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Hoje tem! (Será??!)

Atualizado: Jun 18

Depois dos filhos, a vida sexual de muitos pais fica prejudicada. Entrevistamos especialistas em relacionamento para levantar reflexões sobre esse tema que ainda tabu

(Foto: Pixabay )

Por Luciane Evans

Pode-se contar nos dedos o número de pais que, após a chegada dos filhos, não sentiu uma estremecida nas relações sexuais. É comum uma mudança brusca nessa área que, em alguns casos, passa a ser, inclusive, inexistente. Mas, como muitos temas que envolvem a maternidade e a paternidade, esse também é tabu.


Hoje, quando se comemora o Dia dos Namorados, talvez seja um dia para que muitos casais, pais e mães solos repensem sobre isso. E, para alguns, essa mudança pode não ter o mesmo peso que para outros tem. Até que ponto os filhos impactam a nossa vida sexual? Como não perder ou resgatar a intimidade e o prazer? Isso é possível?


É normal que o cansaço, as alterações físicas e emocionais, além da sobrecarga materna, abafem o fogo da paixão. Ou que simplesmente não tenhamos mais vontade de pensar "naquilo". Isso porque, quando os filhos chegam, seja por via natural ou adoção, a vida muda, a sexual principalmente. São muitos os estudos que comprovam isso.


Um deles, feito com 2 mil pais britânicos em 2017, mostrou que 1 a cada 5 casais não tem relações sexuais após ter filhos. Nesta semana, no Instagram do Cria Para o Mundo, tivemos uma pequena amostra dessa realidade.


Fizemos a seguinte pergunta aos nossos seguidores: "Com a chegada dos filhos o sexo para vocês: 'está normal' ou 'nem sei o que é isso'", e 85% dos 40 que responderam disseram não saber mais o que é isso.


"Nada altera mais a vida de um casal do que a chegada de um filho. A rotina muda, o que se tinha como prioridade não é mais. Os sentimentos e as sensações também mudam. A mulher tem uma mudança corporal para qual ela precisa se adaptar. Mas são mudanças que não precisam ser negativas", avalia Carolina Freitas, mestre em psicologia e especialista em sexualidade da plataforma Sexo sem Dúvida.


Carolina reforça que as alterações emocionais também interferem na sexualidade. "É preciso retomar a autoconfiança. É preciso (re) conhecer o novo corpo e os novos prazeres", diz, enfatizando a mulher nesse cenário. "A mãe continua sendo mulher, merece se cuidar e deve aproveitar os prazeres femininos. Ser mãe não significa deixar de ser mulher!"

A sexóloga reconhece que, nesse caso, algumas alterações físicas e emocionais podem comprometer essa retomada: "A insatisfação com o corpo novo é um fator que interfere na relação e na entrega sexual. As cirurgias plásticas e os tratamentos dermatológicos são bem-vindos, mas por si só não definem bem-estar. Se a mulher não tiver um novo olhar para a forma de viver sua nova história, o corpo novo, modelado e sem manchas também não garantirá o prazer sexual", pondera.

Homens e mulheres se anulam após os filhos


Conhecida por mães de Belo Horizonte, Gabrielle Faria é especialista em relacionamento e sexualidade. Mãe de um casal de filhos e madrasta de cinco, ela conta que seu foco inicial, há 7 anos, era a mulher. "Com o tempo, passei a entender que não adiantava olhar somente para o feminino. A outra parte precisava ser olhada também", revela.


Há 5 anos ela está nessa caminhada, olhando as duas partes. E conta ser comum pais se anularem após o nascimento dos filhos.


"E não isento os homens dessa anulação, apesar de percebermos nitidamente a mulher se anulando. Mas o homem se anula muito, de forma às vezes diferente, mas se anula como homem saudável também", revela.

Para se ter uma ideia, dos homens atendidos por Gabrielle, as disfunções sexuais se acentuaram após o nascimento dos filhos em cerca de 90% deles. "E 90% das mulheres já possuem disfunção desde que moravam com os pais", destaca.


Gabrielle Faria é especialista em sexualidade

Para Gabrielle, nada do que acontece em um casamento, na vida adulta como um todo, é apenas reflexo daquele momento. "Tudo tem uma raiz, uma camada, uma origem. Usar os filhos é apenas uma forma de tampar a origem, que é a criação. A forma como somos criados, como conduzimos nosso relacionamento, como levamos a vida profissional..."


Um olhar cuidadoso sobre esse assunto é, segundo ela, o casal se lembrar de que os filhos vão crescer e ganhar o mundo. "Vocês não podem deixar de cuidar de vocês somente quando esse momento chegar. Relacionar é um constante cuidado, é um constante reconquistar, e isso tem que vir de ambos. Conquistar e cuidar de si diariamente. Não se anulem", aconselha Gabrielle.

A visão do homem sobre a mulher mãe


Um dos pontos mais levantados numa relação heterossexual é de que a visão do homem (pai) sobre a mulher (mãe) muda com a chegada dos filhos. "O homem passa a ver a mulher como mãe. Há uma parcela grande de homens com essa dificuldade. Temos relatos de baixo desejo sexual e de até nenhum contato desse homem com essa mulher. Há os que se afastam ainda na gestação e outros depois, quando o bebê nasce e a maternidade fica mais concreta para ele", conta a sexóloga Carolina Freitas.


Ela afirma que tudo isso vai depender de qual significado o homem dá para esse novo papel de mãe dessa mulher. "Nos atendimentos sempre vejo a maioria dos homens dizendo que agora sua mulher é mãe, e que existe dificuldades de enxergar que elas continuam mulheres. Chego a receber relato de homens e mulheres que chamam seus companheiros como mãe e pai", preocupa-se Gabrielle.


Ela diz que um grande erro dos homens, dentro de uma relação heteronormativa, é ver a companheira de vida como apenas mãe. "Ou a mulher permitir que ela seja vista assim."


Sobrecarga como desestimulante sexual


Num primeiro momento, quando a chegada do filho é recente, é esperada uma queda na libido da mulher. Mas, de acordo com Gabrielle Faria, quando essa diminuição no desejo se arrasta mais do que o esperado, a perda da libido pode se tornar uma disfunção sexual.


"Dentro do período de chegada do bebê, com toda a rotina bagunçada e o sistema familiar modificado, é normal que a mãe sinta menos necessidade e vontade de sexo, e pensar em transar se torna algo secundário. Já em um segundo momento, quando passa esse período de adaptação, é possível e é o esperado que a mulher dê atenção para seu corpo e suas necessidades vitais comecem a voltar, assim como os pensamentos e desejos", diz.


Existem vários fatores que, segundo a especialista, devem ser levados em conta para a diminuição ou falta de desejo sexual. Sobrecarga; níveis de taxas hormonais; exemplo de sistema familiar, entre pai e mãe dessa mulher; motivação para ter tido o bebê; se o companheiro (a) a olha como mulher ou só como mãe; se ela consegue se olhar como mulher após a maternidade.


Carolina Freitas é mestre em psicologia

A falta de uma divisão de tarefas igualitária, fruto de uma sociedade machista, é apontada muitas vezes como o principal fator para a falta de desejo feminino, já que a mulher vive tentando equilibrar casa, trabalho, filhos, enquanto homens não têm os mesmos desafios.


"Além de uma divisão igualitária e uma rede de apoio, ela também precisa delegar. É uma forma de abrir espaço na vida. E reconhecer esse novo corpo como um novo corpo que dá prazer, que precisa de carinho, toque, afeto. Esse é um passo importante para recuperar o tesão dela com ela mesma, para depois levar isso para a parceria", ressalta a sexóloga Carolina.

"O mais valioso é se olhar novamente”


Ao entendermos o sexo como um momento de entrega, prazer, confiança e intimidade de duas pessoas, a ausência dele pode impactar em todo o resto. "Se esse momento não existe com plenitude, como serão todos os outros momentos?", provoca Gabrielle, que diz que, quando se entende que o prazer sexual de uma casal é parte do complemento para uma vida mais saudável e plena na relação conjugal, no convívio familiar, social e profissional, "entende-se que esse momento faz parte da necessidade básica de qualquer pessoa."


Ela ressalta que o sexo de qualidade, em que ambos sentem desejo, prazer e gozem, permite que todo o resto flua. "Óbvio que irá gozar da vida juntos. Não estou dizendo que o casal não terá atritos, mas ao se voltar para a relação como um todo, quando os atritos surgirem, será mais fácil de lidar e mais leve de entender ambas as partes, pois existe entrega, intimidade, confiança e respeito em todas as bases", assegura Gabrielle.


Mas como ter essa sintonia de volta?



Um primeiro passo é a retomada do prazer. E isso tem a ver com a descoberta do novo corpo. "É fundamental a mulher sentir prazer sozinha. Saber do que ela gosta, o que lhe dá prazer. Quando nos tornamos mães, perdemo-nos um pouco para depois nos reencontrarmos. Então, essa mulher tem que procurar sentir prazer sozinha, principalmente, o prazer sexual ", enfatiza Carolina.


Ela diz que a masturbação vai ajudar no autoconhecimento feminino. "Vai ajudar nesse toque dessa mulher no corpo novo, para que ela entenda as alterações que sofreu. Se bem compreendidas, as mudanças são vistas como boas e o amadurecimento sexual acontece aí também", enfatiza a sexóloga, acrescentando que, ao saber do que gosta, a mulher vai se sentir bem e vai poder compartilhar isso com a parceria.

Verificar os níveis de taxas hormonais e procurar caminhos que auxiliem de verdade na liberação dessa energia que está travada é também um lado levantado por Gabrielle, que indica terapias, autoconhecimento e tempo para si, tanto para as mulheres como para os homens. "O mais valioso é se olhar novamente”, diz.


Para o casal, Gabrielle comenta que o caminho é com muito amor, compreensão, diálogo, entrega e empatia. "Quando o casal está disposto a caminhar juntos na vida, com um propósito para os dois, respeitando e entendendo que cada um é um indivíduo, e juntos são dois e não se tornam um, a jornada de serem pais não anulará a mulher ou homem que existe em cada um", afirma.


Ela aconselha aos pais se permitirem a olhar como indivíduos, entendendo a necessidade que possuem enquanto mulher e homem. "Busquem na essência resgatar os motivos de escolher o companheiro(a) que está ao seu lado e tragam toda essa energia para a consciência de que, ao se tornarem mães ou pais, não deixaram de ser mulheres ou homens. Dialoguem e façam os acordos e ajustes necessários para que o relacionamento siga com muita leveza."


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