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Intolerância política arquiva grupo Padecendo no Paraíso

Atualizado: Jun 18

Ofensas e ameaças motivaram o fechamento do maior grupo de mães de Minas Gerais, após 9 anos no ar


Por Luciane Evans e Nathalia Ilovatte


Diz um provérbio africano que é preciso uma aldeia para criar uma criança. Mas, para quem vive o dia a dia frenético das grandes cidades, a vida em aldeia é uma realidade distante.


Mesmo assim, permanece a necessidade ancestral de estarmos juntas. É por isso que, para muitas mulheres, as dúvidas, os questionamentos, a necessidade de pertencimento e a solidão materna são aplacados em grupos de redes sociais, em que aldeias virtuais formadas por muitas mães até então desconhecidas acolhem cada dilema e desabafo.


Entre esses grupos, há 9 anos figura o Padecendo no Paraíso, fundado pela arquiteta belo-horizontina Bebel Soares. Ou figurava.


Na manhã da última segunda-feira (01), as 10 mil participantes do grupo de Facebook acordaram com um post de Bebel explicando a decisão de arquivá-lo. As publicações antigas permanecem lá, mas nenhum comentário ou novo post pode ser publicado.

A atitude veio depois de uma sucessão de discussões entre participantes, desencadeadas por divergências ideológicas. A cada posicionamento contra o atual governo, as respostas de algumas vinham carregadas de agressividade. E, em consequência aos desentendimentos, a criadora do grupo passou a ser atacada, xingada e ameaçada.


Embora a maternidade seja política e os debates sejam necessários, o ambiente de discussão se tornou um campo minado em que era exigido, por exemplo, que fake news fossem tratadas com a mesma seriedade que informações verídicas. E o que era para ser um lugar de acolhimento virava, em alguns tópicos, estressante e adoecedor.


"Eu só queria ter um espaço para conversar com outras mães, porque me faltava esse lugar na vida real. Era pra ser só isso", conta Bebel, lembrando da criação do Padecendo no Paraíso, em 2011.


Com o tempo, o número de participantes foi aumentando e o Padecendo passou a ter uma fila de espera que chegou a quase 3 mil pessoas. Junto com isso vieram outras formas de atuação das participantes, como a Charanga das Padês, no carnaval, e o Clube de Descontos Padecendo. "O grupo cresceu muito, e esse crescimento me trouxe grandes responsabilidades. Acabei revendo minha maternidade, minha profissão. Abandonei a arquitetura, fechei meu escritório e passei a dedicar todo o meu tempo à rede, tentando apoiar as mães, me aprofundando nas questões femininas”, explica.


Ao Cria Para o Mundo, Bebel Soares relembrou a importância do Padecendo no Paraíso para tantas mulheres e explicou sobre o autocuidado de que precisa nesse momento de pandemia, e o que motivou o fechamento do grupo.

Imagem: Arquivo Pessoal

Quais você sente que foram as maiores realizações do Padecendo?

Acredito que o grupo ajudou muitas mulheres a amadurecer, inclusive, eu mesma. Ter mais consciência sobre as consequências de viver em uma sociedade patriarcal e machista. Entender que tem muita coisa que não é normal e que tem que mudar. Isso inclui nossos workshops de prevenção ao abuso sexual infantil e, até mesmo, os eventos para falar de sexo. Ou o espaço para discussões saudáveis sobre sexualidade dentro do grupo. As pautas da igualdade, da inclusão, do feminismo e do antirracismo foram muito enriquecedoras.


De que maneiras o grupo ajudou mulheres?

De todas as maneiras, dos conselhos sobre amamentação e parto, até o encorajamento para que elas pudessem ver que estavam vivendo relacionamentos abusivos e tivessem meios de se desvencilhar disso e se reerguer.

Você escreveu um livro sobre o Padecendo, certo? Ele tem data de lançamento? O que você conta?

O livro é sobre mim e sobre histórias do Padecendo que influenciaram na minha vida e nas minhas decisões. Eu conto um pouco sobre a minha infância e adolescência, e depois sobre a minha maternidade, intercalando as minhas histórias com as histórias de outras mulheres. Por causa da pandemia, tudo atrasou. Estamos aguardando a Biblioteca Nacional para poder imprimir. O processo lá está mais lento por causa do isolamento, mas acredito que não passe deste mês.


Algumas histórias do Padecendo mexeram muito com você? Você pode contar algumas?

As que mexeram mais estão no meu livro. Tem uma que acho que não entrou, mas que mexeu bastante: a de uma mãe, casada, que tinha depressão, e se tratou. Ela viu que vivia em um relacionamento abusivo e teve apoio do grupo. Essa mãe se separou, se tratou e investiu numa nova profissão, montou sua casa e conseguiu independência para ficar com a guarda das crianças.


Como era o seu dia a dia com o grupo, recentemente?

Sempre foi muito desgastante, sempre entrando para aprovar posts, para ver se algum conteúdo havia sido denunciado. Se tinha gente brigando, ou melhor, quem estaria brigando. A intolerância tomou conta nos últimos meses. As participantes me pressionavam demais. Eu ficava por conta dia e noite, final de semana. Voltei a ter insônia. Mas sempre reclamavam de tudo. Ninguém é obrigado a ficar onde não se sente confortável, mas muitas continuavam lá. Com o isolamento social e a morte de mais uma amiga, minha depressão foi voltando. E o primeiro sintoma não é a apatia, é a irritabilidade. Fui testada até o meu limite. Precisei admitir que não estava dando conta. Quando a gente aguenta as ofensas ninguém vê, mas no dia que a gente se descontrola recebe mil pedras.


Quais acontecimentos te motivaram a arquivá-lo? Você pretende fazer algo a respeito?

Quando algo deixa de ser bom, a gente precisa se desapegar. Eu estava vivendo um relacionamento abusivo com o grupo e não tinha me dado conta. Sempre sendo cobrada, acusada, ofendida. Recebendo mensagens ofensivas. E relacionamento abusivo é assim: a gente tem que cortar pela raiz quando se dá conta. Acho que demorei para perceber que era isso que estava acontecendo.


Como foi a decisão de arquivar o grupo?

Não entrei no Facebook no fim de semana para cuidar da saúde mental. Não está fácil lidar com todos os acontecimentos. São 75 dias trancada em casa. Preocupada com a saúde das pessoas. Recebendo notícias de mortes sem poder fazer nada. Recebendo uma quantidade imensa de pedidos de ajuda (fora do grupo).


Na segunda de manhã veio mais um daqueles posts polêmicos. Então eu tive a certeza de que eu não preciso passar por mais isso. Essas coisas já me levaram a várias crises depressivas, já tive câncer. Eu simplesmente não tenho que dar conta. Mas não foi uma decisão do momento, eu já vinha avaliando há alguns meses. O isolamento social serviu pra essa tomada de decisão.


No seu texto sobre o arquivamento publicado nas redes sociais, você falou sobre torturas psicológicas e ameaças. Você pode explicar quais foram essas ameaças?

Considero tortura psicológica ficar lendo ofensas entre as pessoas. E ficar sendo chamada de comunista e de coxinha (podiam pelo menos decidir por um ou por outro). Ter que ficar repetindo a mesma coisa o tempo todo sem nenhum resultado. Sobre as ameaças, elas nunca aconteceram quando eu reclamei de outros presidentes do Brasil, mas, agora, reclamar deste é pecado mortal.

Você acredita que esse tipo de comportamento tem a ver com o momento político do país? Por que?

Totalmente. Desabafei sobre isso outro dia. Hoje querem calar quem está contra o governo de uma forma que eu nunca tinha visto. Critiquei todos os governos anteriores, mas não havia essa intolerância.


Muitas participantes ficaram arrasadas com o arquivamento, porque viam ali um apoio. Você pensa em retomá-lo em algum momento? Gostaria de dizer algo para essas mulheres?

Já pedi desculpas a todas que tiveram ali um espaço de acolhimento. Sinto ter decepcionado. Mas a gente tem que se colocar em primeiro lugar. Nesse momento é o que eu preciso fazer por mim. Como eu sempre disse a todas elas, a gente tem que se colocar em primeiro lugar. Estou fazendo o que eu sempre falei.


O grupo está desativado, mas elas podem entrar em contato comigo pelas páginas, pelo Instagram. Eu fechei uma porta, mas as janelas estão abertas. Estou recebendo muitas mensagens, acredito que todo mundo entendeu que tudo na vida tem um começo, um meio e um fim.


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