• Cria Para o Mundo

Mãe denuncia intolerância contra filho autista

Na quarentena, Vicente, de 6 anos, corre por até 6 horas no apartamento como forma de se adaptar à quebra de rotina provocada pela pandemia. Vizinhos se sentiram incomodados.

Vanessa ficou abalada e se questionou: "como uma adulta pode ser tão cruel com uma criança autista?"

Por Luciane Evans

Dizem que o mundo, após a quarentena, será outro. Há quem aposte que as pessoas ficarão mais solidárias, tolerantes e terão mais compaixão pelo próximo. E, ao que tudo indica, o isolamento social seria, então, o nosso exercício para essa transformação. Mas a caminhada tem se mostrado bastante longa para a chegada a essa sociedade verdadeiramente melhor.

Um das provas de que ainda falta muita compaixão entre nós é intolerância vivenciada pela servidora pública Vanessa Sanches, de 34 anos, mãe de Vicente, de 6 anos. Com a quarentena e sem suas atividades rotineiras (terapias e escola), Vicente, que tem autismo, corre pelo apartamento durante horas como uma forma de se ajustar à quebra de rotinas - algo extremamente difícil na vida dos autistas.

Esse comportamento repetitivo (esterotipia) foi se intensificando com o passar do tempo e Vicente passou a correr de 4 a 6 horas por dia (manhã, tarde e noite), parando só para beber água ou fazer alguma necessidade fisiológica. Segundo Vanessa, é um ajuste comportamental diante da situação, e poderia ser substituído, inclusive, por gritos ou autoagressão.

Mas na noite de 17 de abril, quando já passava das 22h e Vicente ainda corria pela casa, começaram as reclamações no grupo do WhatsApp do condomínio onde a família mora. O edifício tem 12 apartamentos e está localizado numa área nobre de Taquara, no Rio Grande do Sul. Pelo grupo, moradores atacaram Vanessa e, entre outras coisas, sugeriram que a família se mudasse para um sítio.

Vanessa explicou as razões para o filho se comportar dessa maneira, mas as reclamações continuaram e, quatro dias depois, uma vizinha passou a imitar os sons de Vicente. "A primeira vez que a ouvi imitando o caminhar do meu filho, emitindo o mesmo barulho (ela mora no andar de cima do meu apartamento), quis acreditar que não era isso o que ela estava fazendo. Na segunda vez que ela o imitou, o meu corpo teve uma reação tão forte que nem sei explicar. Não dormi naquela noite", conta Vanessa.


Ela diz ter chorado muito com toda a situação e se questionado: "como que uma pessoa adulta pode ser tão cruel com uma criança autista?" Vanessa saiu do grupo e recebeu, na manhã seguinte, os prints das conversas.


"Eu me senti muito sozinha e desamparada, mesmo tendo toda uma estrutura que estaria me amparando, mesmo sabendo da legislação", confessa, dizendo ter tido ânsia de vômito.

Leia o print da conversa


Sem medo de denunciar

Mas Vanessa não ficou calada e, tampouco, quis que essa história terminasse por aí. Em sua conta no Facebook, ela escreveu uma carta aberta "Preconceito e Intolerância em tempos de quarentena (Mãe de Autista)", em que detalha a discriminação sofrida.

Ela publicou, inclusive, os prints dessa conversa com os moradores do condomínio. Foram mais de 1 mil compartilhamentos e 500 comentários na rede social. Além de tornar a história pública, Vanessa registrou boletim de ocorrência e vai processar essas pessoas por discriminação contra deficiente.

Ela se baseou no Estatuto da Pessoa com Deficiência, que diz em suas linhas que "a pessoa com deficiência será protegida de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, tortura, crueldade, opressão e tratamento desumano ou degradante". A decisão de escrever a carta, segundo ela, foi muito difícil porque tinha medo de expor seu filho e ao final não dar em nada.


"Ao mesmo tempo, achava necessário escrever a carta e divulgar o que havia ocorrido. Não importa a condição social, é um sentimento horrível, uma humilhação, um rebaixamento, uma violência para qualquer mãe. Sei que coisas piores acontecem com as mães nas camadas mais humildes, mas nenhum tipo de intolerância e discriminação deve-se deixar normalizar. Tem que sempre buscar reagir. Como podem as pessoas tratarem seus cachorros com gentileza e a seus vizinhos com desprezo?"

E o barulho de Vanessa teve resultados. Ela conta que foi uma das primeiras denúnicas contra pessoas com deficiência na sua cidade e "isso significa muita coisa". "Todo o apoio recebido nas redes sociais nos fortaleceu. Pude auxiliar o Conselho Tutelar de Taquara em elaborar uma carta informativa que será entregue para imobiliárias e administradoras de condomínios, explicando sobre os direitos das crianças e adolescentes, em especial dos autistas. Conheci muitas pessoas ativistas da causa. Muitas outras me pediram ajuda por estarem vivendo algo parecido", relata.

Ela diz acreditar que o caso sirva para avançar a conscientização em torno do autismo, e por consequência, ajudar os gestores de condomínios a melhorarem as regras de convivência.

Ela aconselha os pais que passam pela mesma situação a denunciar, sempre. Como primeiro passo, ela diz apostar no diálogo com os vizinhos, buscando a empatia deles. "Caso não tenham a colaboração deles, busquem o síndico ou administradora do condomínio, expliquem a situação. Nossos filhos autistas não têm a intenção de agredir a coletividade. E, se ainda assim não conseguirem atendimento, procurem o conselho tutelar e a polícia de sua cidade. Não se calem diante do preconceito e da intolerância. Busquem reparação na Justiça, para que tenhamos uma jurisprudência capaz de esclarecer, educar, orientar.”

De mudança para uma nova casa


Diante da intolerância, a família de Vanessa está de mudança. "Disse à vizinha que ficasse tranquila, pois iríamos nos mudar o quanto antes, que não tinha a necessidade de ela imitar o meu filho e completei dizendo que de intolerância e preconceito quero distância."


Eles já encontraram uma casa, que segundo Vanessa, está perto da rede de apoio (casa das avós) e, na próxima segunda-feira (04/05) , eles devem fazer a mudança. Por enquanto, estão na casa de uma das avós.


"O Vicente ainda pede para voltar para o apartamento. Expliquei a ele que eu me desentendi com uma vizinha e que vamos nos mudar. A reação dele foi de tristeza. Chorou bastante. Mas, segundo a psicóloga, essa reação é muito boa, pois ele está vivenciando a mudança. Ela orientou que eu o convidasse para fazer a mudança do quarto dele e se despedir do apartamento."

Vanessa diz estar melhor. "Fui à psiquiatra, estou tomando medicação para superar esse lamentável episódio. Fisicamente, estou com muita dor no corpo. Mas estou bem, cada mensagem recebida me fortaleceu e me acolheu para seguir e cuidar bem do meu filho."


Na sua carta no Facebook, Vanessa escreveu que sempre tentou proporcionar um ambiente que o Vicente vivesse a sua deficiência como ela deve ser. "Por que um autista precisa ser sociável e comunicativo? Por que minha família precisa morar num sítio? Vivemos num mundo com uma diversidade espantosa e ainda há tanto preconceito e intolerância."

"Que este momento, de difícil relacionamento social, as pessoas possam ser verdadeiramente caridosas com os outros. Para as demais famílias que possam viver situações parecidas, não se calem, temos que resguardar sempre o direito dos nossos. Nós não estamos errados! Errados são eles que não aceitam e querem diminuir a importância de pessoas com deficiência! Meu filho vai viver plenamente sua deficiência e não há no mundo quem diga o contrário!"

O autismo e a quebra de rotina


A família de Vanessa está em isolamento social desde o dia 19 de março. Desde então, ela, o marido e o filho saíram 4 vezes para dar uma volta de carro. "Fora isso, seguimos todas as recomendações dos governos federal, estadual e municipal. Expliquei para o Vicente o que estava acontecendo, do perigo que é o coronavírus, e tivemos que passar de carro em frente à escola para ele ver que não havia aulas. Foi quando ele disse: ‘todo mundo foi embora do coronavírus’ e ali percebi que ele estava entendo a situação", conta.


Em casa, a família tenta manter a rotina. "Mas ficou difícil, pois ele tinha, além da escola no período matutino, terapias com psicóloga e psicopedagoga à tarde. Percebemos que a estereotipia de correr de um lado para o outro começou a prolongar com o passar dos dias. O que inicialmente ele fazia durante 2 a 3 horas, foi prolongando para 4 a 6 horas por dia (manhã, tarde e noite), e na última semana que estávamos morando ainda no apartamento, percebemos que passava mais tempo fazendo esse movimento, principalmente antes de dormir (ia até umas 23h30)."


Com a quarentena, a alimentação foi outra mudança drástica. Vicente, segundo Vanessa, já era bem seletivo, mas alimentos como ovos e arroz ele ainda aceitava. "Depois da quarentena, passou a aceitar apenas pães, bolos, pipoca e panqueca. O consumo de água também aumentou (ele só aceita água e iogurte). Atividades pedagógicas que ele gostava de fazer, como ler gibis e livros (ele lê desde os 3 anos e 8 meses), pintar e desenhar foram abandonadas também na quarentena."

A psicóloga e psicopedagoga que cuidam de Vicente recomendaram explicar a ele tudo o que está ocorrendo sobre a Covid-19. "Fazemos contato por videochamada para os coleguinhas de que ele mais gosta, procuramos manter os horários de acordar e dormir, fazemos atividades, brincamos de escola, com a hamster e fazemos receitas de bolos e panqueca, de resto, ele não nos dá abertura", conta Vanessa.


Ela faz parte de um coletivo de pais de crianças e jovens autistas e diz que todos relatam as dificuldades que estão passando neste momento de isolamento social. E os desafios vão desde a higienização das mãos à proibição de ir correr no parque ou pracinha. "A alimentação e o sono são duas alterações que muitos sofrem neste momento. O Vicente, por exemplo, voltou a dormir conosco. No verão, tínhamos conseguido fazer a transição de mudança de quarto, mas com o isolamento houve essa regressão."


Uma das formas que ela encontrou para Vicente não sentir tanto a mudança de casa foi a de permitir que ele tivesse mais hamsters para brincar. Antes, ele tinha 1 e, agora, são 6.

#tea #maesdeautista #coronavirus #isolamentosocial #autismo