• Cria Para o Mundo

Leite de vaca, fórmula ou composto lácteo?

Ministério da Saúde e Sociedade Brasileira de Pediatria apresentam orientações divergentes quanto à oferta de leites a bebês e crianças, e pais ficam confusos


Foto: Sander van der Wel/ Flickr

Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Para o desespero de muitos pais, desde que foi lançado o novo Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos, em 13 de novembro, pediatras, nutricionistas infantis, nutrólogos e grandes entidades médicas não chegam a um consenso para aquilo que seria realmente saudável para os bebês que não amamentam mais.


De um lado, o documento, produzido pelo Ministério da Saúde, é criticado por muitos pediatras e pela entidades que os representam ao considerar o leite de vaca como alimento a partir dos 9 meses de vida. Por outro, há quem concorde com a consideração e aplauda também o fato de os compostos lácteos terem sido considerados vilões pelo Ministério da Saúde.

No meio da polêmica que tomou as redes sociais em tons alarmantes, pais não sabem o que fazer: dar leite de vaca, continuar com a fórmula infantil ou oferecer o composto lácteo? Qual é a melhor escolha? Para essa pergunta, que tem invadido os consultórios e tirado o sono de muitos pais, não há uma resposta única.


O que diz o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras


O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos é uma orientação para a população e para as políticas públicas, e traz recomendações e informações importantes sobre a alimentação dos pequenos nessa fase da vida. A primeira versão do documento foi publicada em 2002 e revisada em 2010.


A nova edição conta com cerca de 250 páginas, nas quais há esclarecimentos sobre a importância do aleitamento materno, a introdução alimentar, os grupos de alimentos, o que dar ou não aos bebês. Ao reconhecer que nem todas as famílias brasileiras conseguem amamentar ou têm dinheiro para comprar fórmula infantil, a publicação recomenda o leite de vaca integral no café da manhã, no lanche da tarde e na ceia a partir dos 9 meses de idade.


Na página 141, é reconhecido que, quando a criança não é amamentada, a primeira alternativa é a de oferecer a fórmula infantil, por ser considerada a mais adequada para o organismo imaturo dos pequenos.


No entanto, segundo o próprio guia, o leite de vaca integral, mais conhecido por aquele de “saquinho” ou “caixa”, é o mais usado pela população em geral para os menores de 1 ano. E, ciente disso, o Ministério da Saúde naturaliza o uso.


Outro ponto polêmico é o que se refere aos compostos lácteos. Os produtos são citados na lista de alimentos ultraprocessados e, como tais, não indicados para os menores de 2 anos. Muitos pais se sentiram perdidos aí. Isso porque a recomendação que eles costumam receber nos consultórios pediátricos é de que, depois de 1 ano, caso a criança não seja amamentada, o melhor é oferecer a ela o composto lácteo.

E, segundo o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos, o composto seria contraindicado por ser uma mistura de leite (51%) com outras substâncias e conter açúcar e aditivos alimentares.




O que diz a Sociedade Brasileira de Pediatria


Diante das orientações trazidas pela edição mais recente do guia do Ministério da Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou um documento no qual questionou as informações acerca do leite de vaca integral.


“Há evidências irrefutáveis de que, diante da impossibilidade do aleitamento materno

ou da relactação, as fórmulas estão associadas com o melhor desenvolvimento do

cérebro, do intestino e do sistema imune, quando comparados ao uso do leite de vaca integral (não modificado)", diz o texto. "Destaque-se que o objetivo da alimentação do lactente não é mimetizar o leite materno, qualitativamente incomparável, mas, sim, fazer com que a alimentação se aproxime dos efeitos e benefícios funcionais que o leite materno

oferece".


A entidade ainda pontua que o leite de vaca integral está associado a maior índice de obesidade, entre outras consequências. Segundo explica Virgínia Weffort, presidente do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria e também da Sociedade Mineira de Pediatria, o leite de vaca integral (em pó ou liquido) contém quantidades de nutrientes pouco adequados para crianças.


"Há excesso de proteína e sódio, assim como falta de vitaminas A, D e do complexo B, falta de minerais como ferro e zinco, e de ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa - ômega-3 e ômega-6”, alerta.

Ela ressalta que uma criança não amamentada deve receber fórmula infantil até os 2 anos de idade, se possível até 3 anos. "Não sendo possível dar fórmula até os 3, após os 2 anos pode receber um leite integral ou um composto lácteo", orienta Virgínia.


A especialista também esclarece que o composto lácteo não é um vilão da boa alimentação, como deu a entender o guia do Ministério da Saúde. Ela afirma que o composto é um produto que "contém 51% de leite de vaca e acrescidos óleos vegetais, vitaminas e minerais e ácido graxo poli-insaturado de cadeia longa". É indicado para crianças em idade pré-escolar que passam por período de seletividade alimentar, com baixa ingestão de vitaminas e minerais. "Pois supre as necessidades dessa faixa etária", diz a pediatra.


Quanto às dúvidas que preocupam alguns pais desde que o guia do Ministério da Saúde foi lançado, especialmente os que já dão compostos lácteos aos filhos, Virgínia tranquiliza.

"Várias informações desconexas têm sido veiculadas, por isso, é importante conhecer cada produto existente no Brasil. Os compostos lácteos estão em discussão no Codex Alimentarius para serem regulamentados pelo órgão. Até o nome “composto lácteo” está em discussão", esclarece.

"Alguns compostos lácteos não têm adição de açúcar, apenas lactose e maltodextrina, presentes também nas fórmulas infantis. Como também não têm aromatizante, algumas dessas opções não são nocivas para a faixa pediátrica".


A presidente do Departamento Científico de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria também faz um alerta. "O leite em pó, que é leite de vaca integral, geralmente não está enriquecido com vitaminas e minerais e pode ter excesso de açúcar".


"Leite de vaca pode ser prejudicial à saúde infantil", alerta pediatra


Referência em Belo Horizonte, o pediatra, gastroenterologista pediatra e nutrólogo Magno Veras recebeu com estranhamento as novas orientações do Ministério da Saúde. "Essa orientação que consta no Guia da Alimentação lançado recentemente é questionada pela Sociedade Brasileira de Pediatria, que é a sociedade pediátrica brasileira que tem uma força científica maior, com comitês científicos muito bem elaborados e muito atuais", comenta. "Deve ter sido algo que passou despercebido, ou as pessoas que montaram não se embasaram na ciência mais atual a respeito do tema".


Ele afirma que o consumo de leite de vaca integral pode ter um impacto negativo na saúde da criança. "O leite de vaca pode ser sim prejudicial à saúde infantil, já que ele é muito distante do leite materno. Ele tem uma presença excessiva de proteína, de sódio, de potássio, de cloro, falta de vitaminas, falta de ferro, dos ácidos graxos poliinsaturados, como o ômega 3", diz.


"O maior índice de proteína pode estar associado a problemas renais e alterações na microbiota intestinal, que está se formando nos primeiros 2 anos de vida e que fica para o resto da vida", alerta o pediatra Magno Veras.

Outros pediatras consultados pelo Cria Para o Mundo para a matéria garantiram que o composto lácteo é mais indicado para idades acima de 1 ano porque contém nutrientes indispensáveis para o desenvolvimento dos pequenos nessa faixa etária.


Boa alimentação pode suprir necessidades


A nutricionista e consultora materno infantil Luiza Miranda Campos vê com cautela as recomendações trazidas pelo novo guia. Embora se sinta satisfeita e representada pelo documento, ela reconhece que ele é voltado para a população em geral, considerando as várias realidades brasileiras.


"Eu adorei o novo guia, principalmente porque há o respeito com a criança e a autonomia dela", diz, destacando que, em relação ao leite de vaca a recomendação a seus pacientes é outra. "Temos que considerar que o guia é voltado para a população em geral. Por isso, a pasta tem a obrigação de orientar aquelas pessoas que não têm acesso a uma fórmula infantil e, por vários motivos, não tiveram condições para o aleitamento materno. Aí, o leite de vaca é indicado", explica.


Mas àquelas famílias com poder aquisitivo maior, Luiza Miranda recomenda que o leite de vaca não seja introduzido antes dos 12 meses do bebê, e também não aconselha o composto lácteo como fonte de cálcio e nutrientes depois de 1 ano de vida.

"Para os bebês que não amamentam mais, o recomendado é que, de zero a seis meses de vida, seja ofertado a fórmula infantil. De 6 a 12 meses , a fórmula infantil de segmento. E depois de um ano, aqueles que estão com fórmula devem continuar e buscar fazer a transição desses nutrientes na alimentação, e aqueles que não tiverem tomando fórmula, recomendo suprir a necessidade de cálcio na alimentação com leite de vaca e derivados, caso for o hábito da família. Caso não seja, peixes, castanhas, gergelim, entre outros vão suprir essa necessidade", diz.


Para as famílias que têm habito de tomar leite, ela recomenda o "leite de saquinho" para os maiores de 1 ano. "Gosto do iogurte também, mas deve ser usado aquele com dois ingredientes: leite e fermento. Queijo fresco, sem muito sal, é outra opção. Assim, não será preciso se preocupar com fórmula ou composto."


Luiza aposta numa alimentação mais rica em nutrientes que seja capaz de eliminar da vida dos pequenos o uso dos produtos industrializados. Ela reforça nunca ter gostado dos compostos na alimentação dos bebês. E, caso não seja possível usar os alimentos como fontes saudáveis, ela diz ser melhor continuar com a fórmula até os 2 anos.


Um outro ponto levantado por ela sobre o novo guia é o uso do sal na alimentação infantil. De acordo com a publicação do Ministério da Saúde, seria possível, na introdução alimentar dos bebês, pitadas de sal. No entanto, a nutricionista não recomenda nem o mínimo de sal antes de 1 ano de vida da criança.

"Uma pitada de sal antes de 1 ano pode trazer prejuízos para os rins que ainda estão imaturos. Os alimentos já contêm sódio e colocar mais pode prejudicar a saúde dos pequenos. Dos 6 meses aos 12 meses nada de sal", recomenda. A orientação referente ao sal é a mesma dos pediatras consultados.



"Estudos brasileiros apontam que 74,6% das crianças de 6 a 12 meses consomem leite de vaca", diz Ministério da Saúde.


Por meio de nota enviada ao Cria Para o Mundo, o Ministério da Saúde informa que a nova edição do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos foi desenvolvida com a colaboração e participação de diversos pesquisadores e profissionais, inclusive com a participação de membros da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), entre outras entidades. "O Guia foi debatido em oficinas em todas as unidades da federação e passou por consulta pública online", diz o texto.


A publicação traz entre as atualizações a recomendação de zero açúcar e não ao consumo de alimentos ultraprocessados para crianças menores de dois anos. As recomendações de consumo tomam como base o nível de processamento do alimento e não com foco apenas em nutrientes.


Outra recomendação do Guia é o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses e complementado até os 2 anos ou mais. "Esgotadas todas as possibilidades de a mãe amamentar, a recomendação é o uso de fórmulas infantis. Cabe ressaltar que o leite de vaca não é recomendado, é considerado. Isso porque inquérito nacional apontou que 62,4% das crianças menores de 6 meses  que não estão sendo alimentadas no peito tomam leite de vaca. O uso de fórmula infantil por quem não mama foi de 23% em menores de 6 meses e 9,8% em crianças de 6 a 12 meses."


A partir dos 9 meses existe a possibilidade de substituir a fórmula infantil pelo leite de vaca, conforme defende a nota.

"Estudos brasileiros apontam,  ainda, que 74,6% das crianças de 6 a 12 meses consomem leite de vaca e a partir dessa idade o prejuízo da substituição é menor, pois a criança já consome outros alimentos.  É importante destacar, que o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos segue as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que considera as especificidades e relevância dos primeiros anos de vida, mas também considera a realidade do país. Países como Canadá e Suécia seguem a mesma linha de alimentação para os primeiros anos de vida", conclui a nota.