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“Viver um puerpério de gêmeos, com coronavírus, não é fácil"

Atualizado: Mai 25

Vanessa teve os primeiros sintomas de Covid-19 na 36ª semana de gravidez. O positivo veio no dia seguinte ao nascimento de Alice e Rafael

Foto: Arquivo Pessoal

Por Vanessa Simões Vivi uma gestação gemelar tranquila e sem riscos. Consegui trabalhar até o final, e minha médica me deu a licença-maternidade um dia antes da bolsa estourar. Quando a quarentena começou, eu me isolei em casa com meu filho Leonardo, de 7 anos, e meu marido. Nós passamos a trabalhar em home office, e só ele saía para ir ao supermercado. Mesmo assim, eu peguei o novo coronavírus. Apesar de não ter caído a ficha na hora, meu primeiro sintoma foi uma febre, no dia 3 de abril. Junto com a febre, senti contrações de meia em meia hora e entrei em contato com a minha médica. Ela me recomendou tomar paracetamol e escopolamina, e com isso a febre baixou, as contrações passaram, e eu não senti mais nada. Quatro dias depois, em 7 de abril, eu acordei com sintomas de resfriado: coriza, tosse e espirro. Também reparei que não estava sentindo o cheiro e nem o gosto da comida, e aí já fiquei alerta. No dia seguinte falei com a minha médica, só que ela não deu muita bola, achou que não era nada. Eu estava respeitando a quarentena e só saía para as consultas, exames e coisas relacionadas ao pré-natal. Mas no dia 30 de março, quatro dias antes de ter febre, eu precisei tomar injeção de corticóide para fortalecer os pulmões dos bebês, e essa injeção estava em falta nas farmácias, por isso tive que ir ao hospital. E acho que foi lá que peguei o vírus. Tive que abrir ficha, aguardar, como um paciente normal, e no dia do parto soube que a enfermeira que me aplicou a injeção estava infectada e em isolamento. Acho que peguei dela, ou junto com ela.

Depois de perder o olfato e o paladar, tive certeza que estava com o novo coronavírus, apesar de não ter confirmação e só apresentar sintomas leves.

Na madrugada do dia 12 para o dia 13 de abril, o meu tampão saiu. Lendo sobre a doença, soube que o décimo dia era o mais crítico, e eu estava a exatamente 10 dias do primeiro sintoma, então acho que a Covid-19 pode ter antecipado a perda do tampão e o início das contrações. Alice e Rafael não nasceriam prematuros, mas eu ainda estava entrando na 37ª semana. No dia 14 de abril a bolsa estourou e eu fui para o hospital. Meu marido não pode entrar e eu tive que ficar sozinha. Foi horrível. Enquanto me preparava para a cesárea, aconteceu algo pela primeira vez: eu tive uma crise forte de tosse. Acho que foi por causa da dor das contrações, mas isso já deixou as enfermeiras em alerta e eu passei a ser tratada como caso suspeito.

Quando meus filhos nasceram, eu só consegui ver o Rafael. Ele e Alice foram levados e não pudemos ter contato pele a pele. Foi péssimo, mas eu sei que estava dentro do protocolo.

Depois, fiquei isolada em um quarto no andar dos pacientes de coronavírus, e não na maternidade. Eu não podia sair do quarto para caminhar no corredor, mas Rafael e Alice foram para o quarto comigo e eu pude amamentá-los, tomando os cuidados necessários. No dia seguinte ao nascimento deles saiu o resultado do exame: positivo. Fiz o teste do cotonete, o PCR, e fiz uma tomografia, que mostrou que 30% do pulmão direito estava comprometido. Com isso, eles confirmaram que eu era uma paciente de Covid-19, com um quadro de leve a moderado. Eu já tinha certeza de que estava infectada, mas quando veio o resultado foi um baque muito grande. A pediatra logo me falou que meu filho mais velho teria que ir para a casa dos meus pais, e eu me senti muito mal, pensei “Caramba, eu fiquei em casa tanto tempo, e quando precisei sair fui infectada”. Eu chorei muito, por vários dias, por estar longe do meu filho e por ser um risco para ele, para o meu marido e para os bebês. Não cheguei a sentir medo de morrer, mas tive muito medo de contaminar as pessoas.


Saber que eu posso fazer mal para os meus filhos é perturbador. Apesar de tudo, tento ver o lado positivo: só tive sintomas leves. Em momento algum senti falta de ar.

Em casa, eu só tiro a máscara para comer e tomar banho. Uso até para dormir. A recomendação que recebi foi adotar esse cuidado, passar álcool gel nas mãos antes e depois de ter contato com os bebês e ficar atenta a qualquer mudança na respiração deles. Eu não fui medicada, e o clínico geral que me atendeu disse que o meu caso não era nada, comparado com o que ele estava vendo ali. Então, só o que eu podia fazer era me manter em isolamento e esperar os sintomas passarem. Não é fácil viver um puerpério de gêmeos, com coronavírus e longe do meu filho mais velho. Eu queria ter minha mãe me ajudando, queria receber visitas do meu pai e dos meus irmãos… E tinha muitos amigos que falavam que viriam aqui nos ajudar, porque ter gêmeos é muito complicado, mas a gente teve que vetar todas as visitas. Por outro lado, tudo isso me aproximou ainda mais do meu marido, e eu nem achava que seria possível sermos mais próximos do que já éramos. Eu não tenho palavras para descrever o quanto ele tem sido participativo. É um momento desafiador, mas também de grande aprendizado e de descobertas, graças à dedicação do meu esposo e à nossa parceria. Hoje, 45 dias depois do primeiro sintoma, eu ainda não recebi um resultado negativo para o exame de coronavírus. Fiz o teste sorológico e o de anticorpos, ambos por exame de sangue, e ambos deram positivo. Na semana passada, Leo voltou para casa e Alice e Rafael completaram um mês de vida. Fizemos uma festinha entre nós para comemorar o mesversário dos bebês e dar as boas vindas ao meu mais velho, mas continuo usando álcool em gel e máscara dentro de casa, só tiro para comer e tomar banho. O médico infectologista disse que já não transmito mais o vírus, mas prefiro esperar.

Eu acho que todos que podem, devem ficar em casa, e se expor o mínimo possível.

As gestantes e puérperas estão no grupo de risco, têm uma imunidade mais baixa e podem contrair a doença mais facilmente, além dela poder evoluir de uma forma mais grave. Então se protejam. Também não é indicado suspender o pré-natal, então, nos dias de consulta, usem máscara, passem álcool em gel, lavem as mãos. Todo cuidado é necessário. E além disso, escolham um médico em que vocês confiem de olhos fechados para acompanhar essa fase linda que é a gestação, mas em um momento muito difícil que o mundo vive.


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