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Nós, mães, estamos exaustas

Na quarentena, a divisão injusta do trabalho doméstico se tornou mais evidente, a sobrecarga aumentou, e mulheres estão ainda mais cansadas de ter que dar conta de tudo


Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Desde que a quarentena começou, a professora de matemática, estudante de pedagogia e empreendedora Ana* inicia a rotina de trabalho às 6 da manhã. Logo cedo, ela prepara e envia atividades para os alunos, acompanha as aulas da faculdade e se dedica à produção de itens de papelaria personalizados.


Quando o filho de 6 anos acorda, começa a orientá-lo nas atividades escolares. Depois do almoço, participa com ele das aulas ao vivo, e segue ajudando o menino nos estudos até o fim da tarde. Quando terminam, Ana volta à produção de artigos de papelaria. "Se a demanda é muita, vou até a madrugada", conta.

A atenção de Ana precisa ser dividida entre o cuidadoso trabalho de personalização e as demandas da criança, que também quer brincar e conversar. "Entre prazos apertados, orçamentos e clientes, geralmente eu divido minha cadeira com meu filho, enquanto ele me faz charadas, conta casos que eu só pego a última frase, devolvo a pergunta sem ter prestado atenção em nada do que ele falou... E sigo tentando conciliar a maternidade com o trabalho", diz.

A mãe ainda lamenta a falta de tempo para cuidar da casa. "As tarefas domésticas são feitas quando sobra um tempinho, ou quando a coisa está feia demais”, explica.

Mas e o homem, cadê? "Gostaria que meu marido dividisse comigo as tarefas escolares do meu filho", desabafa. "Há momentos em que o horário de trabalho dele já terminou, o meu foi pausado para ajudar nas tarefas de escola, e meu marido está descansando, assistindo a filmes".

Para a mulher, descanso é luxo. "Essa rotina já me sobrecarregava antes, e agora está pior. A sensação que tenho é de que preciso vencer o dia... E só”, conta Ana.

Esse cenário de desigualdade na divisão do trabalho doméstico não é exclusividade da casa de Ana. Na maioria dos lares brasileiros, o homem se dedica inteiramente ao trabalho remunerado, enquanto a mulher é obrigada a dar conta da criação dos filhos, do trabalho remunerado - às vezes com mais de uma atividade, já que o salário feminino é menor - e de todo o trabalho doméstico sozinha.


E hoje, no Dia das Mães, essa realidade também não vai mudar. Embora a data celebre o melhor lado da maternidade, haverá sorrisos exaustos por aí.

Todo o trabalho doméstico recai sobre a mulher


De acordo com Jordana Cristina de Jesus, professora do Programa de Pós-Graduação em Demografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Doutora em Demografia e autora da tese "Trabalho doméstico não remunerado no Brasil: uma análise de produção, consumo e transferência", as mulheres dedicam, em média, 4 horas por dia à família. Levando em conta que mães não têm domingos nem feriados de folga, são 28 horas por semana dedicadas a cuidar das crianças, cozinhar, arrumar a casa, levar pais e sogros ao médico, entre outras demandas familiares.


Mas esses números dizem respeito somente às mulheres cuja renda familiar ultrapassa R$ 5.200 e, portanto, compõem a fatia mais rica da população brasileira. Em outros recortes sociais, a sobrecarga é ainda maior. "Uma mulher de 25 anos, com esposo e filhos, que faz parte dos domicílios 10% mais pobres, transfere em média, diariamente, quase 6 horas para sua família. Assim, em uma semana, teria transferido 42 horas", diz Jordana. "Ou seja, ainda que nos dois casos as mulheres sejam altamente demandadas em seus domicílios, a situação é mais pesada para as mulheres mais pobres".

Já entre os homens, a dedicação aos cuidados com a família - e cabe aí limpar, lavar, arrumar, levar ao médico, dar banho, ajudar a estudar, entre outras atividades - não tomam mais do que uma hora diária.

Esse tempo não varia de acordo com o poder aquisitivo: seja rico ou seja pobre, o homem brasileiro transfere para a família uma quantidade de horas que chega a ser 83% menor que o tempo despendido pelas mulheres.


Diante desse panorama, a conclusão é óbvia: as mães estão exaustas. Já estavam antes, e agora, em um contexto de pandemia e quarentena, estão ainda mais exauridas por tamanha sobrecarga.


Com toda a família fazendo todas as refeições em casa, o ensino a distância, a ausência de qualquer rede de apoio, como os avós ou a escola, a necessidade de trabalhar em home office ou de continuar saindo de casa para exercer atividades remuneradas, e a responsabilização praticamente nula dos homens pelo trabalho doméstico, a conta não fecha.


Falta tempo e sobra cansaço

Foto: Ian Espinosa/ Unsplash

Na rotina da pedagoga Fernanda Cristina Sepe, o que não falta é motivo para ficar cansada. Mãe de Clara, de 15 anos, de Ricardo, de 4, que está dentro do transtorno do espectro autista, e de Alice, de 2, ela começa o dia às 5h30.


"Trabalho em home office até as crianças acordarem, ajudo na rotina da manhã, dou café da manhã e faço com eles uma pequena meditação, pois estamos surtando, então rola um mindfulness (prática de atenção plena). Depois, fazemos alguma brincadeira no quintal e volto para trabalhar na sala, junto com eles e a televisão", conta a mãe. "Aí, tudo vira um caos: é um tal de quer quintal, quer brincar, quer comer, gente chamando, pedindo ajuda... Pior do que uma sala de aula!"


Por ser educadora e especialista em transtornos, Fernanda tentou seguir o roteiro dos terapeutas de Ricardo para fazer em casa as estimulações que o filho precisa, mas desistiu. "Fazemos algumas atividades com a caçula, fora as lições da escola, para não perder o compasso e atrapalhar a aquisição de habilidades", explica. “No meio disso tudo eu lavo, dobro e guardo roupa, ajudo minha mãe na cozinha, organizo atividades para as crianças, estudo porque não posso ficar desatualizada, e trabalho 8 horas todos os dias. E a casa? Tá lá, esperando um tempo pra ver um pano…”.


É claro que, com tantas responsabilidades, não sobra tempo para o autocuidado. "Tem dia que nem tomo banho. Hidratante, creme, tenho e não uso. Virei uma marmota. Não dá tempo! Tento praticar meu ho´oponopono, tento ver alguma série, mas estou definitivamente além do fim da fila nesse momento, tentando não perder a oportunidade de trabalho que custei a conseguir, porque o mercado é muito cruel com mães atípicas”, desabafa Fernanda. "Sempre coloco todo o resto antes de mim".

A pedagoga conta que pede ajuda ao marido várias vezes, mas que o apoio de que precisa raramente vem. E também não sobra tempo para a vida a dois. "Eu peço para compartilhar mais as tarefas, para ele se organizar, porque não estamos vivendo e eu sinto falta... Tem dias que me sinto morrendo um pouco”, conta.

As mulheres estão adoecendo

Foto: Verne Ho/ Unsplash

Esse sentir "morrendo um pouco" dito por Fernanda é, infelizmente, o reflexo que a sobrecarga traz para as mulheres. Segundo alertam Lia Abbud e Juliana Mariz, jornalistas e fundadoras do projeto Fatigatis - conteúdo sobre o cansaço materno, se não houver uma "REdivisão" de responsabilidades da casa e o trabalho invisível que a mulher realiza não se tornar visível, "então essa equação não será positiva para a mulher. Em geral não é."


Isso porque essa exaustão não vem apenas de executar as tarefas, mas também de planejar e gerenciar o cotidiano da casa, o que é extremamente desgastante. "A sobrecarga traz um cansaço físico inegável e também emocional. Mulheres estão adoecendo, sim. Segundo a psicanalista Vera Iaconelli, 'mulheres que estão tentando fazer com que a conta mulher, trabalho e filhos feche estão deprimindo, somatizando e adoecendo'", citam.


Para elas, a sobrecarga encobre uma porção de aspectos como a busca pela perfeição, o medo de fracassar no papel imposto pela sociedade, o sentimento de culpa, o receio de ser julgada e outros.


"É uma carga e tanto, não? Por isso não ficamos surpresas quando lemos que existem pesquisas mostrando que a mulher tem mais propensão a sofrer de ansiedade e depressão. Ela está extremamente vulnerável nesse papel e suscetível."

Recentemente, estudos mostram que as mulheres podem ser as mais prejudicadas pela pandemia do novo coronavírus. Além da sobrecarga, elas estão enfrentando com ainda mais frequência a violência doméstica, conforme alerta o relatório divulgado em abril pela ONU Mulheres, entidade da Organização das Nações Unidas. Com o isolamento social, as agressões têm se intensificado, e com um agravante: em muitas cidades, os serviços de proteção à mulher estão paralisados.


A culpa materna pode gerar a sobrecarga


Muitas mulheres, inconscientemente, evitam pedir ajuda em questões domésticas e maternas com medo de se sentirem julgadas. "Como se isso fosse um atestado de fracasso. Algo na linha: 'eu escolhi ser mãe, então tenho de dar conta', como se essa escolha tivesse sido unilateral. Essa herança dos papéis pré-determinados está tão introjetada nela que ela não questiona. Cumpre as tarefas, vai no automático. Tem medo da culpa e do julgamento, então faz. Mas faz mais do que deveria. E então, vem a sobrecarga', analisam Juliana Mariz e Lia Abbud, da Fatigatis.


Elas propõem algumas ações para a mudança individual. Uma delas é o diálogo com o companheiro. "Sugerimos também elencar todas as atividades que acontecem para a casa funcionar. Tornar visíveis todos os afazeres e propor uma divisão de tarefas, incluindo os filhos, pensando em tempo disponível e habilidade de cada um."


Nesse período de quarenta, elas também indicam fazer grupos online, que confortam emocionalmente. "Fundamental ainda é estabelecer um tempo para si, principalmente no confinamento. Que sejam minutos trancada no banheiro ou uma hora para ler um livro. Tem de respirar, estabelecer limites e se colocar como prioridade. Mais do que nunca o autocuidado é essencial. Pensamos em autocuidado como aquele momento que nos ajuda a olharmos para nós e descobrirmos do que estamos precisando", diz.


Mas onde está a raiz do problema?

Foto: Austrian National Library/ Unsplash

Com tanto cansaço e falta de tempo até para tomar banho e dormir, não se pode negar: trabalho doméstico é trabalho. Embora mães que abriram mão da carreira para dar conta das demandas da família sejam frequentemente pressionadas a "voltar a trabalhar”, estar em casa cuidando de filho, roupa, louça, almoço, supermercado, idas ao médico, é trabalho, sim. E um tipo de trabalho que, além de nunca ter fim, é importantíssimo para a vida.


"Temos hoje, no Brasil, 70 milhões de lares. Alguém consegue imaginar como todas essas casas poderiam se manter sem trabalho doméstico? Sem limpeza, sem roupa lavada, sem preparo de alguma refeição, sem banho para as crianças, sem colocar o lixo para fora, sem compras no supermercado, sem organização? É impossível pensar esses domicílios todos funcionando sem o trabalho doméstico diário”, pontua a professora da UFRN Jordana Cristina de Jesus.


Além de imprescindível individualmente, o trabalho doméstico é valioso coletivamente, também. No livro O Ponto Zero da Revolução, a filósofa italiana Silvia Federici nos lembra que é esse trabalho não remunerado, invisibilizado e desempenhado sempre pelas mulheres que sustenta a estrutura do capitalismo. "Logo que levantamos a cabeça das meias que costuramos e das refeições que cozinhamos e contemplamos a totalidade da nossa jornada de trabalho vemos que, embora isso não resulte em um salário para nós mesmas, produzimos o produto mais precioso que existe no mercado capitalista: a força de trabalho", escreve.


Ela enfatiza que trabalho doméstico é muito mais do que limpar a casa. "É servir aos assalariados física, emocional e sexualmente, preparando-os para o trabalho dia após dia. É cuidar das nossas crianças - os trabalhadores do futuro -, amparando-as desde o nascimento e ao longo da vida, garantindo que o seu desempenho esteja de acordo com o que é esperado pelo capitalismo".


Por isso, não há mal algum em se dedicar ao trabalho doméstico. Ele é essencial para a vida. O problema é que recai inteiramente sobre as mulheres a responsabilidade pelas atividades que mantêm funcionando a vida dela, do marido e dos filhos.


"Mesmo que homens e mulheres dependam igualmente do trabalho doméstico para viver, o engajamento com essas atividades é muito assimétrico. Percebemos a enorme responsabilidade que recai sobre os ombros femininos no Brasil, a manutenção da vida e de 70 milhões de casas. É sobre essa desigualdade que precisamos conversar”, frisa Jordana.


Nem Ana nem Fernanda, as personagens dessa reportagem, combinaram com os respectivos maridos que elas assumiriam tantas tarefas. O que aconteceu com elas foi o mesmo que ocorre com tantas outras mulheres que dividem o teto com um homem, em um relacionamento afetivo: o trabalho doméstico está lá e, como a outra parte parece ignorá-lo, o senso de urgência e a ideia de que uma casa desorganizada é um fracasso feminino faz com que elas assumam as demandas uma vez, e depois outra, e sucessivamente, até introjetarem a obrigatoriedade não só da execução da tarefa, mas também a carga mental que a envolve.


Mas por que, em primeiro lugar, a parte masculina da relação não tomou nenhuma iniciativa diante da louça na pia, da roupa no cesto, da fralda suja? Segundo lembram Lia Abbud e Juliana Mariz,da Fatigatis, existe uma linha imaginária que impede o homem de adentrar nesse espaço, "seja por concordar com essas funções estanques, seja por falta de reflexão."

Qualquer que seja o caso do marido, ele perpetua o confinamento da mulher na opressora posição de ser obrigada a desempenhar sozinha um trabalho exaustivo, não remunerado e sem reconhecimento. Perpetua porque, há tempos, as mulheres são empurradas para o papel de cuidadoras coadjuvantes. E, de acordo com a professora Dra. Maíra Kubík Mano, do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia, foram muitos anos de violência contra a mulher que nos trouxeram até aqui.


"É um processo de séculos de opressão, perseguições e violência – dos estupros de pessoas escravizadas às fogueiras da Inquisição”, explica.

E se hoje continuamos sobrecarregadas pela divisão desigual do trabalho, não é por escolha. “O motivo principal da submissão à divisão desigual do trabalho é a violência, seja física, patrimonial ou psicológica. No entanto, como afirmava a socióloga Nicole-Claude Mathieu, é importante registrar que mesmo que as mulheres estejam submetidas à divisão desigual do trabalho, não quer dizer que elas estejam de acordo com ela: ceder não é consentir” afirma a professora.


“Essa não pode ser uma luta que cada mulher lute sozinha”

Foto: Pixabay/ Nappy.co

Portanto, a saída definitiva para romper esse ciclo não está em apontar para a mulher que está exausta, trabalhando das 5 da manhã até o meio da madrugada, e sugerir que faça exigências dentro de casa, ou que se separe do marido. "Sem políticas sociais e econômicas não haverá mudança significativa na vida das mulheres", destaca a professora Dra. Jordana Cristina de Jesus.


A doutora em Demografia sugere por onde a mudança pode começar. "No curto prazo, temos que agir para amenizar as cargas pesadas das mulheres, sobretudo as de camadas mais pobres, que afetam seu acesso à renda e a postos de trabalho de qualidade. Com acesso à renda, elas têm acesso a bens que podem diminuir o trabalho doméstico”, explica.


"Não podemos pensar em avançar apenas para um grupo de mulheres e deixar o restante para trás. Portanto, acredito que mulheres de camadas populares deveriam ser prioridade nesse primeiro momento".

Em uma perspectiva de longo prazo, Jordana afirma que necessitamos de mudanças não apenas culturais, mas também econômicas. "Precisamos do envolvimento de todas as instituições para promover mudanças nesse sentido", afirma. “Precisamos de uma mudança na forma como criamos meninos e meninas. E, nesse sentido, esferas como família, escola, igreja, pequenas comunidades, mídia, mercado de trabalho e Estado precisam estar alinhados. Essa não pode ser uma luta que cada mulher lute sozinha. É preciso desconstruir os papéis tradicionais de gênero, de forma a criarmos menos diferenciação em aspectos tão fundamentais da vida como o trabalho remunerado e não remunerado”.


A especialista vai além. "Também é necessário reformular o modo como se concilia, na atualidade, a vida dentro e a vida fora de casa. Precisamos repensar as longas jornadas de trabalho, que são incompatíveis com as demandas domésticas. Não se trata de substituir todo o trabalho doméstico por empregadas realizando essa atividade, porque elas também têm lar. Essas demandas são de todas as pessoas na família e de todos os tipos de ocupações", conclui.


*O nome foi trocado para preservar a identidade da entrevistada