• Cria Para o Mundo

"Não somos uma sociedade que dá conta da solidão"

Atualizado: Abr 2

O isolamento social traz à tona a importância de sermos uma boa companhia para nós mesmos. Conversamos com a psicóloga Adriana Roque sobre os impactos da quarentena sobre a nossa saúde emocional


Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Se há quatro meses alguém dissesse que hoje estaríamos todos confinados em casa, sem sair nem para ir à padaria, e fazendo uma série de rituais de higienização do lar, dos objetos e de nós mesmos, para protegermos uns aos outros de um vírus altamente contagioso e potencialmente letal, nós não acreditaríamos.


No entanto, aqui estamos, lidando com uma situação que não temos certeza de quando e como acabará, e que só conhecíamos em roteiro de filme e em seriados apocalípticos.


Diante de um inimigo invisível, o medo da morte, a ansiedade, os pensamentos ruins, as incertezas e a melancolia começaram a tomar espaço em nossos pensamentos com uma frequência e intensidade que muitos de nós nunca havíamos experienciado. Como manter a sanidade mental em um contexto tão preocupante e incerto?


Um recente estudo publicado por pesquisadores da Universidade Médica Naval de Shangai apontou que até 20% dos habitantes da nação asiática apresentam sinais de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), um distúrbio psiquiátrico que também prevaleceu no país após a epidemia de síndrome aguda respiratória grave (Sars), em 2003.

Os impactos psíquicos e emocionais dessa situação que estamos vivendo são reais e precisam de atenção. Pensando nisso, convidamos a psicóloga Adriana Roque para uma conversa ao vivo no Instagram do Cria Para o Mundo sobre o tema. O papo ocorreu na segunda-feira (30), e Adriana falou sobre os comportamentos que potencializam nosso sofrimento e ansiedade e a liberdade que todos temos para escolher como vamos viver essa quarentena.


Aprender a viver olhando para o agora


"Percebo que as pessoas reclamam do isolamento, mas também reclamavam da vida que tinham antes. Olhar para trás e dizer que a vida era muito melhor é cair em sofrimento, e isso não é necessário nesse momento", comentou a psicóloga durante a conversa.


"Sua vida provavelmente não era muito melhor. Você também tinha coisas que te angustiavam, que você queria mudar. E quando você está no presente, mas olhando para o passado, é claro que começa a achar todos os recursos para acreditar que deixou sua vida boa lá atrás. E isso é muito injusto. Então, olhe para o momento presente".

A psicóloga explicou que o mesmo vale para quem tem passado os dias angustiado, com medo do que está por vir. "A negação e a ansiedade não vão fazer com que você tenha ações efetivas, só vão te impedir de colocar o foco onde você pode contribuir", disse.


Adriana contou que tem percebido as pessoas intensificando comportamentos antigos, em vez de abraçar a oportunidade de viver de um modo diferente e mais satisfatório. É o caso de quem tinha uma rotina frenética e reclamava o tempo todo que não conseguia arrumar tempo para dormir. Agora, passando o dia em casa, a pessoa pode colocar o sono em dia, mas opta por maratonar séries de madrugada, ou trabalhar sem hora para o fim do expediente, mantendo um problema antigo que poderia ser solucionado.


Sobre isso, a psicóloga pontuou que ainda somos livres, mesmo no caos. "Você é livre para escolher como quer viver o isolamento. E quais escolhas você quer fazer para passar por esse momento?", questionou.

A solidão de ser a própria companhia


Especialmente para quem não vive em uma casa cheia, ou para quem de repente se viu sem a maioria dos compromissos do dia a dia, o isolamento social pode ser um momento de solidão. Mas Adriana lembra que todos somos sozinhos, o tempo todo.


"Nós, psicólogos, estamos na linha de frente para contribuir para que as pessoas se encontrem nessa solidão, para que vivam a solidão com plenitude e entendam que nós somos a nossa única companhia desde o nascimento até quando a gente se vai", afirmou. "As outras pessoas passam pela nossa vida. Então, é muito importante que a gente se coloque nesse lugar de solidão, e entenda: eu preciso ser a minha melhor companhia".


A psicóloga reconhece que, num primeiro momento, estar só pode ser assustador. "Eu entendo quando a gente fala de isolamento como forma de solidão porque não somos uma sociedade que dá conta de ficar com a gente. E se você está preenchendo seus dias só para não lidar com a solidão, isso vai ser um problema. Você vai continuar se sentindo vazia, achando que estar sozinha é tédio".

Buscando ajuda

Nem sempre lidar com tudo isso é possível sozinho. Quando a ansiedade ou a tristeza nos impedem de encontrar saídas para que nossos dias sejam mais leves e para que seguir em frente não pareça tão difícil, é hora de procurar apoio profissional. E são muitos os psicólogos que estão atendendo online.

Há, inclusive, grupos desses profissionais que, preocupados com a saúde emocional da população, passaram a fazer atendimentos gratuitos pela internet.

Exemplo disso é o A Chave da Questão, projeto que reuniu profissionais com abordagem multidisciplinar para acolher a população em suas mais diversas aflições nesse momento.

E o interesse é alto. Quando a iniciativa foi lançada, o site teve mais de um milhão de acessos em pouco mais de 72 horas, e cerca de 200 mensagens por minuto, o que sobrecarregou o sistema. Para dar conta da demanda, o A Chave da Questão passou a utilizar também vídeo-aulas, interações ao vivo e informações seguras por meio das redes sociais, Facebook e Instagram.

O site Fábrica de Relacionamentos é outro exemplo de acolhimento gratuito. A plataforma reúne psicólogos de várias regiões do país que fazem atendimento via chamada de vídeo, ligação, áudio por aplicativo ou mensagens instantâneas.

Basta acessar o site e escolher um profissional, que combinará o procedimento adotado com o solicitante. Os horários de atendimento variam. A iniciativa é organizada e coordenada pela Igreja Adventista do Sétimo Dia de Belo Horizonte.

Dicas para a saúde mental

A Organização Mundial de Saúde (OMS), publicou, em 20 de março, um guia com cuidados para a saúde mental durante esse período de emergência sanitária.

A entidade defende ser imprescindível os cuidados psicológicos com a população em isolamento social, uma vez que a incerteza do momento, os riscos de contaminação e a necessidade de se privar de contato físico com outras pessoas podem agravar ou causar problemas mentais.

O documento é dirigido para a população em geral, profissionais de saúde, crianças e idosos, além de pessoas em quarentena.

Separamos aqui algumas dicas.

  • Mantenha seus contatos

Fique em contato e mantenha sua rede de amigos e conhecidos,  ainda que isolado tente ao máximo manter sua rotina e crie novas. 


  • Fique atento aos seus sentimentos

Durante esse período de estresse, esteja atento a seus sentimentos e demandas internas.


  • Faça atividade física

Aprenda exercícios físicos simples para fazer em casa todos os dias durante o isolamento para não reduzir a mobilidade.

  • Evite excessos de informações

Reduza a leitura ou o contato com notícias que podem causar ansiedade ou estresse. Busque informação apenas de fontes fidedignas.  Procure informações e atualizações uma ou duas vezes ao dia evitando o "bombardeio desnecessário" de informações. 


  • Não tenha preconceitos

Não existe nenhuma relação da doença com uma etnia ou nacionalidade. As pessoas infectadas não fizeram nada errado e merecem nosso apoio, compaixão e gentileza.


  • Oriente as crianças

Ajude as crianças a expressarem, de forma positiva, seus medos e ansiedades. Atividade criativa, jogos e desenhos podem ajudar. Mantenha as rotinas familiares sempre que possível. Pense em atividades lúdicas e pedagógicas para fazer com os pequenos. Sempre que possível, incentive-os a continuarem brincando e se sociabilizando com os outros, mesmo que somente na família.


Em estresses e crises é normal para a criança buscar mais os pais e exigirem mais deles. Fale com seus filhos sobre o covid-19 de forma honesta e apropriada à idade deles. 


  • Tenha paciência com os idosos

Eles são a parte mais afetada dessa pandemia e podem se tornar ansiosos, estressados, com raiva, agitados. Ofereça a eles apoio emocional, por meio de redes familiares ou de agentes de saúde.


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