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“Na gravidez do coração, você não sabe quando será o fim”

Liliane passou 6 anos na fila da adoção. Foi numa manhã de junho que recebeu a notícia mais feliz de sua vida: Benício enfim havia chegado

Foto: Paula Beltrão Fotografia

Aos 39 anos e com o sonho de ser mãe guardado há tempos, Liliane tomou a decisão de entrar na fila da adoção. A espera foi longa e permeada por momentos de ansiedade e insegurança. Há menos de um mês, a belo-horizontina de fala tranquila, sorriso largo e paz no coração recebeu em casa Benício, “um presente de Deus para mim”, conta.


Abaixo, Liliane fala sobre a decisão pela adoção, os 6 anos esperando pelo filho e o momento em que os dois enfim se encontraram.


Foto: Paula Beltrão Fotografia

“Meu nome é Liliane, tenho 45 anos, sou solteira e há 6 meses moro sozinha. Comprei um pequeno apartamento para mim. Sou graduada em Ciências Contábeis e Administração e trabalho em um escritório de contabilidade há quase 20 anos. Sou católica praticante, frequento as missas, e sou uma pessoa muito simples, muito alegre, muito otimista, tenho um astral muito bom e gosto de ver sempre o lado bom da vida.


A maternidade sempre foi algo que eu quis viver, e quando eu era mais nova pensava que se não casasse até os 29 anos, ia ter uma produção independente. Eu sempre tive instinto materno, aquela coisa de cuidar, proteger, amar. E a minha mãe me influenciou demais nisso, porque era uma pessoa fantástica. Era uma mulher simples, vinda do interior, semianalfabeta, faxineira, que criou os 5 filhos com um salário mínimo. A gente passava muita dificuldade, mas apesar de tudo existia amor. Minha mãe tinha um jeito de cuidar que era só dela. Ela não tinha muita coisa para oferecer materialmente, mas em termos de sentimentos ela passava proteção, cuidado… Eu tinha um amor imenso por ela, e ela era tudo pra mim.


Eu fui filha e fui muito amada, então eu quero ser mãe para também amar muito. Quero viver os dois lados da moeda, porque sei o quanto o amor de mãe é valioso para o ser humano e quero viver essa experiência de amar, cuidar, zelar, proteger e ser uma mãe com tudo o que tenho direito.


Então, quando eu fiz 39 anos, cheguei à conclusão de que não precisava abrir mão desse sonho, porque se eu não tive um relacionamento firme a ponto de gerar um filho, eu poderia ter um filho do coração.


Em 2014, procurei me informar como era o processo de adoção e fiz todas as etapas e procedimentos. Foi uma decisão minha e não tive influência nem a participação de mais ninguém. Aos 39 anos, eu entrei no Cadastro Nacional de Adoção.

Foto: Paula Beltrão Fotografia

Foram quase 6 anos de expectativa e espera. Quando você está grávida do coração, você está de fato esperando um filho, então acho que toda a mudança emocional acontece nos dois casos, quando espera na barriga e quando espera no coração. Acho que os sentimentos, a emoção, o medo e a insegurança vêm de um jeito parecido. Mas, ao mesmo tempo, a espera na fila de adoção é diferente… Porque quando você vê sua barriga crescer, vai sentindo dia após dia as mudanças no corpo, e consegue definir o início, o meio e quando está próxima do fim. Pode não saber com certeza quando seu filho vai nascer, mas tem uma data limite e você sabe que daquele dia não passa. Já a gravidez de um filho do coração tem começo, mas você não imagina quando vai ser o meio e o fim.

Foto: Paula Beltrão Fotografia

Nos primeiros anos eu tinha uma expectativa muito grande, um medo e uma insegurança, e ficava o tempo inteiro ansiosa, esperando o telefone tocar.


Depois de dois anos na fila comecei a entender que eu não tinha como prever. E nesse meio tempo fiz uma pós graduação e tive problemas familiares muito graves que acabaram me envolvendo demais, então não fiquei muito ligada à gravidez, mas também nunca deixei isso de lado. E há um ano faço acompanhamento com psicóloga, e trabalhamos muito essa questão da adoção e dos sentimentos que ela traz, para eu conseguir lidar com a ansiedade.


Eu não tive como me preparar muito para a chegada do meu filhote, a não ser em termos de sentimentos. Além da terapia, eu li muitos livros sobre adoção, vi filmes e sempre me interessei muito pelo assunto, porque acho que quanto mais informação a gente tem, mais firmeza e condições de viver tudo isso de uma forma positiva e bonita a gente consegue ter também.


Então, nesse sentido, eu me preparei. Mas em relação às coisas práticas eu não tinha como estar preparada. Eu queria uma criança de 0 a 3 anos e não defini gênero, então não sabia como meu filho viria.

Foto: Paula Beltrão Fotografia

Até que no dia 29 de junho de 2020, logo pela manhã, por volta das 10 horas, eu não tinha nem bem começado meu dia quando veio a notícia. Eu sabia que esse momento chegaria, eu esperava por ele, mas nem passava pela minha cabeça que seria naquele dia, naquela manhã que meu filho chegaria.


Foi um susto e uma alegria imensa. Quando eu vi a foto dele chorei muito, porque eu sonhava tanto e tudo se realizou de uma forma tão perfeita… O Benício veio pra mim completo. Veio realizar todo o desejo da maternidade que eu tinha no coração. No meu íntimo, eu queria uma criança recém-nascida porque tenho essa necessidade de viver a maternidade em todas as fases, desde ver o filho pequenininho até a idade adulta, se Deus assim me permitir. Então, a chegada dele trouxe o melhor sentimento que já senti na vida. Foi a realização de um sonho que era próximo e distante ao mesmo tempo, e foi uma das melhores experiências e sensações que já tive.


Quando nos encontramos foi mágico. Eu peguei ele no meu colo e foi a sensação perfeita de estar com o meu bebê, de ter o meu sonho realizado… O coração da gente sabe quando é nosso mesmo, não tem jeito. Eu me senti muito agraciada por Deus, porque o Benício é um presente de Deus para mim.

Foto: Paula Beltrão Fotografia

Ele veio para casa no dia 3 de julho e tem sido ótimo. Ainda tem um medinho, uma insegurança, mas estou me virando bem. Ele é muito tranquilinho, muito bonzinho, então tem sido mágico. Uma experiência muito boa, muito boa mesmo.


Eu também tenho uma rede de apoio excelente. Abaixo de Deus, são as pessoas da minha rede que me apoiam e têm me ajudado a vivenciar a maternidade de uma forma muito plena. Como eu não estava com enxoval preparado, quando eu recebi a notícia da chegada do Benício as pessoas correram atrás, pegaram coisas emprestadas, e graças à Paula Beltrão (fotógrafa) e à Andressa Cassetti (da Felice Filmes), duas pessoas que Deus colocou na minha vida, eu ganhei muitas coisas. Eu tenho excelentes amigos e família, e o Benício já é uma criança muito amada aonde quer que eu vá.

Foto: Paula Beltrão Fotografia

Para o nosso futuro, tenho os melhores planos possíveis. Já imagino ele se arrastando por essa casa, dando os primeiros passos, falando as primeiras palavras, indo para a escolinha… Imagino nossos passeios no shopping, no parque, nossas viagens… Tudo que eu puder proporcionar a ele, tudo que eu puder vivenciar com ele e ensinar a ele, eu vou. Ele vai ser meu companheiro. Filho é para a vida inteira, e tudo que eu viver daqui para frente, o Benício vai estar comigo.”


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Tags: Adoção, Histórias de Adoção, Maternidade, Gravidez do Coração