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Meus bons amigos, onde estão?

Atualizado: Mar 12

Com a chegada dos filhos, algumas amizades se afastam e a solidão se torna a companhia de muitas mães. Especialistas dizem que o sentimento é comum e inerente à maternidade


Por Luciane Evans


Que mãe não esperou por aquela visita da amiga ao bebê, ("amor da titia", como ela dizia) mas que nunca apareceu? Ou se apareceu, nunca mais voltou? Que mãe não se sentiu excluída ao ver nas redes sociais sua velha turma de amigos reunida, sem que ela fosse convidada? Quem nunca escutou a desculpa: "mas agora você é mãe, achei que não quisesse ir"? Que mulher nunca se perguntou: "para onde foram os meus amigos depois que os meus filhos chegaram?".


Há quem tenha a sorte de engravidar "em bando" e, assim, com os velhos amigos, compartilhar a experiência de criar filhos juntos, numa cumplicidade repleta de trocas. Mas a maioria das pessoas não tem essa boa história para contar e se depara com uma realidade muitas vezes cruel para quem está com um bebê no colo: a solidão.


Considerada um dos sentimentos mais conflituosos do puerpério - sentir-se só mesmo ao lado de um bebê -, a solidão é inerente à transformação por qual passa a mulher depois da chegada do filho. Porém, o afastamento dos amigos ou até mesmo o isolamento dos próprios pais depois da maternidade é uma forma de ampliar essa sensação.


E quem se depara com ela se assusta. "A partir do momento em que a mulher engravida, as atitudes das pessoas com ela também mudam. Ela se torna o centro das atenções, sua barriga é quase patrimônio público. Quando o bebê nasce, os olhares se voltam para ele. Ninguém pergunta se a mulher, agora mãe, está bem, se precisa de ajuda ou de uma simples companhia. É a famosa invisibilidade materna”, comenta Flavia Matta, psicóloga clínica, perinatal e da parentalidade.


Por mais que haja rede de apoio ao redor dessa mulher, a solidão existe. Ela está ali, como parte fundamental da transformação que chega com o filho. Camila Ramos, psicóloga especialista em Saúde Mental, com formação em Psicologia do Puerpério e criadora do projeto "Um colo para mãe”, diz que há um conceito da antropologia, resgatado e integrado à psicologia materna, que compara as transformações pelas quais essa mulher passa, quando se torna mãe, à adolescência. É a chamada Matrescência, que seria marcada sobretudo pela perda de identidade.


"A mulher perde um tanto dos seus lugares de referência. Balançam os interesses, as relações, os lugares sociais e subjetivos que a sustentavam e com os quais ela se identificava. Os lugares e papéis sociais e relacionais da mulher puérpera se reestruturam e se ressignificam. E isso implica também perdas", diz Camila, lembrando que as pessoas ao redor da mãe continuam vivendo suas vidas, no ritmo de sempre. E muitas não conseguem entender o que se passa, pois não fazem ideia do que é um puerpério.


"Alguns amigos se afastam por conta desse descompasso. Outras relações simplesmente não se encaixam, mesmo. Mas eu diria que, mais do que perder, a Matrescência precipita uma reconfiguração de todos os campos da vida da mulher, inclusive, relacionais. Alguns amigos se vão, outras relações mudam para se encaixar de outras maneiras, e novos amigos também podem chegar", enfatiza Camila.

Leia os depoimentos de mães que preferiram não se identificar:




Solidão da mãe moderna


Esses encontros e desencontros das amizades são mais intensos para nós, mães, do século 21. Isso porque, ao dar conta de trabalho, casa e filhos, a mulher está mais sobrecarregada do que nunca, e muitas vezes, o lazer fica para depois.


O acúmulo de funções e o cansaço constante acabam colaborando para que as mulheres se distanciem das suas vidas sociais. "Às vezes não são os amigos que se distanciam, mas a mulher que se isola não se permitindo essa aproximação. A forma como ela pensa sobre a sua vida social vai moldar a sua experiência com a solidão", diz Flávia Matta.


Mas, mesmo sobrecarregadas, o estar entre os amigos é importante e fundamental para a saúde mental das mulheres mães. "Somos seres sociais", define Camila Ramos, dizendo ser parte importante de nossa existência nos sentir pertencentes.


"Os espaços de pertencimento são estruturantes de nossa subjetividade, e mexer nessa estrutura pode trazer bastante insegurança e solidão. Cuidar de um bebê exige um movimento para dentro de si, por conta da regressão emocional que pode ocorrer no puerpério. Além disso, a chegada dele instaura um outro ritmo, mais introspectivo, e que chama mais para a esfera doméstica do que para o mundo exterior. É muito comum que as mães se sintam ambivalentes nesse momento: querendo estar ali, protegidas das interferências externas, quietinhas com seus bebês e, ao mesmo tempo, se sentindo apartadas do resto do mundo, perdendo o que está acontecendo lá fora", relata Camila.


Para ela, as mulheres mais dinâmicas e expansivas podem sofrer um pouco mais com essas mudanças do que as introspectivas e caseiras. "Não se sentir fazendo parte e não ter as relações que conhecia antes pode gerar muita solidão. No entanto, parte desse sentimento é intrínseco às mudanças de fase, às crises do desenvolvimento. Há algo dessa experiência que é essencialmente solitário, pois é uma viagem para dentro de si", esclarece Camila. Ela chama a transição para a maternidade de um rito de passagem.


"Em alguns momentos dessa jornada, a mulher vai se deparar com tanta coisa íntima e pessoal, inclusive, com muitos conteúdos inconscientes. E essa é a solidão também."

Juliana Saraiva resgatou as amizades ao se abrir emocionalmente para os amigos e familiares

"Eu neguei que a solidão materna fosse acontecer comigo, mas aconteceu"


A gestora ambiental Juliana Saraiva pensava que seria impossível a solidão materna bater à sua porta. "Era algo inimaginável de acontecer. Sempre fui cercada de amigos, casa movimentada e finais de semana agitados. Eu neguei que a solidão materna fosse acontecer comigo, mas aconteceu", conta. Juliana é mãe do Theo, de 3 anos e 8 meses, e diz que dois fatos a levaram a essa realidade.


"Desconhecimento da real maternidade e desconhecimento da patologia que meu filho nasceu (pé torto congênito). Os desafios nos fazem pensar na necessidade de um maior apoio. Mas o filho é seu, a responsabilidade é sua. E cadê as pessoas que fazem parte da sua vida? Estão cuidando da vida delas. Vem o vazio e sensação de abandono."


Se fossemos culpar alguém por esse sentimento que invade a alma feminina, Flavia Matta concorda com Juliana e diria que a culpa seria, sim, da romanização da maternidade e do mito da “mãe perfeita”.

"A mulher é obrigada a ter filhos e amá-los incondicionalmente. Não há outra alternativa para ela. Infelizmente, isso são crenças sociais criadas pelo patriarcado, tornando-se também um problema de gênero. Mesmo a mulher vivendo em um mundo pós-moderno na qual ganhou seu espaço, ela continua vivendo as sombras da desigualdade de gênero e do modelo velho da maternidade cor-de-rosa. Quando ela se depara com essas questões ao vivenciar a maternidade, ela se frustra", ressalta Flavia Matta.

Mas, apesar de essa romantização, Camila Ramos diz que vivemos um momento histórico muito especial, no qual a mulher que se transforma em mãe é olhada de maneira mais integral, e considerada protagonista dessa experiência.


“Mesmo com pequenos avanços na área da psicologia materna, o olhar sobre a transição para a maternidade está sendo ampliado. Já estamos mudando a concepção puramente biologicista dessa fase e entendendo que a biologia sozinha não dá conta de explicar as complexas transformações que esse processo gera”, diz.


Um exemplo disso é que o puerpério não mais significa os 40 dias de resguardo para o restabelecimento físico e sexual da mulher. Conforme explica Camila, ele pode durar de meses a anos, e "operar uma verdadeira revolução na vida da mulher."


"A chegada de um filho altera toda a fisiologia e o funcionamento cerebral, transforma o psiquismo e as emoções, e implica mudanças sociais também. Os afetos vibram de outro jeito e mexem com as estruturas relacionais conhecidas. Mexem com a dinâmica do casal, com as relações familiares e com as amizades", comenta Camila.

Para ela, o puerpério, teria a potência de reorganizar as relações. "Os interesses e a sensibilidade se alteram, e a disponibilidade para os encontros muda - sobretudo no início, quando a mulher está intensamente voltada para a conexão e para os cuidados com o serzinho que acabou de chegar", diz.



É preciso boa dose de empatia dos amigos


"Tive minha primeira filha numa fase muito boa da vida. Aos 30 anos, trabalhando muito, prosperando, vivia rodeada de pessoas, encontros e viagens gostosas de fim de semana. Logo que minha filha nasceu, entendi que era só mais uma na multidão. Poucas dessas amigas me visitaram, ninguém nos chamava para nada. Senti que as pessoas julgavam que era difícil sair com criança, mas tampouco tentavam nos reinserir na vida social."


O depoimento é de P.C., que diz não ter vivido isso sozinha. Seu companheiro também sentiu muito o afastamento dos amigos e ainda sente.

"A sensação que tenho é de que as pessoas enxergam a maternidade como uma prisão, um isolamento. E isso é uma crença que as impede de estender as mãos e entender o momento com mais realidade e empatia."

A situação se repetiu também com o segundo filho de P.C., e até mesmo as mães, com as quais ela tinha feito amizade depois da primeira filha, se afastaram. "Entendo que já estavam conquistando novamente uma liberdade e eu me 'aprisionei' em um bebê de novo."


São muitos os fatores que podem influenciar esse distanciamento. Segundo explica Flavia Matta, o primeiro deles é a diferença no ciclo vital: um tem filho, outro não.


"Os amigos que não têm filhos acreditam que sua presença pode atrapalhar, outros já não

gostam de ficar perto de criança ou até mesmo não sabem lidar com elas. A mulher que

tem filho traz mudanças em seu comportamento e até mesmo em seu repertório de fala,

agora ela só sabe falar de maternidade, são pensamentos e comportamentos diferentes e

divergentes, tornando crenças disfuncionais, sem parar para discuti-las, e o distanciamento acaba sendo automático."


Mas as pessoas que rodeiam essa mulher podem e devem se esforçar para compreender as vicissitudes pelas quais ela está passando.


"A questão é que isso demanda uma boa dose de empatia e de disponibilidade para se adaptar e acompanhar todas essas mudanças. E nem sempre as pessoas estão disponíveis. Acrescente aí o fato de que no imaginário social ainda impera a ideia da mãe santa, dedicada ao lar e interessada exclusivamente na família e no bebê. Então, a mãe passa a não ser mais chamada para sair, nem convidada para atividades que ela desejaria participar", comenta Camila.

Nesse rearranjo, ocorre um processo de perda da rede social. "Mas, como em todas as grandes transições do desenvolvimento, na maternidade muito se perde e muito se ganha. Muitos amigos se afastam, mas novas relações podem se desenvolver”, reforça.



Consciência, autoconhecimento e compartilhar vivências


A consciência de que essa fase da maternidade é essencialmente solitária e de que não há nada de errado em sentir assim é um dos pontos que, segundo Camila Ramos, vai ajudar a tirar alguns quilos de cobrança das costas das mães que se sentem só.


É ter a consciência “que, por mais que se tenha desejado, não vai ser só bom". "Pode e vai ser incrível sim, mas nem sempre será fácil. E saber disso nos ajuda a integrar a dimensão da maternidade vivida, não tão romantizada. Essa ideia de maternidade como completude e alegria nos faz achar que os desafios, tão comuns dessa experiência, não vão acontecer, ou que algo está errado conosco, com o nosso maternar, com nossas relações. Mas não! A maioria de nós vive essa transição cheia ambivalência, dores e delícias, perdas e ganhos. E é totalmente normal. É importante saber disso", alerta Camila.


O autoconhecimento é outro ponto levantado por Flavia. “A partir dele a mulher saberá identificar até que ponto ela se sente sozinha e até que ponto isso a incomoda. Poder contar com um bom suporte social e, principalmente, conjugal é essencial para prevenir o adoecimento psíquico e até mesmo esse sentimento de solidão", diz.


Mas, se necessário, é bom lembrar que pedir ajuda, profissional ou não, é outro caminho benéfico nessa história. "Com acompanhamento psicológico, a mulher passa a potencializar seu equilíbrio que permite compreender, interpretar e se adaptar ao seu novo

papel. Importante é reconhecer que precisa de ajuda e se permitir", esclarece Flavia.


Outro caminho é se abrir, como destaca Camila. Falar mais sobre as próprias experiencias e

sentimentos, sem tanto autojulgamento pode ajudar criar novas redes relacionais, novos espaços de pertencimento, como fazer contato com outras famílias e mulheres que também estão vivenciando a parentalidade, ou participar de rodas de pós-parto e puerpério. "Podemos amenizar bastante esse sentimento de solidão ao compartilhar e se abrir para criar novas parcerias."


Fale sobre seus sentimentos e se permita


Chame sua amiga para um café, um almoço, um cinema. Seja você a mulher que se sente sozinha depois da chegada do filho, seja você a amiga que sumiu.


"Muitas mulheres se isolam e evitam sair de casa porque precisam organizar as coisas da criança, mala, carrinho, fraldas.Por isso, os amigos devem ser prestativos nesse momento. Na maioria das vezes apenas uma visita já é significativo para ela, principalmente, se essa companhia se interessar realmente por ela, em querer saber como ela está, como está se sentindo com a maternidade, e oferecer colo, escuta, afeto e apoio”, diz Flavia.


Juliana resgatou os amigos quando percebeu que esse encontro também dependia dela. "Resgatar a vida social após a maternidade é um desafio que só depende de nós e é fundamental para a nossa saúde mental", diz, contando que começou a sair da solidão quando ligou para amigos e familiares.


"Liguei para eles e disse como estava me sentindo e os chamei para me visitar. Falar abertamente faz muito bem", indica. Camila Ramos reforça ser muito válido a mulher contar o que está passando, ser verdadeira, dizer o que precisa, e que deseja que seus amigos estejam mais próximos.


"Às vezes, esperamos que o outro saiba o que precisamos, mas ninguém está dentro de nós! Cabe a nós, sim, falar, pedir, chamar. Podemos ter ótimas surpresas quando somos verdadeiras e usamos a vulnerabilidade a nosso favor", destaca Camila.

O importante, segundo ela, é, aos poucos, ir abrindo a janelinha, "uma fresta na porta da casa e do coração para deixar o sol e a vida entrarem." "A chegada de um filho é uma caótica aventura, por vezes, solitária. Mas pode ser uma oportunidade de recriar, de renascer, de crescer”, conclui Camila.


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