• Cria Para o Mundo

Morar fora do Brasil: Famílias falam sobre a vida em outro país

Atualizado: Jul 31

Com expectativas e um frio na barriga, famílias com crianças encararam as diferenças culturais, climáticas e de idioma para construir a vida que sonharam

Danny, Mariel e a pequena Mia: vida nova em Galway, na Irlanda

Por Nathalia Ilovatte


Em março de 2019, a engenheira de computação Danielle Camilato chegou em Auckland, Nova Zelândia, com o marido, os filhos de 4 e 2 anos, seis malas, um visto de turismo e uma casa alugada pelo site de hospedagens Airbnb. Na bagagem, a família levava os planos de morar fora do Brasil e reconstruir a vida em outro país.


Encontraram um lugar fixo para morar, e Danielle logo arrumou emprego na área de TI. As crianças foram para uma creche e aprenderam a falar inglês. Aos poucos, a família foi criando vínculos com o lugar, e hoje não tem planos de voltar para o Brasil. “Nossas expectativas eram principalmente ter mais qualidade de vida, o que, pra nós, significa ter acesso a lazer, educação, saúde e segurança de qualidade sem precisar ter muito dinheiro para isso, além de poder ter mais contato com a natureza”, conta Danielle, “e essas expectativas não só se concretizaram, como a cada etapa somos surpreendidos”.


Nem tudo são flores, e alguns detalhes do cotidiano lembram o tempo todo que o novo país não é nada igual à terra natal, mas a engenheira garante que vale a pena.


“Culturalmente tem coisas muito diferentes, a comida é muito diferente e a saudade da família sempre aperta, mas foi uma renúncia que estávamos dispostos a fazer para poder ter um pula-pula no quintal, a praia a 5km de casa e um playground público a 200 metros”, afirma.

Seja pelas oportunidades de emprego, pelo acesso a educação gratuita de qualidade ou pela qualidade de vida em geral, fincar raízes em outro país é o sonho de muitos brasileiros. Só em 2018, 22,4 mil pessoas entregaram a declaração de saída definitiva do país à Receita Federal. Em 2017, foram 21,2 mil. E, embora a pandemia tenha congelado planos desse tipo em 2020, a busca no Google por informações sobre mudar para a Europa cresceu 100% de março pra cá.


Será que vale a pena morar fora do Brasil?


A coach e educadora sistêmica do sono Ane Vaz, que mudou do Rio de Janeiro para Nova York com o marido e a filha, então com 3 anos, é gestora do projeto Mães Expatriadas, que reúne mais de 13 mil mulheres brasileiras, residentes em 30 países, para trocar informações e aplacar a solidão dos primeiros meses morando fora. Ela conta que percebe muita romantização em torno da mudança de país, e recomenda conversar muito com famílias expatriadas que vivem na cidade dos sonhos, para só então tomar uma decisão. “Ver o filho triste, sentindo saudade, demorando para se adaptar na escola não é fácil. Então, você tem que ter bem claro por que essa mudança é importante para você e perceber se não é só uma projeção. É preciso entender o que não funciona para você no Brasil e se funcionaria em algum outro lugar”, aconselha.

Ane, o marido e as filhas no inverno nova-iorquino

Ane lembra que as mudanças e as renúncias são muitas e que algumas delas são sentidas cotidianamente. “A gente perde o convívio com as pessoas mais próximas e perde a rede de apoio. E reconstruí-la demora, é complicado e a gente lida com uma sobrecarga muito grande. No Brasil, quem pode manter uma pessoa para limpar a casa ou uma babá, nem sempre consegue fazê-lo em outro país. Aqui paga-se um valor muito maior, um valor justo, porque são trabalhos importantíssimos, mas sei que nem todo mundo consegue arcar”, conta.


Se para uns essas questões são meros detalhes, para outras famílias representam uma mudança drástica no cotidiano que também deve ser considerada.


“Eu recomendo ir com a noção clara do que é a realidade no lugar para onde você vai. Não adianta lidar com isso como sonho, tem que lidar como realidade”, diz Ane.

Primeiros três meses são os mais difíceis


Há dois anos vivendo com o marido e os dois filhos, Alicia (9) e Lucca (6), em Estocolmo, na Suécia, a psicóloga Fabiana Agapito reuniu experiências e aprendizados em um livro sobre a adaptação das famílias em um novo país. Ainda em fase de revisão, ele vai trazer explicações sobre cada ciclo vivido no início da mudança, até todo mundo estar ambientado e com a vida fluindo. Um processo que, segundo ela, costuma levar dois anos.

Fabiana e os filhos, Lucca e Alicia, na Suécia

“Tem uma alegria inicial, mas passa um mês e você ainda não está com a casa arrumada, não sabe para qual escola seus filhos vão, as crianças sentem falta dos amigos e da escola antiga, e isso começa a angustiar. Mas passa”, conta a psicóloga, “aí vem a fase em que as crianças entram na escola. Eles começam empolgados, mas sentem o choque cultural. Tem a língua que não entendem, o jeito diferente como as pessoas se relacionam, eles passam um tempo sem conseguir conversar, ficam tristes…”.


Segundo Fabiana, os meses iniciais costumam ser os mais complicados. “Até você definir onde vai morar e matricular os filhos na escola demora um tempo, porque tem que sair o documento de residência para fazer o pedido. Então, nos primeiros três meses você fica em um limbo. É bem difícil. As crianças ficam fora da escola, você não conhece ninguém no lugar, e por mais que tenha muito o que fazer na cidade, nesse momento você começa a se questionar… Eu percebo que essa fase é a de maior angústia para as mães que eu atendo”, relata.


A psicóloga explica que esse período é cansativo porque as famílias têm que gastar energia com coisas que, no Brasil, eram feitas no automático. “Você vai no supermercado e compra os produtos errados, tem que navegar na burocracia local, não entende como as coisas funcionam… Esse momento de descobrir tudo deixa o emocional abalado, porque exige muito”.


Planejamento é importante na mudança de país


Dá para perceber que, para recomeçar em outro país, não basta arrumar um emprego ou ter um trabalho remoto, desmontar a casa, comprar as passagens e embarcar. É preciso se preparar para imprevistos, contratempos e muitas coisas para resolver.

Danny, Mariel e Mia na praia de Galway, Irlanda

A poeta visual, escritora e educadora Danny Bittencourt, que vive em Galway, na Irlanda, com a esposa, Mariel, e a filha, Mia, conta que a mudança teve toda a sorte de surpresas. O casal já estava há um mês em Bérgamo, na Itália, resolvendo questões da cidadania italiana, quando receberam a notícia da chegada de Mia. Voltaram correndo para o Brasil para formalizar a adoção, depois de 4 meses aqui, foram correndo para Bérgamo para finalizar a cidadania, e de lá correram para Galway, para Mariel não perder o doutorado. “Chegamos na Itália em julho e logo no segundo dia descobrimos que nosso processo estava parado e só daria andamento em outubro, pois o órgão responsável estava de férias. Precisávamos estar em setembro na Irlanda para o começo do semestre. Tudo que a gente conseguia planejar, fazíamos, mas no fim, tudo saiu de outro jeito. A cidadania demorou mais tempo do que a gente previa, meu visto irlandês venceu e tive que ir com a Mia correndo para Itália, onde ficamos por quase 2 meses para que o processo fosse finalizado e a gente pudesse voltar”, conta Danny.


Por isso, ela aconselha ter um bom planejamento e cuidar de tudo com antecedência. “Minha dica para quem está começando o processo de cidadania agora é se planejar por uns 6 meses para fazer com calma, e para dar tempo de ter imprevistos. Nós vivemos esse ano todo em muita tensão”, lembra. “O positivo disso tudo foi que nós conseguimos nos adaptar muito fácil com a mudança de país e conforme as coisas burocráticas foram se resolvendo a gente começou a curtir cada vez mais todo o processo. E de toda essa luta, ficamos com um amor enorme pela Itália, a Mia frequentou creche italiana, ela fala algumas palavras, nós começamos estudar italiano e certamente, em algum momento, voltaremos para lá, dessa vez de forma planejada e tranquila”.


Se morar fora do Brasil é o seu sonho e você deseja tirar esse plano do papel, conheça as histórias de Danielle, Ane, Fabiana e Danny para se inspirar:


"Aqui temos a gentileza como princípio básico"


Danielle Camilato é mãe de Manu, de 5 anos, e de Leo, de 3 anos. Ela, o marido e os filhos moram em Auckland, Nova Zelândia




"Se fizer sentido para você, não deixe de ir"


Ane Vaz é mãe de duas meninas, uma de 5 anos, e uma de poucos meses. Ela, o marido e as filhas vivem em Nova York, Estados Unidos





"É um mundo que se abre"


Fabiana Agapito mora com o marido e os filhos, Alicia, de 9 anos, e Lucca, de 7 anos, em Solna, cidade vizinha a Estocolmo, na Suécia






"Hoje levamos uma vida mais simples e somos mais felizes"


Danny Bittencourt mora com a esposa, Mariel, e a filha, Mia, em Galway, Irlanda





Tags: Morar fora do Brasil; mudar de país; morar na Irlanda; morar na Suécia; morar na Nova Zelândia; morar nos Estados Unidos