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Lugar de mãe é no carnaval

Atualizado: Fev 27

Ninguém tem que se restringir a matinês fechadas e bloquinhos infantis. Mulheres mães e seus filhos são livres para curtir a festa de rua onde quiserem

Cris e o pequeno Vicente, de 1 ano, que já começaram a curtir o carnaval de 2020 em blocos como Sagrada Profana e Approach

Por Nathalia Ilovatte


De um lado, “Nossa, mas você deixou seu filho com outra pessoa pra vir pro bloco?”. De outro, “Mas é uma falta de noção trazer criança pro carnaval!”.


Quando uma mulher mãe ocupa um espaço público, entra num campo minado de comentários, ora disfarçados de preocupação, ora descaradamente punitivos. Quando sai sem as crianças, é recriminada por tê-las “largado”. Quando sai com elas, é acusada de expor as coitadinhas ao perigo e tem seu valor como mãe posto em dúvida.


Se o espaço público em questão tem um cortejo de bloco de carnaval, aí é que ganham mais intensidade as insinuações de que a mulher mãe não pertence àquele ambiente.

“As mães não precisam fazer parte da festa, na lógica patriarcal. Porque a sociedade patriarcal machista diz que a mulher é do espaço privado, e quando a mulher é mãe, ela acentua esse espaço privado, como se a sociedade a colocasse nele duas vezes”, explica a psicóloga feminista Adriana Roque. “Seguindo essa lógica, a mulher não é quem gira o capital e não é quem faz diferença para o espaço público. Então a festa, sendo um espaço público, não é para a mulher, e não é principalmente para a mulher mãe, que deveria estar em casa com seus filhos”.


Mesmo quando os comentários vêm em tom de preocupação com o bem estar da criança, por trás da suposição de que aquele filho não está bem há a insinuação de que mãe e cria deveriam ficar bem guardados em casa. “Esses comentários não são exatamente cuidado. É controle social puro sobre as mulheres, tanto que homens não recebem o mesmo tipo de cobrança”, pontua Cila Santos, jornalista e criadora do canal Militância Materna.


“Mulheres mães são destinadas a estar sempre confinadas com seus filhos, longe dos espaços públicos. E qualquer mulher que transgrida isso e ouse fugir dessa função social, mesmo que seja só um pouco, é constrangida, chantageada e sutilmente punida socialmente”, diz Cila.

Bem-vindas ou não, mães ocupam espaços


Apesar de tudo isso, as mães seguem resistindo. No ano passado, a fotógrafa e publicitária Cris Rosa ouviu de parentes e amigos que não deveria cair na folia com o filho, Vicente, então com dois meses. Mesmo assim, vestiu a fantasia, colocou o bebê no sling e foi. “Fiquei umas 2 ou 3 horas, me diverti, vi vários amigos, saí do casulo um pouco e foi libertador. Tanto amigos quanto família acharam um absurdo, dizendo que “não devia estar na rua, não devia levar um bebê tão pequeno pra bagunça”. Mas eu fui. E não me arrependo”, conta.

À esquerda, Vicente estreando no carnaval

Cris, que já amava o carnaval antes de engravidar, decidiu que a maternidade não se tornaria uma barreira entre ela e essa paixão que, ao menos em teoria, é a festa mais democrática do mundo. E, assim como a fotógrafa e publicitária, outras mães têm feito a mesma opção. “Percebo que a visão das pessoas para com as mães tem mudado bastante. Sinto que mesmo quem não é mãe ou pai tem se sensibilizado mais, dado um apoio físico ou moral, olhado pra gente com mais afeto e, ao mesmo tempo, menos indignação ou estranheza”, comenta.


Cila Santos, do canal Militância Materna, destaca a importância de ocuparmos os espaços que quisermos, mesmo quando não são acolhedores. “Teoricamente, quase todos os espaços deveriam ser apropriados para todas as pessoas, respeitando aí suas características e especificidades, caso todos se respeitassem. Mas, a despeito disso, mulheres e crianças não costumam ser bem-vindas na maioria dos lugares porque não são consideradas pessoas com o mesmo status das outras. São indivíduos destinados a pertencer ao espaço confinado do lar: mães cuidando exclusivamente de crianças até que elas se tornem adultas, aí sim dignas de frequentar o espaço público”, reflete.


“Então, a presença de mães e crianças em lugares diversos, como blocos de carnaval, é importante para demarcar território e reafirmar sua potencialidade e direito de estar e ir e vir em qualquer ambiente, e não só nos ambientes que são ligados ao cuidado e maternagem”, afirma.

Os blocos infantis podem ser um ambiente mais confortável para as famílias. No entanto, não é justo que mães e filhos sejam obrigados a restringir suas experiências no carnaval de rua a esses blocos. “O espaço restrito vem desse lugar de manejo social de perpetuar um espaço privado. Então quando a sociedade, quando as pessoas, não pensam nessa mãe que precisa do espaço público porque não é só mãe e quer estar nos espaços, quando a sociedade lhe delimita esse espaço, está fazendo mais uma forma de controle social, que é: você pode até sair, mas para esse espaço que é delimitado para você”, explica a psicóloga Adriana Roque.


Carnaval é festa política

Em 2020, Vicente foi pela 2ª vez ao Sagrada Profana

Além de ser uma estudiosa do feminismo, Adriana participa da bateria de blocos de carnaval de BH. Experiente na construção da festa, ela ressalta o caráter político do carnaval de rua e dos discursos trazidos com mais força por alguns blocos. “O carnaval em si é o lugar da diversidade. E essa existência da diversidade é visível quando há mais e mais blocos levantando discurso contra o machismo, LGBTfobia e racismo. Levantando debates sobre mulheres, mães, assédio, masculinidade e feminilidade. Não podemos esquecer que essas pautas não são isoladas e se entrecruzam em opressões diversas, aos corpos diversos”, explica. “Vemos essas pautas presentes, especificamente, em blocos como Angola Janga, Truck do Desejo e Bruta Flor. Em especial esses três blocos tratam de forma sistemática. O Angola Janga traz e constrói autoestima através da estética negra, o Truck tem foco na orientação sexual de mulheres cis e trans, e o Bruta Flor na luta para que todos os corpos das mulheres sejam livres, inclusive o da mulher mãe”.


No entanto, ainda é preciso pensar maneiras para tornar a festa mais acolhedora. “O carnaval é da rua... É público, é aberto. É preciso não fechar espaços, ter um lugar organizado para que pessoas com bebês possam trocar fralda e até lixeiras específicas para descarte de fraldas, banheiros adequados e acessíveis, compreensão dos foliões com pessoas deficientes, pessoas com bebês e que amamentam. Também é importante não restringir o carnaval de rua aos moradores da rua”, pontua a especialista. “Porém, pensar em tudo isso é repensar a cidade, e repensar a nossa construção social e a maneira como lidamos com cada corpo e cada situação que é diversa a nós”.


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