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"Mães, saiam do armário"

Deborah Alaman, mãe de um menino transgênero, viralizou na internet ao defendê-lo de agressões verbais. Ela convoca os pais a se posicionarem e acolherem seus filhos trans.

Deborah Alaman e o filho Hugo. "Tenho muito orgulho e amor pelo filho que tenho" (Fotos Arquivo Pessoal)

Por Luciane Evans


Ela se arma de informação e de respeito, e enche o peito de coragem. Vai para as ruas, milita, veste a camisa. Defende seu filho de quem for preciso e levanta a bandeira para que os pais se posicionem e lutem juntos. "Mães, saiam dos armários porque seus filhos precisam de vocês", convoca Deborah Alaman. Ela é mãe do transgênero Hugo, de 15 anos, e, desde que ele se revelou trans, ela vem combatendo o preconceito ao se posicionar como uma mãe orgulhosa da cria que tem.


Nos últimos dias, ela mostrou mais uma vez suas garras. Deborah Alaman, que é manicure na cidade de São Paulo, se tornou conhecida nas redes sociais depois que respondeu com sabedoria os ataques transfóbicos direcionados ao seu filho. "O garoto começou a perseguir o Hugo nas redes sociais, xingando-o e chamando-o pelo nome de nascimento. Quando soube, mostrei a ele o quanto tenho orgulho do Hugo e o quanto o amo", conta.


A conversa entre ela e o agressor foi por meio do WhatsApp. Ela, inclusive, mandou para ele suas fotos em manifestações pela diversidade, mostrando o quanto a causa também é sua. Explicou que tem monitorado os ataques ao Hugo e o avisou: "Espero que tenhamos nos entendido, mas caso não, pode ter certeza que a nossa conversa será na delegacia", escreveu na mensagem.


O garoto, que tem 17 anos, pediu desculpas a Deborah e disse que os ataques não vão se repetir. Emocionado com a postura da mãe, Hugo postou a conversa nas redes sociais e a história viralizou. Em um post do Facebook, ele escreveu: "essa é literalmente a minha mãe!!! tenho tanto orgulho". O post rendeu milhares de curtidas, centenas de comentários e compartilhamentos.


"As pessoas começaram a me procurar até para desabafar. Fiquei feliz com o carinho. É um público que é carente de família e de apoio", ressalta Deborah.


Leia a conversa de Deborah com o garoto transfóbico




Estatísticas preocuparam Deborah


Apesar da coragem que enche o peito de Deborah, foi justamente o medo que a impulsionou a agir. Natural de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, ela é mãe de Hugo e de uma menina de 8 anos. Há três anos, ela se mudou para São Paulo e seus filhos ficaram com a avó paterna, em Campo Grande. Com 11 anos, o Hugo, segundo ela, sofria calado.


"Ele era uma criança completamente depressiva. Ele se cortava, batia a cabeça na parede, era triste e vivia em um mundo paralelo", conta, ressaltando que o filho dizia que não gostava do próprio corpo. "Nessa época, via a novela da Globo que abordava o tema e imaginei que o Hugo poderia ser transgênero. Resolvemos buscar ajuda psicológica e, depois de três anos de terapia, ele se revelou trans."

Transgênero, de acordo com cartilha do Ministério Público Federal (MPF), é a expressão usada para designar as pessoas que possuem uma identidade de gênero diferente daquela correspondente ao sexo biológico.


No caso das transexuais, a pessoa nasceu com a "cabeça de mulher em um corpo masculino" (ou vice-versa). Por isso, muitas e muitos transexuais necessitam de acompanhamento de saúde para a realização de modificações corporais por meio de terapias hormonais e intervenções cirúrgicas, com o intuito de adequar o físico à identidade de gênero.


Para Deborah, a revelação de Hugo como trans não a assustou e o amor de mãe falou mais alto. "Muitas mães se acham proprietárias dos filhos e acabam esquecendo desse amor que compreende tudo." Além do sentimento materno, o medo fez com Deborah acolhesse ainda mais seu filho.


"Eu me deparei com dados que me assustaram. A expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos, metade do que vive uma pessoa cisgênero (indivíduo que se identifica com o gênero atribuído ao nascer em função do seu sexo biológico)", compara Deborah, enfatizando o risco do suicídio para essas pessoas. "Ou elas se matam ou elas morrem por crime de ódio", diz.

Deborah tem razão em se preocupar. O Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis no mundo. Em 2019, 124 pessoas transexuais foram assassinadas no Brasil, segundo o dossiê "Assassinatos e violência contra travestis e transexuais brasileiras em 2019", feito pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e divulgado em janeiro deste ano.


Os dados mostram ainda que, a cada dia em 2019, 11 pessoas transgênero sofreram agressões. A mais jovem das vítimas assassinadas tinha 15 anos de idade, encaixando-se no perfil predominante, que tem como características faixa etária entre 15 e 29 anos (59,2%) e gênero feminino (97,7%). A desigualdade étnico-racial é outro fator em evidência, já que 82% das vítimas eram negras (pardas ou pretas).


E são vários os estudos que mostram as altas taxas de suicídios entre pessoas trans, o que, para a Antra, pode ter raízes no contexto social de exclusão desse coletivo no país.


"Quando o Hugo entrou nesse processo de aceitação dele mesmo, eu só pensava que ele precisava se sentir amado, acolhido”, conta Deborah. Ao saber que tinha o apoio materno, Hugo se transformou. "Era nítida a felicidade dele ao saber que eu e a avó paterna o aceitamos como ele é", diz.


Deborah faz questão de comparecer em manifestações que defendem a diversidade

Apoio da família impõe respeito


Para se armar e ser capaz de defender seu filho dessa sociedade perigosa para essa parte da população, Deborah procurou ajuda. "Quando contava para os meus familiares, ouvia que era louca, irresponsável e recebi muitas críticas. Comecei a procurar ajuda de outras mães que também passavam pelo o que estava passando", revela.


Foi aí que ela conheceu o grupo Mães Pela Diversidade, uma Organização Não Governamental que defende há mais de 10 anos os direitos das pessoas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros) além de acolher e informar mães e filhos em 24 estados do Brasil.


"Ao procurar outras mães, vemos que a nossa experiência não é única do mundo e não estamos sozinhas. Não erramos. As pessoas falam como se a gente tivesse errado e continuasse errando. Precisamos nos posicionar como mãe e nos impor, porque ser transexual no Brasil é praticamente entrar para uma guerra", comenta.

Ao se posicionar e defender seu filho, Deborah conta ser perceptível a mudança ao redor. "Percebi que meu filho é mais respeitado do que aqueles que não têm o apoio de uma mãe." Um exemplo, segundo ela, é na escola. "Quando fui fazer a matrícula do Hugo, eu disse: eu vim matricular meu filho e meu filho é uma pessoa trans", conta. A partir dai, o diretor quis conhecer Deborah, perguntou sobre o Hugo e quis mais informações sobre esse universo.


"Ele ficou interessado e quis entender mais, ate sugeriu que eu desse uma palestra sobre o tema. Contou que havia outras crianças trans na escola e eles a chamavam pelo nome de nascimento, não o social. Os responsáveis por essas crianças precisam se posicionar", diz, acrescentando que, sem apoio dos familiares e amigos, os ataques transfóbicos são ainda maiores.


Ataques vão desde o presidente da República até familiares


A postura preconceituosa do presidente Jair Bolsonaro e de seus seguidores preocupa Deborah. "Há muita falta de informação no país. Cada dia que passa, as pessoas estão se enchendo de notícias falsas e se esquecem daquelas que realmente informam. Elas não querem saber, não querem escutar", critica.


"É um assunto que não é divulgado nem trabalhado nas escolas, em palestras, na mídia. E para piorar, o governo faz propaganda contra a diversidade. É um retrocesso, um desserviço."

Mas ela sabe que não esteja sozinha para essa luta. "Descobrimos que temos um time. Temos advogados e até delegados que podem nos ajudar diante de um caso de transfobia. Quando sofremos ataques, temos que estar preparados. Hoje me considero mais preparada, mas sei que sempre terei que estar atenta."


O pior ataque, segundo Deborah, é aquele que vem de dentro da família. "Nenhum ataque é tão doloroso quanto o que vem dos nossos próprios familiares", conclui.


Entenda


Crime

Em junho de 2019, o STF se manifestou em relação a falta de leis para a proteção da população LGBT e criminalizou a homotransfobia. Enquanto não houver legislação específica, atos de homofobia ou transfobia podem ser tipificados como crimes de racismo, com pena de 1 a 3 anos, além de multa. Se houver divulgação ampla de ato homofóbico em meios de comunicação, como publicação em rede social, a pena será de 2 a 5 anos, além de multa;


Nome social

O nome social é aquele pelo qual uma pessoa se apresenta e quer ser reconhecida socialmente, ainda que não tenha retificado os documentos civis. Desde abril de 2016, o decreto nº 8.727 passou a reconhecer que, nas repartições e órgãos públicos federais, pessoas travestis e transexuais tenham sua identidade de gênero garantida e sejam tratadas pelo nome social.


Requalificação civil

Já a requalificação civil é quando a pessoa altera nome e gênero na certidão de nascimento e, portanto, em todos os outros documentos. Em março de 2018, uma decisão do STF (Ação Direta de Inconstitucionalidade 4275) passou a garantir que essa alteração seja feita administrativamente em um cartório de registro de pessoas naturais, sem a necessidade de ação judicial.



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