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Mãe de menino autista é atacada por usar mochila-guia

Amanda foi fotografada e acusada, em rede social, de colocar coleira no menino. Afinal, por que as pessoas ficam tão à vontade em julgar pais, e principalmente mães?

Amanda e o filho, Bernardo, usando a mochilinha que garante a segurança do menino

Por Nathalia Ilovatte


Uma mãe e o filho de 3 anos foram fotografados na rua, expostos nas redes sociais e julgados por desconhecidos na última semana. A história deles é tão recorrente que não causa espanto: o que pais e, especialmente, mães fazem, ou deixam de fazer, é alvo de análises e vereditos nas redes sociais. Mas, dessa vez, a injustiça da humilhação sensibilizou outras mães e rendeu apoio e acolhimento na internet.


A vendedora Amanda Massoni, moradora de Poços de Caldas (MG), foi fotografada sem perceber enquanto solicitava um carro pelo aplicativo do celular. Ao lado dela estava o filho, Bernardo, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista. O menino usava uma mochilinha com guia de segurança.


"Eu estava saindo de uma loja, tinha entrado para pagar uma conta e estava pedindo um Uber para voltar para casa", conta a mãe.


"Como o Bernardo é uma criança que não gosta que pegue na mão, e sai correndo quando fica agitado, eu coloquei a mochila para a segurança dele. Eu estava em uma avenida movimentada".

Amanda não viu ninguém tirando foto dela e do filho. Mas, três dias depois, foi a uma pizzaria e soube por uma conhecida que a cena corriqueira tinha ido parar nas redes sociais com o comentário: "Quando você pensa que já viu de tudo, aparece uma mulher com o filho na coleira pra mexer no celular… Estamos do avesso, mesmo".


"Eu me senti muito mal, saí da pizzaria chorando, sem saber o que fazer", recorda a mãe. "Cheguei em casa e, ainda tremendo, fui tentar me explicar, porque a pessoa estava falando mal de mim. Eu estava tentando proteger meu filho e fui julgada dessa forma, fiquei muito triste", conta Amanda.


O post em que a mãe justifica o uso do celular e da mochila com guia teve 5,4 mil comentários de apoio e 33 mil compartilhamentos. Nele, a mãe explica que estava protegendo e garantindo a segurança do filho. "A pessoa me expõe nas redes sem saber nada da minha vida", escreveu.


Se a publicação inicial a entristeceu com o julgamento gratuito, as reações à resposta ajudaram a mãe a se fortalecer. "No primeiro dia chorei demais, não consegui dormir. Mas o apoio que recebi na internet me ajudou, muitas pessoas me mandaram mensagem e postaram fotos dos filhos com a mochilinha-guia. Tive muito carinho e muito apoio", conta.


Amanda já fez um boletim de ocorrência, e espera que o caso seja investigado para chegar à pessoa que tirou a foto e publicou. "Eu risquei o rosto, mas a pessoa que postou não riscou. Ela me expôs e julgou sem saber", critica.


Redes sociais viram palco para julgamentos preconceituosos


Mas o que faz uma pessoa achar que tem o direito de expor uma mãe desconhecida para criticar a maneira como ela cuida do filho? Para a psicóloga e psicanalista Laís Guizelini, as pessoas usam a internet para se defender do que é diferente e as tira da zona de conforto. "Nas redes sociais a diferença é encarada como ameaçadora, como se tivesse um poder de subjugação e até mesmo de aniquilação da vida", explica a especialista.


Foi o que aconteceu com Amanda e o filho. Alguém os viu por poucos segundos, tirou conclusões a respeito daquela mãe e usou as redes sociais para tentar ridicularizá-la, como forma de validar o próprio achismo. "Quando alguém tira uma foto sem o consentimento do outro, para o expor em redes sociais, existe um julgamento moral da situação baseado em suas próprias crenças e valores", comenta Laís. "Esses valores muitas vezes são preconceituosos, ou seja, partem de uma generalização sem análise crítica, transformando uma presunção em condição de verdade. É uma tentativa de angariar aliados para reforçar e legitimar suas próprias ideias, afastando a possibilidade de ser negado enquanto sujeito".

Esse cenário acontece com diferentes personagens, mas quando o alvo é um pai ou uma mãe, as pessoas se sentem mais à vontade para cobrar e julgar, geralmente sob o pretexto de salvaguardar as crianças.


"Quando falamos em parentalidade há uma grande idealização de que os pais não teriam direito a falhas, como se fossem onipotentes e conseguissem exercer a parentalidade de maneira perfeita", diz a psicanalista. "É uma cobrança que geralmente temos em relação aos nossos próprios pais, inconscientemente, e que se não elaborada pode gerar ressentimento".

Os dedos apontados costumam ser ainda mais severos quando é a mãe que está na mira deles. "Essa cobrança se intensifica em relação às mulheres porque vivemos em uma sociedade estruturalmente machista, que majoritariamente ainda as considera como únicas responsáveis pelo cuidado com os filhos", explica Laís, ponderando que pouco a pouco essas ideias têm sido desconstruídas. "No entanto, temos um longo caminho a percorrer, já que a cada avanço precisamos lidar com uma forte reação para que as coisas se conservem como são, pois mudanças implicam o medo do desconhecido, a resistência em abdicar de privilégios e a perda de lugares de poder".


Cobranças impossíveis contribuem para a solidão materna, diz psicanalista


Se exercer a maternidade já é difícil por envolver sobrecarga e renúncias, fazê-lo sob a mira de cobranças e julgamentos que impõem um padrão impossível é insustentável. Laís explica que os dedos apontados tiram das mulheres o espaço necessário para poder ser mãe com liberdade e se responsabilizando pelas próprias escolhas. "As cobranças e julgamentos colaboram para que as mulheres ou pessoas que exercem a função materna se sintam mais solitárias, culpadas e desencorajadas. A discursividade que cobra um ideal inatingível, a mãe perfeita ou a maternidade sem falhas, não reconhece a singularidade do ser humano", pontua a psicóloga.


A quem enfrenta esse tipo de escrutínio, em especial às mães, a especialista recomenda que tente reconhecer que a perfeição é uma ilusão. Mesmo que ainda seja muito difícil trabalhar essa aceitação em um contexto social que a dificulta. "Não é nada fácil, já que no sistema capitalista, a todo momento, somos bombardeadas com soluções prontas e adquiríveis, como cursos, objetos e tratamentos que prometem nos levar a uma condição de completude, de perfeição", argumenta.


“Há uma tentativa de nos vender a maneira correta de exercer a maternidade, e qualquer diferença que se estabeleça deste padrão nos traz a sensação de que estamos sendo mães ou pais piores e, assim, precisaríamos recorrer a estas soluções prontas para conseguirmos a tão desejada validação social”.

Para exercer a maternidade de maneira mais livre e única, Laís afirma que é necessário estar atenta a essas armadilhas do consumo como garantia, e desacelerar um pouco para refletir sobre as nossas condições, possibilidades e desejos, tomando cuidado com as universalizações. "Reconhecer e aceitar nossa condição falha abre a possibilidade de derrubar as idealizações", diz a psicanalista.


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