonados. É um lugar próximo de Belo Horizonte, de fácil acesso, seguro e tem uma boa estrutura, com comércio, supermercado e restaurantes. Além da natureza exuberante, que abriga montanhas, cachoeiras, riachos, muitas espécies de plantas e animais. Para nós, é o lugar perfeito.

Em janeiro de 2019 mudamos para São Paulo e uma das maiores dificuldades foi deixar de passar os finais de semana em Casa Branca, mas mantivemos a casa para os feriados e finais de ano. Então, quando a quarentena começou, nem pensamos duas vezes, juntamos nossas malas e viemos para cá.

Foto: Arquivo Pessoal

Com essa mudança, tudo na nossa rotina também mudou. Somos apenas nós quatro e passamos a ter uma convivência intensa, de 24 horas por dia. Fizemos uma divisão de tarefas para darmos conta do trabalho, da casa e das crianças. Eu comecei a procurar pequenos produtores locais para não frequentar grandes supermercados. Moradores criaram um grupo de WhatsApp chamado Quarentena Solidária, para que pequenos produtores e prestadores de serviços pudessem publicar suas ofertas. Também foram inaugurados estabelecimentos que vendem vários itens de diferentes pequenos produtores. Construímos uma horta, que nos permite ter hortaliças frescas na salada. E assim garantimos nosso abastecimento com produtos mais saudáveis.

O Bruno, que achou que não fosse se adaptar facilmente ao home office, conseguiu se organizar super bem. Agora almoçamos juntos, quando tem um intervalo ele vai molhar as plantas, tomar um sol, interagir com a família. E ficou livre do trânsito, da poluição e do ar-condicionado, que o faziam sofrer por ter uma doença pulmonar crônica.

Pela primeira vez, os meninos podem brincar ao ar livre no dia a dia e vivenciar os diferentes ciclos da natureza.

João e Miguel aprenderam a andar de bicicleta aqui, ensinados pelo pai, muitas vezes no horário de almoço. Estamos cuidando de um animalzinho de estimação, já que fomos adotados por um gatinho “comunitário”, o Paçoca. As crianças são responsáveis por alimentá-lo.


Também temos a oportunidade de cultivar uma horta e árvores frutíferas; de ver os animais se reproduzirem observando ninhos de passarinho, se desenvolverem, como nos casulos de borboleta e cascas de cigarra, e viverem dentro de um coletivo, como nos enxames de abelhas e formigueiros. Aqui também podemos presenciar a cadeia alimentar, pois vemos o gato caçando, aranha se alimentando de insetos.

Foto: Arquivo Pessoal

Tivemos algumas experiências incríveis em família e descobrimos lugares. Em julho, fizemos nossa primeira trilha na região. Subimos a serra e lá no alto descobrimos uma vista maravilhosa, de 360º. Seguindo a trilha, foi possível chegar numa região rochosa com vários pocinhos de água transparente. Apesar do cansaço, os meninos apreciaram bastante o passeio. Depois, descobrimos outra trilha que nos levou a um cenário encantador, com balanços amarrados em uma árvore que tombou por cima de um riacho que corta o condomínio. Lá pudemos balançar, nadar, brincar com pedrinhas, sentir a correnteza da água.

Já construímos um balanço em uma árvore enorme. Vivenciamos todo o processo de pesquisar como faz, escolher os materiais, preparar tudo e montar. Durante a estréia do novo brinquedo, balançamos ao luar.

Tenho conseguido integrar meus pais nessas experiências. Para mim isso é muito importante porque eu tive uma infância que deixou poucas memórias afetivas. E agora temos criado momentos marcantes para as três gerações: avós, filhos e netos. A chegada dos netos é uma nova chance para o fortalecimento dos laços afetivos, e esse tem sido um momento de cura para toda a família.

Aqui não precisamos lidar com o medo da violência, apenas temos que aprender a conviver com a biodiversidade local. Sempre temos visitas de animais como borboletas, passarinhos, tucanos, gambás, sapos, vagalumes, aranhas (inclusive venenosas), entre outros. Procuramos ensinar aos nossos filhos a observarem os ambientes e verificarem dentro de sapatos, armários e caixas de brinquedos se existe a presença de algum animal.

Foto: Arquivo Pessoal

No início da pandemia, tive preocupação com o João, que está no primeiro ano e em processo de alfabetização. Ele não parecia muito interessado pela leitura e escrita no primeiro semestre. Gostava de matemática, de fazer contas, mas ainda não conseguia formar sílabas. Em maio, ficariam o mês inteiro de férias e eu cheguei a procurar vídeos no YouTube para tentar auxiliar no processo de alfabetização. No entanto, a escola fez uma fantástica live com a Débora Vaz, especialista em alfabetização, que explicou que é preciso respeitar o momento da criança, que não devemos nos desesperar, porque a alfabetização pode ser um processo natural e espontâneo. Recomendaram que os pais não assumissem o papel de professor e que, no máximo, deveríamos auxiliar na escrita de listas de compras, de receitas que fazíamos, de bilhetes, cartões para pessoas queridas. Atividades relacionadas com a nossa vivência e que pudessem fazer sentido para ele.

Em junho, com a volta às aulas, o João começou a ler e escrever rapidamente, surpreendendo a todos (pais, escola e fonoaudióloga). Inclusive, aprendeu a compartilhar o Word pelo aplicativo da escola e iniciou com seu colega de turma a escrita (do jeito deles) de um livro. Foi emocionante acompanhar esse processo tão rico. A nossa pediatra antroposófica, Lucila Miranda, foi categórica em dizer que essa vivência permanente e de qualidade com a natureza estimula o desenvolvimento cognitivo. Segundo Natália Brito, do site Nossa Casa Natureza, “as crianças se envolvem mais com as oportunidades de aprendizado quando estão na natureza, levando a maior performance cognitiva, mais concentração e memória de curto prazo”.

Não dá para dizer que estamos 100% saudáveis, porque a pandemia e o isolamento são emocionalmente desgastantes. Apresentamos alguns sinais de ansiedade aumentada, mas com certeza em um apartamento pequeno seria bem pior.

Passar esse período de pandemia em Casa Branca nos fez perceber na prática o que o escritor Richard Louv afirma, que a presença da natureza na vida das crianças está relacionada com seu bem-estar físico, emocional, social, espiritual e acadêmico.

O que vem de encontro com nossas escolhas em relação aos nossos filhos.

Também foi possível compreender nesse período que, na medida certa, o online pode ser um grande aliado. Mesmo morando numa área mais rural, continuamos com nossas sessões com fonoaudiólogo e terapeutas, fizemos consultas médicas, foi possível que as atividades físicas fossem acompanhadas por um personal trainer, mantivemos o vínculo escolar e o processo de aprendizagem guiada, o trabalho remoto foi satisfatório.

O futuro ainda é incerto, mas estamos muito felizes pela oportunidade de estarmos aqui, inseridos na natureza. Com certeza essa vivência tem tornado nossos dias muito mais leves e repletos de novas experiências e aprendizados."


Giselle Araújo tem 39 anos, é nutricionista e mãe do Miguel, de 9 anos, e do João, de 6 anos